23 julho, 2007

À época da crônica


23/07/2007.


Na maioria das vezes, ou quase sempre, se inicia uma crônica de forma despojada, assim como quem nada quer, com um punhado de cotidiano e pitadas do tempero de coisa comum, tal esta que tomo nota agora, da qual pouco sei e que não consigo avistar por uma fresta mínima o seu sentido e menos ainda como se dará o desfecho. As palavras vão simplesmente surgindo despretensiosamente à minha cabeça e vou colocando-as aqui nesta folha virgem; essas palavras se juntam a outras, sucessivamente, até que se fomente o primeiro parágrafo da crônica. Com bastante condescendência e amor e amizade, lê-se agora um parágrafo bem acabado, mas é certo que não podemos negar à história o seu princípio, ou, como diria um antigo professor, a introdução da obra, mas, por não ter a deliberação de que o pano de fundo seja o erotismo nem de que as personagens se refestelem na vida mundana, prefiro a palavra “princípio” – introdução poderia ser entendida com outra conotação. Portanto, livro-me das mentes poluídas de sexo com essa tacada. Pois bem, tenho o primeiro parágrafo, e diria que não tão humilde, pois são quatorze linhas, até o momento, com poucas palavras repetidas e, mesmo assim, ao encontro daquilo que tenho vontade de dizer. Ainda por cima uso o verbo “preferir”, que é dado a ser desgraçado por quem acha que se prefere uma coisa “do que outra”, e também me utilizo da forma “ao encontro” – piso que muitos escorregam e se estabacam por inteiro. Pronto. No entanto, pela releitura que faço, não tenho certeza se serei portador de notícias tristes ou alegres, ou quem sabe da pior de todas: a morte. Passemos para o segundo parágrafo.

A crônica ganha modesta massa corporal, mas é preciso uma personagem, sob pena de estarmos falando do nada para coisa nenhuma. Vejamos uma graça para o tal, sim, pois será homem nossa personagem, e imagino meu revisor literário me apanhando em flagrante atribuindo à personagem o pronome masculino. Será Epaminondas – decidi por um nome que fosse engraçado e este, de certa forma, se encaixa muitíssimo bem ao propósito, além de ser revestido por uma imagem de gente desinteressante. E qual exatamente a importância de Epaminondas para a crônica? Epaminondas recebeu uma gravata de uma admiradora secreta, muito embora possa ter despertado a paixão de alguém do mesmo sexo, é claro, então não trataríamos de admiradora, mas de um admirador, com letra maiúscula. Epaminondas é caixa de um banco privado e foi agraciado com a tal gravata no meio do expediente, entre uma quitação de caderneta e um depósito, levada pelo entregador da Alfaiataria Veloso. O entregador não tinha autorização para desvendar o mistério e se foi tão logo Epaminondas assinou um protocolo de recebimento. Todos olharam para ele, que ficou corado, pois não tinha costume de receber prendas, ainda mais anônimas.

Sim, e daí que o Epaminondas tenha recebido de presente uma gravata, qual o problema? É verdade que temos de encontrar a função de cada situação com a maior brevidade, a fim de não estender o texto e ele vir a ser confundido com um conto. Epaminondas recebeu uma gravata durante seus afazeres no banco – uma gravata pra lá de cafona, que combinaria com reduzido número de paletós, e Epaminondas não possuía vestimenta para fazer par com a gravata. Epaminondas não era casado, portanto, não teria maiores desgastes ao chegar a casa – não havia vivalma para infernizar sua vida com ciúmes despropositados. Epaminondas, no entanto, tinha um papagaio meio verde meio amarelo e percebeu que a gravata poderia se associar às duas cores substantivas do louro, formando um belíssimo trio. Picotou o presente em tamanho menor e laçou o pescoço do papagaio com um nó four-in-hand. O papagaio não estranhou, pois já era metido a faceiro – mais galante do que o próprio dono. Epaminondas sentou na sua poltrona e ficou observando o papagaio, conjeturando quem teria lhe mandado secretamente uma horrenda cravate. Talvez nunca descobrisse, pois era tímido. E the end para a crônica de dois pés e uma pequena cabeça.

Mendes Júnior.
* Photo by Alberto Rubio, "La Rochelle (from the Souvenir Francais Series)".

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