12 setembro, 2010

O cio II - Um se que apareceu do nada


E agora as palavras surgem aos borbotões. Elas me cobram asas que as façam alçar voos agudos e fragorosos, além de incitar sons de ilécebras. Estou disposta a destroçar o fígado com o fura-gelo para ter a estúpida crônica até às três da madrugada, que é quando enfio pela goela, manchada de desespero, a escrota da droga que me garante o sono. Passando da hora, sou uma mulher esfolada, escangalhada, esquartejada e estuprada. A dependência é abominável, mas meu organismo já se deixa dominar sem receio. Em suma, sou invencível na cama, subordinada na vida e rastaquouère na escrita, admito.

O relógio diz que ainda tenho muito tempo: apenas abre o anoitecer. O do macacão não mais me interessa. Sou orgulhosa, é bem verdade. Não era um táxi – somente uma mulher piegas e sedenta era capaz de pensar assim – mas um encontro, um rendez-vous, c'était un rendez-vous! Acabou todo o meu tesão pelo filho-da-puta. “Não serei mais sua cadela, otário!” – gritei descontrolada do alto, como raras vadias fariam, o que assustou a todos que se encontravam nas proximidades da minha loucura. “Não ficaria de quatro para cem como você, porra! Nem para mil!”, completei.

Sim, ideias me chegam, afinal, estava em plena performance dos desejos sexuais, acessível à literatura, portanto, mas, ao mesmo tempo, uma agitação longíqua do natural me impedia de concatenar frases e criar personagens, senão a partir de fatos que me atormentavam a cabeça, e isto não interessava. Posso parecer contraditória naquilo que digo e tento escrever, mas canto os versos do poeta Augusto dos Anjos para confortar o despojo da alma: “Nessa hora de monólogos sublimes, / A companhia dos ladrões da noite, / Buscando uma taverna que os açoite, / Vai pela escuridão pensando crimes”. E observo, como atenta espectadora, que toda minha história se baseia na fuga da verdadeira vida ao lado de animais. Alguém falou que a pior e mais desgastante de todas as conversas é justamente a que temos conosco. Olhar-se no espelho é uma atitude corajosa para que poucos se habilitam. Não me junto aos poucos, ou me junto aos poucos – uma frase ambígua, por certo, que anoto na palma para usar em algum texto.

Diante da minha pequena batalha de escrever, constato ainda que não é uma ilação com sotaque de puta. Faço contas e me surpreendo com meu trigésimo dia sem transa, a bem da verdade, sem o Romildo. Quase uma virgem. Tiro o roupão e me estiro no sofá de couro pintado, de frente para varanda. Quero o vento, a liberdade. O silêncio combina em perfeição com o vinho que agora banha minha quentura, porém não o suficiente para miná-la, ao contrário, o álcool instiga meu apetite. Desisto de escrever. Olho o vazio por entre o cortinado lépido de cor laranja, e mais uma vez lembro do vergalhão do Romildo – um bendito! Assola-me a vontade de pegar o telefone e ligar para o covarde, mas o que diria? Que melhorei a receita da pessegada? Nada! Minha única intenção era acabar de vez com a brama, e isto poderia ser feito com um ou uma qualquer, com a Márcia Fofollete (amiga de quando trabalhávamos no restaurante de quinta categoria, meio cabaret), ou até comigo. Pensando assim, não hesito em “prosseguir a marcha”, pois dedos melhores do que os meus ainda estou por conferir.

Mulheres, à luta! Sozinhas e independentes, mãos à obra! Qual mulher não se masturba? Será que Simone de Beauvoir se masturbava? Opino que apenas quem não se conhece por completo, por dentro, aquela que não se ama, alcança o pecado. É o que digo! Escancaro que foi uma criança, de cachos doirados e resplandecentes, com olhinhos arregalados, assustada, que me advertiu ser uma coisa feia. Uma transgressão religiosa que me fecharia as portas dos céus, embora lá já estivesse? Duvidei. Ei-la estática, uma bola de futebol entre o braço direito, com boca de canhão no rosto e um pintinho ansiando romper a gaiola. Juro que também fiquei desconcertada. Permanecemos. Eu, em pelos, retirando lentamente a mão de dentro das pernas, enxugando-a nas carnes da coxa, e ele parado sem saber se me fitava, se se atinha ao meu sexo ou se corria.

* Escrito em setembro de 2010;
** Red Continuum OF-A143, by Oleg Frolov.

18 maio, 2010

O cio I - De quando em quando


Admiro quem tem a honesta capacidade de escrever todos os dias, inclusive aos domingos; gente que consegue fazer das ideias, mesmo as ruins, uma fonte permanente de criatividade; invejo um Balzac, um Dumas, que “trazia no ventre uma biblioteca inimaginável”, enfim, verdadeiras cachoeiras jorrando água aos montes. Considero a ausência de disciplina, talvez um pouco de ócio, é bem verdade, e as dívidas responsáveis pela caçoada deste filiforme cotidiano. Inúmeras tentativas me alertaram de que não sou escrava nem máquina da palavra. Já dediquei horas ao ofício, mas sou rasteira demais para creditar minha vida a isto, sem contar a imperiosa idade. Prefiro abusar dos primitivos desejos, capazes de corridas auxiliadas pela maconha, que passei a fumar com uma colega que se achava sucessora de Clarice, morando numa quitinete na Barata Ribeiro, no Rio de outros carnavais. De modo que apenas quando sinto pulsão sexual é que sento para escrever; geralmente, quando estou no cio ou, popularmente, subindo pelas paredes. Mesmo ardendo entranhas, escrever me sacia a sede. Penso nos que beberam minha nudez, alguns gordurentos, asquerosos, cheirando à nicotina e a álcool, para compor minhas dulcíssimas poesias. Um homem na condição de animal pavoroso me obriga a imaginar posições que prefiro e minhas mãos correm a construir histórias. Não sou vagabunda, embora contumaz em bacanais e lojas eróticas, sempre comprando besteirinhas para temperar a solidão – que aniversaria hoje –, desde o dia em que o porra do Romildo embuchou a empregada da mamãe. Escorracei e me arrependi. Não nos despedimos nem conversamos, mas nos cuspimos a cara: parecíamos dois gatos engalfinhados se arranhando até sangrar. Assumo a persistência em querer o Romildo na cama ainda agora. O pinto dele era um vergalhão grosso e inclinado como uma torre desengonçada. Pena que foi apoderado por outra “mata viçosa”. Canalha! Que a doméstica fazia uma pessegada melhor! Isto é lá desculpa!

Calma, calma, calma – suspiro.

Quero falar de literatura, sobre o ato de escrever, destas coisas. Há quem goste de romances policiais, tratados melosos, coisas fantásticas, folhas religiosas, literaturas técnicas, rocamboles juvenis e até porcariadas para arrebatar a estima de enganadiços. Longe de querer audaciosamente criticar livros, mas escrevo sacanagem e é dela que tento viver – sinto-me uma raposa motivada. Foi da desdita possibilidade de se atulhar em peças jurídicas – um jogo que descobri sem nobreza quando estava nos bancos da faculdade – que me dediquei ao ofício da literatura. Fico ensimesmada por às vezes minhas atitudes nada dizerem a meu respeito, muitos estupores e me encabulo fácil, ajo como numa fantasia com a boca rosada de fora, embora os pensamentos não passem por este dilema: é diferente, sou mais solta, livre e adúltera; talvez falsificada. Chamo-me Ritelma de Laguna – digamos que se trata de ficção, como muitas por aí: Marilyn Monroe, Grace Kelly e Sophia Loren – e hoje vivo num úmido apartamento no centro de uma cidade que ninguém conhece tão bem, principalmente o pedaço em que alvas e morenas sem banho se dedicam a homens gulosos. Como falou Kierkegaard: “Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História”. O sexo é o cimento da humanidade, não se nega. Repito: escrevo no cio! Quando quero o macho, como agora, e olho da janela um rapaz loiro de macacão fumando, tenho vontade de descer, arrancar o macacão, atirar as mãos nos seus braços, ficar de quatro e lhe suplicar.

* Escrito em março de 2010;
** Red Continuum OF-A142, by Oleg Frolov.