15 março, 2011

O cio III - Finalmente, quando tudo é estranho


Se meu susto foi menor do que o dele? Não! Meu susto não foi menor do que o dele! Pior: toda aquela liberdade, que me fazia esbaldar amiúde, de certa forma atirada, incomum aos padrões, pervertida, e, até para quem não conhece muito da vida, uma fatia azeda, passou a ser vista como excesso por mim. Entender ou não é um mero detalhe quando se sente, quando se torna inconsciente, quando não depende mais de nós. Claro que havia uma mistura de satisfação e de atropelo por parte da criança, haja vista sua incapacidade de se voltar e correr, estava estampada, ao tempo que não arredava o rosto, petrificada, como se quisesse dizer algo, pedir absolvição pelo incômodo, clamar para que a perdoasse por ter me visto nua, em atividade sexual solitária, que lhe faltara educação...

Mesmo sabendo que o menino nada esboçaria, queria-o tranquilo, menos culpado. “Não há problemas, sou eu quem lhe devo desculpas” – murmurei, e minhas palavras foram ditas com tanta sinceridade que, subitamente, duvidei de que a voz seria um dia de Ritelma de Laguna, da guerreira incandescente Ritelma de Laguna, da escritora menor Ritelma de Laguna.

Na lembrança havia ainda afeição, qualquer farelo de sentimento bom, mas estranho ao meu cio ordenado, que, aliás, era a razão de todo desconforto. Depositei a taça vazia na mesinha ao lado e quase derrubo o jarro com cravos amarelos (o amarelo me coloca em estado positivo, junto com o lítio), que, tal qual Mrs. Dalloway, na Londres da década de 20, sou eu (a própria) quem compra, contudo na Paris desfocada do século XXI, até por não ter quem o faça no meu lugar.

Lentamente, com as mãos relativamente trêmulas, tentei devolver ao corpo o roupão, embora não estivesse em condições para me levantar e amarrá-lo devidamente; tateando na caça do cinto jogado ao soalho, não desviei o olhar; vesti o bastante para cobrir minha intimidade. Notei que o menino se sentiu infinitamente mais confortável, tanto que deixou o letargo, se virou e fez menção de escalar o muro pelo qual tinha pulado para a varanda, mas, como diz a velha máxima, descendo todo santo ajuda, e se quedou desproporcional o seu tamanho, sua força e a altura da parede. Repetiu os movimentos três vezes até notar que era uma façanha impossível; então, estacionou, restou imóvel como outrora, mas desta vez virado de costas para mim, por certo, esperando que o ajudasse. Uma desgraça!, deve ter atinado. A bola de futebol em seu braço me deu a certeza de que ele queria apenas o objeto de sua brincadeira. Eu, curtir meu cio. Estávamos os dois interrompidos pela eventualidade de um encontro inimaginável, principalmente pelo caráter imposto a partir de quando sentei para escrever as primeiras linhas desta história. “Não há problemas”, disse uma vez mais, embora em outro tom: mais segura. Enfim, levantei-me; apanhei o cinto do roupão e caprichei no laço; fui à porta da sala e refiz as duas voltas da chave; escancarei-a; um vento fresco entrou antes que o menino saísse desembalado sem mais me fitar. Ocorreu-me uma vontade de tocar seus cabelos, como faria uma mãe oferecendo conforto. Evitei o contato de modo a preservá-lo.

Corri até a varanda, queria vê-lo novamente, mas muitos anos se passaram. Em meio a quimeras, Paris fazia um céu denso de raras estrelas.
* Escrito em fevereiro de 2011;
** Red Continuum OF-A138, by Oleg Frolov.

3 comentários:

Ana Guimarães disse...

"O fato é que Idália tinha tudo de que precisava até o derradeiro piscar da vida: os livros". O mesmo digo eu.
Gostei imensamente do seu texto, Mendes Júnior.
Abraço!

Mendes Júnior disse...

Cara Ana, agradeço pela leitura e pelas palavras generosas. Um grande abraço, Mendes Júnior.

Reh disse...

Que situação! Hahah Li todas as três partes com um sorriso largo estampado no rosto!