22 setembro, 2007

Sem sentido


22/09/2007.


Rinaldo Galhardo despertou em estado de perturbação absoluta, mas isto por causa do dia anterior, que – diga-se de passagem – foi dos mais trágicos na sua vida. Logo cedinho, levaram-lhe as únicas moedas enquanto aguardava a condução diária, depois, diante da ausência do minguado dinheirinho, teve de ir caminhando até a repartição e, por esta razão, ao bater o ponto, foi levado à mesa do gerente para ouvir poucas e boas pelo atraso. Na mesma manhã, por intermédio de um companheiro de sala, descobriu-se traído por um antigo colega de colégio, chamado Pompeu, que há muito vinha tendo um caso amoroso com Leide, uma balconista que Rinaldo Galhardo se enamorava desde o começo do ano e que correspondia porém com um sentimento estranho, é bem verdade, mas somente agora entendia o porquê. Nada disso, até então, havia feito qualquer estrago ou mudança na expressão sempre econômica de Rinaldo Galhardo, a não ser uma bala perdida que acertou em cheio o seu peito, quando caminhava para o almoço pela Major Facundo, por ter sido confundido com um perigoso-cruel-assaltante-de-banco-há-tempos-procurado.

Não lembrava de muita coisa, mas aquela brancura toda no quarto, inclusive no pijama que agora vestia, denunciava um hospital – público ou privado? – era uma pertinente pergunta a ser feita, pois Rinaldo Galhardo não tinha nem para o ônibus de volta. Procurou por aqueles botões ao lado da cama que chamam enfermeira (ou coisa que o valha) para se certificar do que teria acontecido a ele, mas não havia nada que indicasse essa facilitadora comunicação, no entanto existia a mais antiga de todas: a voz. Absurdamente, Rinaldo Galhardo não conseguia falar palavra algum, não saía nenhum gemido por sua boca, enfim, ele estava mudo. Rinaldo Galhardo pensou tratar-se de um pesadelo, uma brincadeira de mau gosto do seu inconsciente, que teria ficado invocado com o impedimento imposto pela barreira de recalcamento, e assim lhe concedeu um bom beliscão, a fim de trazê-lo de volta à realidade, entretanto, mesmo podendo notar a mancha vermelha no braço, não sentiu dor.

Viu numa mesa de canto, dentro de um copo de vidro improvisado de jarra, um par de rosas amarelas. Quem as teria posto ali? uma visita? a balconista? alguém da família?, mas as perguntas se iam como vento pela janela aberta. Esticou o pescoço para tentar enxergar a paisagem fornecida pela única janela do quarto, mas sentiu como se estivesse flutuando e a náusea fez com que recostasse a cabeça no travesseiro e se deixasse como antes. Totalmente incompreensível, pensava Rinaldo Galhardo, e aquilo começava a minar sua paciência. Tentou gritar mais uma vez, porém forçou tanto as cordas vocais que ficou cego. Era o cúmulo o que acontecia a Rinaldo Galhardo: num quarto de hospital sozinho, sem saber o porquê, deitado numa cama sem fios ou aparelhos colados ao corpo, sem voz e, agora, cego. Precisava de ajuda para entender um mínimo.

Rinaldo Galhardo pensou como devia ser diferente já nascer cego e perder a visão depois de velho, tendo tomado conhecimento das cores, das formas, do bonito e do feio. Nada fazia sentido, no entanto, com uma elegância surpreendente, esfregou os olhos inválidos e construiu imagens disformes de cor amarelada. Lembrou do par de rosas que estava ao seu lado e imaginou seu cheiro, mas não passou da tentativa, pois também estava privado do olfato. A vida é mesmo um desafio e, por vezes, confusa e preclara de ser abatida. Rinaldo Galhardo, em meio à sua cegueira, conseguiu no vazio lembrar, mesmo que de forma muito limitada, do que havia acontecido no ontem e sabia ter levado um tiro. Passou a mão pelo corpo, para encontrar exatamente o local atingido, mas já não havia as sensações provenientes do contato. Aquela situação maluca levara-lhe a um descontentamento no peito e só então atinou que o tiro fora no lado esquerdo dele, ou seja, no coração. Pobre Rinaldo Galhardo...
Mendes Júnior.
* Photo by Hyvrard, "Pongo nº 1".

Manual de sobrevivência em época de eleição (ou uma volta ao templo do futebol)


13/07/2006


Foi dado o pontapé inicial das eleições deste ano. Acabada a Copa do Mundo, é momento de decidir quem serão nossos representantes para os próximos quatro anos. Tal qual o esporte bretão, a vitória se dá de forma coletiva. O “p” se coliga com o “p” que, por sua vez, alia-se ao “p”, que traça uma proposta de jogo e vai a campo. Ganha aquele que apresenta as melhores táticas, diante dos momentos mais críticos; alguns até revertem placares indecentes, através do fair play ou da prática antidesportiva. Porém não há aqui a famosa caixinha de surpresas (onde tudo pode acontecer) nem seremos meros espectadores inertes, movidos por uma sensação irracional. É necessário não esquecer de que somos cidadãos e de que vivemos em um território, aparentemente, democrático; portanto, somos nós os donos da bola.

A primeira grande jogada é conhecer os candidatos. Eles sempre serão muitos; alguns jamais sequer ouvimos falar ou o vimos falando; outros nem iremos imaginar disputando uma vaga – há tempos ociosa – de síndico de nossa favela vertical; têm aqueles que vão estar de férias (leia-se: licença) e que, claro, não interromperemos; e, finalmente, dois ou três que acreditam nas próprias palavras eleitoreiras. E os sérios? Estes vocês encontram, vez ou outra, escondido em algum lugar no gramado. Em meio aos jogadores, existem os narcisistas, os maquiavélicos, os profanos, os frígidos, os esdrúxulos, os apolíticos e os laranjas – só para citar algumas letras do alfabeto. E os sérios? Lá vêm vocês novamente com esta história. Eles estão na letra “s”, pronto!

Nunca é demais estar atento à publicidade partidária, afinal, a ciência eleitoral ainda não foi capaz de elaborar maneira mais (in)eficaz de colocar o eleitor cara-a-cara com seu representante. Porém, muito embora haja um bombardeio sonoro e uma poluição visual, é preciso ter em conta de que nem tudo é perfeito. Santinho e outdoor, por exemplo, são cópias fidedignas de uma genética, às vezes, longe da beleza. O candidato não deve ser escolhido pelo que tem fora, mas pelo que permeia suas intenções. É bom tomar cuidado com os candidatos que endereçam cartas às residências. Num país heterogêneo feito o nosso difícil acreditar que o correio não tenha se enganado quando enviou para Irauçuba uma carta idêntica a que entregou em Fortaleza. Para aquela proposta indecente de pintar o muro de nosso lar dê uma vaia moleque e corra pela tangente. Aproveite para esquecer o palanque munido de cantores sertanejos – nós não queremos mais ouvir falar de circo.

Certifiquemo-nos de que iremos rir, chorar e odiar o horário eleitoral gratuito. Por alguns instantes (às vezes intermináveis) sua televisão – que você ainda nem terminou de quitar o crediário – lhe proporcionará irretocáveis atuações. Nem toda dramaticidade do mundo deverá fazer você perder de vista o porquê da sua atenção: precisa-se de um candidato. Não esqueça de tomar nota do número da camisa do jogador predileto, já que isto não é feio: feio é não ter para quem passar a bola. Aproveitemos, pois pouquíssimas coisas permanecem gratuitas nesta época do ano. E se por acaso você for acometido por um certo déjà-vu, não se engane, eles não são os mesmos desportistas da Copa passada, apenas que resposta de jogador de futebol é quase sempre igual.
Mendes Júnior
* Publicado no Jornal O Noroeste, em 14/07/2006;
** Photo by Jeremy Webb, "Back Study".

19 setembro, 2007

Indicações Musicoliterárias

Juan José Millás

Estou, há dias, envolvido misteriosamente com temas relacionados à psicanálise, behaviorismo, epistemologia e outras questões afins; também tenho me ocupado com a releitura de Cem anos de solidão, conforme dissera em outra oportunidade, no entanto, mesmo me restando quase nada do tempo, abri um espaço precioso para conhecer de perto a literatura de Juan José Millás. É claro que já ouvira falar a respeito do escritor nascido espanhol (e muito bem, é verdade), mas o que até então não havia experimentado era algum tempero de sua obra, que é vastíssima, diga-se. Alguns títulos ainda não têm tradução em nossa língua, o que de pronto pode ser considerado um pecado editorial – igual a tantos cometidos diariamente nessas plagas. Ficarei na torcida para que, com a entrada da Editora Alfaguara no Brasil, esse e outros problemas sejam minimizados.

Juan José Millás foi bastante influenciado por Dostoiévski e Kafka. Suas novelas expõem, de forma clara, uma visão angustiante do ser humano, e isto me foi possível constatar com a leitura de Laura e Julio, livro este publicado recentemente pela Editora Planeta. Trata-se de um casal, Laura e Julio, que, por decisão dela, se separam logo no começo da trama, enquanto o vizinho e amigo Manuel permanece em coma numa cama de hospital. Julio, por sua vez, sem ter muito aonde ir, resolve ocupar o apartamento de Manuel, no entanto sem que ninguém saiba. Pouco depois, assume (relativamente) a “figura” de Manuel e começa a se descobrir numa nova vida, donde também nasce uma curiosa relação com uma menina de seis anos de idade. Uma das pérolas da narrativa é a convivência “conflituosa” de Julio com o estranho e a lucidez, diante dessas situações todas. A novela é muito curiosa e vale a leitura, apenas ressalto alguns erros, provavelmente de revisão, ao longo de suas páginas.

Um pequeno trecho de Laura e Julio:
“La noticia del accidente divide la tarde del sábado en dos partes con la limpieza con la que un bisturí separa la carne. Por la expresión de su mujer, Julio calcula que una vez que resuelvan las cuestiones de orden práctico tendrán que enfrentarse a un desamparo excesivo, por lo que, al objeto de retrasar ese instante, propone varias cosas inútiles que ella ni siquiera escucha. Pasados unos minutos, cuando Laura regresa a su cuerpo como el pájaro regresa a la jaula tras haberse golpeado contra las paredes, se dan cuenta de que no tienen la llave del piso de Manuel (aunque él sí dispone de la de ellos), lo que les imposibilita entrar en él para buscar el teléfono o la dirección de un pariente en el que delegar la ejecución de los trámites. Y del dolor. Es entonces cuando Julio cae en la cuenta de que han mantenido una familiaridad sorprendente con una persona de la que lo ignoran casi todo. El problema es que su matrimonio, sin ese individuo, resulta ya incompleto. La atmósfera destemplada y húmeda de la tarde penetra en el piso y roza, como un suspiro fúnebre, el ánimo de la pareja. Por la televisión, encendida aunque muda, pasan el anuncio de un perfume que inaugura la campaña de Navidad”.

Esteja dito.

Mendes Júnior.

18 setembro, 2007

Meia-noite


23/04/2006.


Que poderia dizer da meia-noite se agora é a única a me fazer companhia, se neste exato instante é quem me toma todas as mágoas passadas? Sinto-me tal e qual um bicho inseguro e, amiúde, permaneço imóvel e sem direção. Estou tão próximo do desespero e da dor! Não esporádico meu pensamento se alimenta de algo insistentemente amargo. Mas sou sabedor de que nada dura para sempre e, quanto menos eu esperar, eis que surgirá (repentinamente) o fiapo tão desejado de uma esperança (lúbrica) – a única que de fato não morre (ou será o contrário), daí acreditar no amanhã como quem crê na extremidade do suspiro da bendita angústia. Os ponteiros inimigos denunciam a chegada de mais uma virgem madrugada. Outro fato do qual estou certo é de que não há relógio que alardeie ao marcar meia-noite.

E mesmo se estivesse expondo uma noite festiva ou quem sabe religiosa – na incomum tentativa de garantir, decerto, uma absolvição –, não justificaria a presença deles naquela rua àquela hora. Na hipótese poderia repetir a narrativa triste que noutro dia me chegou, para a qual não dei qualquer crédito, até pelo absurdo da minha franqueza, mas isto não traduziria o real. Por meio deste coração – que um dia certamente não será de outro – percebi tratar-se de um momento qualquer, num lugar qualquer, durante uma meia-noite qualquer. A cena: uma mãe, uma criança de colo e duas crianças já crescidas. E aquilo nunca saiu da minha cabeça.

É impressionante a capacidade que temos de armazenar desastres (pois é desta maneira que concebo). Basta uma leve topada e lá se vai o pensamento seguindo por um rumo sob o qual não temos nenhum controle. Às vezes fazemos viagens longínquas com um simples acorde ou toque de fragrância. No meu caso, meias-noites levavam-me por um labirinto escuro e maldito. Não me permitia a memória apagar o rosto daquela mãe. Poderia desenhar os traços de seu nariz e de sua boca, caso fosse necessário, mas não há alívio para tanto. Deparo-me, no entanto, enxugando suas lágrimas e acalentando seu desespero. Não seria capaz de fustigar minha expressão insalubre. Por instantes não tirei os olhos do rebento que se acomodava em seu regaço. Os dois outros pequeninos batiam freneticamente na minha janela, que nem sequer colheu suas digitais. Eram quatro mãos abertas chamando-me e clamando por um punhado de atenção; talvez viradas para o céu esperassem uma alma caridosa a lhes saciar a fome. Não consegui desviar a vista daquela criatura sentada à beira de calçada esperando sabe-se lá o quê da vida. Durante segundos, não mexi parte alguma do corpo.

Mas o movimento nos faz novamente humanos e seria (in)compreensível encontrar alguma beleza lá fora. Imaginemos – não como poetas – que nas ruas muitos se digladiam pela sobrevivência. Pisei fundo: medo?, não sei, mas fugi, no entanto não imaginava que o meu maior medo viria enlaçar minh’alma até agora. Talvez aquela mãe sem paradeiro tenha atestado na minha face uma forte vergonha. Não queria que eles estivessem ali. Não deveria ter sido comigo. Poderia ser com qualquer um, mas foi comigo, justamente comigo, que nada fiz por essas tristes vidas. Embora tarde fosse o tempo, queria agora ser um angorá e ter passado a noite com aquelas crianças brincando e se deixando brincar. Meia-noite e essa vontade de chorar.

Mendes Júnior.
* Photo by Lourdes Grobet, "Blue Demon".

14 setembro, 2007

Visita ao poeta


14/09/2007.

Ao José Alcides Pinto

Ontem visitei um poeta, mas não um poeta menor, como deixou em testamento Bandeira, que tampouco precisava pedir perdão por isto – vaidade? claro que não: nele habitava a estrela da vida inteira –, nem há que se admitir tão-somente o fogo das constelações e seu risco brevíssimo, pois era belo belo belo e poeta assim não precisa se ir pra Pasárgada, embora não tenhamos a dádiva de transmutar o destino alheio e, certamente, estará lá, com ou sem mesuras, estendido numa cama simples acompanhado de uma doce prostituta, as duas escolhidas como se nunca as tivesse possuído, zombando de nós (invejosos) mas de maneira saudável. Como lhes falava, ontem visitei um poeta, e é gostoso ouvir a poesia brotando do próprio cotidiano, da existência da fala sem a camisola de escritor, das coisas comuns a quaisquer comuns como nós, gente que ri do óbvio e pensa ser louco o mais ajuizado dos homens, pois, não debulhem o abacaxi, somos (todos) uma cambada de neuróticos, me dizia Freud na “Interpretação dos Sonhos”, que de pronto aceitei sem questionamentos. Chamou-me poeta e quis saber de mim se eu rabiscava alguma coisa ou se algum dia da minha luta havia escrito um poema qualquer ou se já olhara uma página vazia como para uma mulher a ser explorada com a delicadeza de virgem, com lápis em punho, mas não, poeta, quem sou eu para transformar angústia em poesia, senão um reles contínuo que adora uma sacanagenzinha? Vim em sua morada, com o respeito necessário, pedir-lhe humildemente que assine essa edição, pois é aniversário de uma namoradinha e ela adora suas histórias – passa o tempo inteiro com o volume debaixo do braço, pra cima e pra baixo – e gostaria de fazer uma surpresa. Ofereceu-me um pouco de refrigerante e me advertiu de que não o chamasse de senhor, por hipótese alguma, apenas de poeta. Vou aceitar um copo, obrigado, poeta. Nunca havia estado próximo de alguém que eu considerava tão importante, por isso demorei um pouco para dominar a bebida na minha mão, que tremia de respeito. Não havia mais ninguém na modesta casa, que ficava no final de uma vila no centro, e nas molduras coladas às paredes descascadas da sala apenas recortes antigos de jornais com imagens de um escritor quando jovem. Veio-me novamente Bandeira: “Não tive um filho de meu./Um filho!...Não foi de jeito.../Mas trago dentro do peito/Meu filho que não nasceu”, e isto ficou soando falso tão logo adentrou pela estreita porta de madeira uma de suas filhas, disse-me. Seu nome confesso não lembrar, mas há relação com algum país – acontece que não sou bom com identidades nem com datas. Pegou uma caneta de tinta preta sem tampa e virou cuidadosamente a capa do livro. Via-se uma mão frágil, que denotava muita idade, da qual eu era sabedor, mas passei a duvidar a partir de então: lucidamente me contava histórias e mais histórias de pessoas que eu não conhecia, o que não me impedia de enxergar a riqueza dos detalhes e de sorrir quando engraçado; havia satisfação no relato, denunciando um leve apreço por visitas. Mas me esclareceu: poeta não sofre de solidão, ele tem a poesia e isto é o bastante. Pediu-me licença para apagar o fogo e, a passos lentos, arrastando com os pés um chinelo de borracha, dirigiu-se à cozinha. Não entendia por que eu fazia associação entre Bandeira e ele, entretanto, durante o minuto que durou para voltar à sala, cantei baixinho: “O dia vem, e dia adentro/Continuo a possuir o segredo grande da noite”, mas por quê?, talvez por achar que aquele homem, à minha frente, apenas queria a delícia de poder sentir as coisas mais simples da vida e para todo o resto oferecia sua intensa arte. Perguntou-me a quem deveria ser dedica a homenagem. Enquanto escrevia o nome de minha amada, conclui que ele não carecia de nada mais, pois, assim como poucos, já nascera poeta. Agradeci pela gentileza e me despedi prometendo voltar um dia. Passar bem!
Mendes Júnior
* Photo by Peter Rodger, "New Orleans, 1997";
** Publicado na Revista Cronópios, em 02/06/2008;
*** Publicado no Jornal do Leitor, Jornal O POVO, em 14/06/2008.

03 setembro, 2007

Manual de sobrevivência no centro da cidade


26/04/2006.


Às vezes, para nos sentirmos (mais) humanos, necessitamos de uma viagem ao centro da cidade. Seja de uma qualquer, todos são praticamente iguais. É importante, desde já, fazer o alerta no que se refere à classe social: não há diferenças sociais no centro da cidade. Pouco importa se sua locomoção dar-se-á por meio de um automóvel do ano ou de uma condução coletiva, pois você irá desbravar ruas e ruas a pé. É isto mesmo: a pé! Uma observação entre uma coisa e outra: a dificuldade de achar um bom estacionamento para o carro. Entenda como o bom local para parar seu veículo um lugar seguro, com atentos vigilantes e que não tenha de pagar uma tarifa antecipadamente. Raro, não! Pois bem, melhor seria desembarcar num ponto de ônibus com o ar despreocupado.

É apropriado, antes de sair pela porta de casa, ler a meteorologia no jornal. Nunca se sabe quando vamos ter sol ou um dia nublado com pancadas de chuva. Um esforço extra para achar aquela velha sombrinha vale a segurança. Mesmo que não chova, pode-se perfeitamente proteger o penteado daqueles pingos chatos dos ares-condicionados dos prédios comerciais, enquanto desfrutamos do passeio. Outra dica é parecer que estamos indo a um velório de um amigo do amigo: nada de enfeites, jóias e coisas do tipo. Chega-se ao extremo de aconselhar as mulheres que não levem o salto e a bolsa; quando muito, uma bolsa surrada. O dinheiro segue na meia, desde que esta tenha um firme elástico agarrado à batata da perna. Costuma-se dizer que no centro existe muito malandro para pouco besta. Por fim, uns óculos escuros.

Chegando à praça principal (todo centro tem uma praça para situar seu “coração”), é hora de escolher o que fazer. As opções são diversificadas, mas preferimos citar apenas três: comprar, ir a um banco e deixar metade do ordenado ou perambular, simplesmente perambular. Uma amiga costuma dizer que no centro tudo é mais barato. Cuidado! Muitas vezes o barato sai pelo olho da cara. O bom mesmo é bater pernas, sem compromisso, com a solitária moedinha para um robusto gole d’água. Porém, se você for da ala dos parcialmente consumistas, pouco dinheiro; já se for daqueles que só saem com um robusto cartão de crédito, tenha um pouco mais de juízo do que da última vez. O importante é, independente da razão, não esquecer de observar as pessoas, como são tantas, engraçadas e sérias – não se preocupe com encontrões, pois isto acontece com freqüência – e as antigas construções. O centro é o retrato fiel de uma cidade.

Em determinado instante, você vai se sentir enfadado. Duas horas prorrogáveis por mais meia hora são suficientes. Pode estar certo, esse é o seu limite para tanta poluição visual e sonora. São muitas as propagandas que já deve ter recebido ou ouvido, desde uma promoção de aniversário de alguma loja de eletrodoméstico até uma financeira oferecendo dinheiro sem consultar se sua ficha está no ponto de passar cera de tão limpa. Mas antes de partir, leve para casa uma singela lembrança deste espaço tão democrático que é o centro: uma borracha para panela de pressão. E, se tudo correr bem, siga em paz e assobie feliz, pois você acaba de visitar um lugar onde não há cor, credo, nacionalidade nem partido político. Seja cidadão e ajude a revitalizar o centro de sua cidade.
Mendes Júnior
* Publicado no Jornal Expresso do Norte, em 14/10/2006;
** Photo by Francesc Catalá Roca, "Madrid".

30 agosto, 2007

Questões sociais e de conhecimento no pensamento positivo

Auguste Comte
ARTIGO, 29/08/2007.

Analisando o trabalho Há uma ordem imutável na natureza e o conhecimento a reflete: Auguste Comte (1798-1857), de Maria Amália Anderly, encontramos uma interessante abordagem sobre a teoria criada pelo francês Auguste Comte, no caso, o Positivismo, especificamente tendo por base sua obra maior: “Discurso sobre o Espírito Positivo”, donde podemos, a priori, nos questionar sobre as leis do universo e da sociedade como sendo imutáveis. Obviamente, tal assertiva foi (bem) aceita no século XIX, o que não podemos afirmar para a contemporaneidade. Como exemplo, registra-se que a idéia de ordem e progresso teve grande valor por ocasião da construção de nossa República, inclusive servindo como lema na bandeira pátria.

Antes de adentrarmos no mérito da questão, ressaltamos que a base do pensamento positivista foi sustentada em meio aos conflitos políticos vividos pela França durante o século XIX. A idéia de Comte era de que permanecesse o poder na mão da burguesia, pois, com isso, defendia a “simples” manutenção deste poder, já que desta maneira aquele vigente seria fortalecido e evitaria ameaças revolucionárias e, conseqüentemente, ter-se-ia um Estado sedimentado. Além do ideário político, Comte cria “visões” científicas – a sociologia – e funda uma religião social, “como base de uma pretensa reforma social” [1], o que claramente é apontado por alguns como contradição no posicionamento, embora fosse relativamente entendido que a reforma social era conseqüência da ciência que estava criando.

De acordo com leitura do “Discurso sobre o Espírito Positivo”, o termo positivo dá a noção de conflito entre o útil e o ocioso, a certeza e a indecisão, o preciso e o vago – que não se confunde com certeza nem indecisão – e o emprego da palavra “positivo” contrário ao de “negativa”, enfim, consiste na substituição do absoluto pelo relativo. A bem da verdade, considerava que o Positivismo era justamente o desenvolvimento do pensamento humano, no que chamou de lei dos três estados: estado teológico, como início da inteligência do homem; o estado metafísico, uma mudança em relação ao primeiro estado; e, por fim, o positivo, no qual se percebe a impossibilidade do absoluto, buscado o ser humano priorizar o “raciocínio” e a “observação”. Tais estados são decorrentes de uma evolução histórica, que se pode pensar como evolução – um desenvolvimento de espírito e conhecimento. Assim considerado, a evolução é contínua e linear, ou seja, segue sem rupturas, como também Comte pensou para o caso da história, que seria “um conjunto de fases imóveis em si mesmas, que num contínuo se substituem umas às outras, de forma que cada estágio é superior ao anterior”[1]. Seguindo o raciocínio, chega-se ao estado superior em que há o crescimento do espírito, que, por sua vez, torna-se positivo. Comte entende que essa ordem constitui a condição fundamental do progresso.

Aqui, então, surge a concepção de ordem que Comte determinou como uma transformação ordenada em que não é possível mudanças violentas e, portanto, permanece “num contínuo”, bem como a idéia de progresso, que leva a um melhoramento linear. Assim, tem-se um avanço (progresso) em linha reta e uma ordem preestabelecida permitindo o desenvolvimento do espírito e o pensamento, de acordo com leis já estabelecidas. Comte nos diz que ordem e progresso são inseparáveis.

Outra concepção da teoria positivista é de que é considerado conhecimento real apenas aquilo que pode ser observado, senão vejamos:

“(...) Seja qual for, porém, o modo, racional ou experimental, de proceder à sua descoberta, é sempre de sua conformidade, direta ou indireta, com os fenômenos observados que resulta exclusivamente sua eficácia científica” [2]

Para Comte, os fatos são acumulados pela observação, que é submetida à imaginação, que permite fazer a relação entre eles, estabelecendo leis gerais e invariáveis. Entende-se que o pensamento científico é baseado na observação desses fatos e nessas relações, que são determinadas pelo raciocínio. Para o conhecimento científico positivo não é possível hipóteses, mas a certeza e a precisão; não admite dúvidas, indeterminações ou especulações. No entanto, Comte também aceita que o conhecimento possa ser relativo, já que o homem somente o alcança diante de sua condição, ou seja, a transformação e a incorporação fazem com que o homem utilize o conhecimento de forma mais ampla e com mais fatos, mas nem tudo pode ser observado por ele. Uma coisa, no entanto, Comte deixa muito claro: não é admitida qualquer indeterminação e/ou acaso nos fenômenos da natureza.

Comte também estabelece uma distinção de ciências em abstratas e concretas: as ciências abstratas têm por objeto a descoberta de leis que regem diversas classes de fenômenos, enquanto que as concretas “consistem na aplicação dessas leis à história efetiva dos diferentes seres existentes” [2]; as outras ciências são consideradas secundárias. Comte divide as ciências abstratas e concretas em astronomia, física, química, filosofia e física social, as quais devem utilizar método único, o que não significa que elas devam se submeter aos mesmos procedimentos de investigação, mas se refere à aplicação da filosofia positiva a todos os ramos do conhecimento. De acordo com Maria Amália Anderly, “a garantia de uma unidade do método a todas as ciências está associada ao que Comte talvez considere seu grande empreendimento: a criação de uma física social, ou uma sociologia”.

Com a teoria positivista, entende-se que qualquer subordinação ao poder, certamente, corrompe a ordem preestabelecida, sem contar que induz a falsa noção de haver diferentes grupos sociais com interesses opostos e insolúveis. Portanto, é necessária uma ordem para que as instituições permaneçam fortes, daí programa social de Comte, que se baseava em dois pilares: educação universal e trabalho para todos. As idéias de Comte eram coerentes no sentido de evolução, desenvolvimento e transformação de espírito, a fim de refletir de forma positiva nas idéias e na moral.

Então, voltamos à religião criada por Comte: a religião da humanidade, a qual dizia que deveria ser trabalhada a vida moral e não a material – permitir reformas necessárias ao progresso do espírito positivo. Comte, através do Positivismo, consegue a coerência ao combinar ciência e religião.

[1]. Há uma ordem imutável na natureza e o conhecimento a reflete: Auguste Comte (1798-1857), de Maria Amália Anderly;
[2]. COMTE, Auguste. Discurso sobre o Espírito Positivo. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

Mendes Júnior.

28 agosto, 2007

Num dia chuvoso


2007.


Ontem conheci um homem. Estava chovendo. Não sei por que sempre quando chove conheço uma pessoa. Outro dia, protegendo-me dos pingos d’água debaixo de uma marquise, conheci um mendigo. Conversamos sobre muitas coisas, mas o que mais me impressionou foi sua facilidade em tratar de política financeira, coisa de que nada entendo. Começou falando de um negócio de taxa de juros, câmbio flutuante e inflação. Fiquei só balançando a cabeça e a única vez em que ele fez o mesmo foi quando eu disse que a inflação estava menor do que à época dos fiscais do Sarney.

Pois bem, conheci mais um homem: muito sério para o meu gosto – sou mais do tipo sorridente, brincalhão e despojado. Ele estava todo engomado, dentro de uma camisa de tecido bom, e calçava um pisante lustroso nos pés pequenos. Acho que o cabelo lambido era proveniente de uma boa mão de gel – não parecia apenas molhado. Sou mesmo muito dada, fui bater do lado dele no sofá da sala de espera. Senti sua loção de barbear: um cheiro forte de eucalipto. Sua boca carnuda me pareceu instigante. Todos que têm bocas carnudas também exibem línguas poderosas, de fazer arrepiar inclusive aquele fio incrustado na pele bem-coberta. Este homem não poderia ser diferente. Não era mesmo. Vi que folheava uma revista de fofoca. Sou mesmo uma safada, puxei bem devagar a ponta da saia para que minhas pernas ficassem mais visíveis. Problema: o danado sequer tirou a vista da porcaria da revista.

Vou à luta. Depois de uns pigarros, comentei algo a respeito do frio que fazia lá fora e do meu desleixo por sair de casa com um vestuário tão inadequado. Ele sussurrou algo e foi a deixa para que eu perguntasse seu nome. Constantini – respondeu. Pareceu-me italiano, mas logo esclareceu ser argentino e que ainda criança foi descarregado na cidade de Porto Alegre, aos cuidados de uma família brasileira. A razão para tanto sofrimento seria a separação – Não estava preparado. Por que, então? Os pais eram comunistas e, devido ao caos instalado em “mi Buenos Aires querido”, resolveram rifar a cria alegando segurança. O homem não parava de falar e de se lamentar; começou a chorar. Tive vontade de pegar Constantini no colo, mas mal o conhecia; fiquei receosa de que não aprovasse minha atitude. Sou mesmo descolada, perguntei se ele vez ou outra bebia – uma forma de falar a respeito de assuntos mais simples. Disse-me que vinho, mas não os argentinos – que tinha pavor –, os chilenos e os portugueses, estes, sim, eram vinhos de verdade. E música, gosta de agito? O homem era adepto do tango. Carlos Gardel – disse-me. Completou se vangloriando por Carlos Gardel – que eu nunca o soube mais gordo – ter nascido francês.

Sou mesmo corajosa, perguntei se ele era casado. Ele ficou um pouco pensativo, olhou para o lado obliquamente, até que me disse que era divorciado; a mulher foi embora com um professor de português. Lá se foi o homem de novo chorando. Não tenho sorte com este tipo de homem, mas me deu pena e vou à luta mesmo: depois daqui bem que podíamos dar um pulinho lá em casa, moro aqui perto, o que acha? Ele topou sem titubear. Só então notou as minhas pernas roliças. Sou meio gordinha, mas quem não é? O homem quis acender um cigarro, mas a recepcionista do consultório o impediu com o dedo balançando propositadamente. Pela hora marcada, ele seria atendido antes de mim. Se ele já estava com o chororó frouxo aqui, o que fará quando sentar de frente ao doutor Pascoal e começar a relatar como andou a vida desde a última sessão. O meu problema era outro: queria muito acabar com o lance de me prostituir, mas não conseguia – nem era mais por dinheiro, era vício. Regularmente, a cada trinta dias, vou ao psiquiatra para tomar jeito. Esta foi minha quinta sessão e, ao sair com aquele ar de alívio, encontrei do lado de fora da clínica o Constantini fumando um cigarro. A chuva aplacara.

Mendes Júnior
* Publicado no Jornal O POVO, em 09/09/2007;
** Photo by Miro Svolik, "My Wife".

27 agosto, 2007

Caixa de madeira V


27/08/2007.


A viúva e o filho estavam vivendo numa casa de tolerância. Não houve outro jeito – o único bem da viúva, além do próprio menino, que queria sempre por perto, era o corpo, que dava para o gasto, sim, e a freguesia gostou da aquisição de dona Jussara, que era responsável pelas menininhas de Massapê. A fome é diabo que tem pressa e a viúva até arranjou um apelido artístico: Valquíria Callas. Mesmo sabendo de quem se trata o último nome, não podemos afirmar se ela conhecia ou não a história de Callas. No entanto, com nome ou sem nome, a viúva começou a se deitar com os machos da cidade e em pouco tempo já tinha rodado por pelo menos metade da frota. Era ruim o apurado e tinham os asquerosos. Chegou a fazer duas exigências antes de começar o serviço: nada de mulheres nem homens que gostam de bater – isto não topava -, aceitas por dona Jussara. Se fosse possível entrar na alma da viúva, talvez descobríssemos se ainda havia no peito saudades de Nepomuceno, que estava longe há muito tempo e que ela tinha certeza estar aprontando maluquices por aí. Coitado do menino – pensava a viúva – tão miúdo e já nessa dificuldade. Ao menino tudo era estranho e diferente donde vinha. Andou reclamando da fome algumas vezes, mas nada que torrasse a paciência da mãe – acostumara-se a passar horas sem nada comer.

O parque de diversões ainda estava em Massapê, e todo dia, no comecinho da noite, o menino se sentava num banco da praça para encarar a roda girando com suas luzes coloridas. A viúva prometera levá-lo ao parque assim que houvesse condições mínimas, mas ele não era apressado, contentava-se em apenas admirar a roda-gigante; também nunca se imaginara dentro dela, balançando na máquina mágica, como gostava de repetir à mãe. Mas a viúva ainda não terminara de pagar as dívidas que havia contraído para poder sustentar até ali os dois, e só conseguia na pele de Valquíria Callas. Embora a criaturinha soubesse de que forma a viúva ganhava a vida, sempre ficava ausente da casa durante o expediente, a fim de não encarar a mãe trabalhando; foi bastante para o menino vê-la com Nepomuceno nas costas do pai. Tudo bem que fosse afinado com Nepomuceno, mas seria exagero assistir ao adultério, assim como ficar num local onde homens e mulheres cediam aos prazeres carnais acompanhados pelo álcool e fumo, incluindo a própria mãe, seria sobremaneira um absurdo. Não conseguia esquecer uma briga entre dois homens por Cecília, uma fêmea jeitosa do Pará, em que tiros foram disparados.

Dona Jussara era uma má pessoa: acolheu a viúva e o filho no prostíbulo, desde que ela se vendesse e que, a cada deitada, metade do apurado fosse da casa e dez por cento para pagar a alimentação dos dois. Triste, pois lhe restava muito pouco, levando-se em consideração que também retribuíam conforme aquilo que julgavam valer: se fosse um bom sexo, bem; no caso de não ter sido, sequer desembolsavam um trocado. Isto valia para as noites com clientes. Se não aparecesse qualquer tarado, ficaria registrada a dívida para com dona Jussara, que já ia razoável. Nos primeiros dias a viúva chorou em demasia, tanto pela vergonha quanto pela dor causada pela introdução de membros desconhecidos. E havia o menino que passou a falar pouco e a emagrecer de repente. Numa das manhãs vomitou sangue bem na mesa do café, fato que deixou dona Jussara irritadíssima e por pouco não punha os dois porta afora, o que representaria mais uma calamidade na vida da viúva, que abandonara o marido para viver como uma praga na terra dos outros. Acharam que o menino estava com algum verme, pois volta e meia encontravam-no brincando com barro e certamente devia ter colocado a mão suja na boca – era isto que indicavam os sintomas. Deram-lhe uns laxantes e foram dois dias sem sair de perto do vaso sanitário; o menino ficou ainda mais magricela.

Do dia em que partiram rumo a Massapê, já havia se passado dois meses e meio e nada de Nepomuceno chegar. Às vezes o menino perguntava pelo tio, mas engraçado que nunca chorou por ele desde que se separaram, o que não significava que não sentisse a sua ausência, claro, mas o menino se demonstrava, mesmo novo, forte e inteligente. No fundo tinha noção de que não mais veria Nepomuceno e essa idéia ficava cada vez mais presa ao seu pensamento. O que o penalizava era não ter tido tempo de aprender a fórmula para se falar com morto, através da ventriloquia. Queria ser sabido como Nepomuceno e também com os mesmos poderes, pois desta maneira conseguiria ajudar sua mãe. Há muitas manhãs que vinha tentando fazer algo neste sentido, mas acabou demonstrando não ter tato: foi surpreendido ao abrir uma gaveta no quarto de dona Jussara; levou dela uma surra de chicote. Até então não havia apanhado na vida e a viúva ficou chocada quando soube do ocorrido; foi tomar satisfações com dona Jussara, mas, diante de outra ameaça de ir para o olho da rua, quedou seu ódio. O menino, no entanto, explicou que sua vontade era de fugir com a mãe dali, o que a fez cair em prantos. Os dois se abraçaram como nunca dantes. A viúva garantiu que pensava no mesmo, mas por enquanto melhor se aquietar ante a estupidez dessa bruxa.

O menino viu a foto da mãe, ou melhor, de Valquíria Callas fixada em um poste na praça. Era uma propaganda que dizia na noite seguinte seria comemorado o aniversário da Casa de Dona Jussara e as atrações da festa eram a viúva e uma loira novinha, cujo nome não conhecia – só a vira uma vez. Ele, no entanto, não se assustou ao ver sua mãe toda vestida e pintada de puta, pois não se tratava da primeira vez que isto acontecia, porém não era bom sentar ao lado daquele cartaz. Levantou-se e, maliciosamente, retirou do poste a foto de Valquíria Callas e a escondeu no bolso da bermuda. Voltou a se sentar e a olhar o giro da roda.

Mendes Júnior
* Photo by Jeremy Webb, "Floor Figure".

23 agosto, 2007

Indicações Musicoliterárias

José Alcides Pinto

Depois de merecidas férias na Argentina - Buenos Aires e Mendoza - e um tantão de vinho tinto e cigars Montecristo, volto alegremente às publicações, no caso, com as minhas modestas indicações, (pois quem sabe alguém as esteja lendo). Sem delongas, fui induzido a me apaixonar pelo álbum Zamazu, do pianista cubano Roberto Fonseca, através do Dj Marquinhos e do poeta William Lial, professores da boa música que lecionam na Desafinado. O disco chega às lojas pela Biscoito Fino e foi gravado na ponte Cuba-Brasil. É saboroso de escutar pelas misturas do afro- jazz e da música brasileira, como nas faixas Zamazu e Zamazamazu, e também por causa do jazz puro, como Llegó Cachaíto, com o homenageado no contrabaixo, e Clandestino. Uma particularidade que não pode ser omitida: Roberto Fonseca trabalhou com dois grandes nomes do Buena Vista Social Club: Ibrahim Ferrer (El Niejo) e Omara Portuondo (Mil Congojas). O vinho deve ser Mapema (Malbec) 2004.

Mais uma vez cito o Dj Marquinhos: foi o músico quem me garantiu que adquirir The spoiler, do grande Stanley Turrentine, era uma acertada decisão - não estava errado. Importado, ou seja, com um precinho "salgado", porém mágico e completo. As faixas You´re gonna hear from me e Maybe september nos provam o quê Turrentine saber fazer (e muito bem) com seu sax. Gravado em New Jersey (1966), tem o selo impecável da Blue Note, e conta ainda com Bob Cranshaw, McCoy Tyner, Blue Mitchell e outros. Um detalhe: os dicos hoje encontrados trazem uma faixa que não fez parte do original - Lonesome Lover. Para combinar: uma noite, uma companhia e uma garrafa de Zuccardi Zeta 2003.

Por fim, estou relendo Cem anos de solidão, pois até hoje não consigo acreditar que alguém possa ter construído uma narrativa tão forte, mas aos ciganos de Macondo tudo é possível, diria um velho amigo. Gabriel García Márquez indico a qualquer hora, em qualquer lugar e a qualquer tempo, mas quero aproveitar o final destas mal traçadas linhas para fazer uma justa homenagem ao poeta e romancista José Alcides Pinto, tão esquecido nestas plagas; nascido no Alto dos Anjicos de São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, no Ceará, no Brasil, sua literatura é universal. São mais de sessenta livros... sim, mais de sessenta! Alguns títulos são raros, mas toda busca, quando vale, deve ser incessante, e isto serve para os livros do José Alcides - que não gosta de ser chamado de "senhor", mas de "poeta" ou de apenas "você" -, tais como O amolador de punhais, Fúria (segundo o próprio, escrito durante 24 horas seguidas), Relicário pornô, Senhora Maria Hermínia (morte e vida agoniada), A divina relação do corpo, João Pinto de Maria (biografia de um louco), O Criador de Demônios, Estação da Morte, O editor de insônias etc, etc, etc. Indico também o trabalho do Paulo de Tarso Pardal - O Espaço Alucinante de José Alcides Pinto - para os interessados, claro.

Esteja dito.

Mendes Júnior.
* Photo by Silvana Tarelho