13 maio, 2015

Uma farândola de infinito e eternidade – 35 anos da vida de Haňt’a

“Livros raros perecem na minha prensa,
sob minhas mãos,
contudo não consigo deter o seu fluxo:
 não passo de um açogueiro refinado”
(Haňt’a – Uma solidão ruidosa)


Sobre Bohumil Hrabal, o também escritor Tcheco Milan Kundera foi categórico: "Uma das encarnações mais autênticas da Praga Mágica". Tal assertiva diz muito sobre a sofisticação do Realismo Mágico em Uma solidão ruidosa, um dos últimos trabalhos de Hrabal, nascido em 1914, na cidade de Brno-Zidenice, na antiga Tchecoslováquia, morrendo em Praga no ano de 1997. Uma solidão ruidosa foi publicado em 1976, no auge da repressão na URSS, da qual fazia parte a Tchecoslováquia. Uma questão que merece destaque é que, assim como o estranho herói da curta narrativa, Hrabal trabalhou em depósito de reciclagem, algo que sentimos na credibilidade das fortes imagens criadas no livro.

            Nas linhas iniciais de Uma solidão ruidosa temos a noção exata por qual terreno o narrador Haňt’a nos fará seguir: “Já faz trinta e cinco anos que cuido de papel velho, e essa é a minha love story. Faz trinta e cinco anos que eu compacto livros e papéis velhos, me lambuzando com as letras até eu mesmo ficar parecido com as minhas enciclopédias (...)”. Esclarece-nos também acerca da natureza de seu pensamento, o qual é recorrentemente alusivo através de citações de nomes como Hegel, Goethe, Schiller, Nietzsche, Schopenhauer, Kant, entre outros: “Minha educação ocorreu tão inconscientemente que não consigo dizer bem quais pensamentos vêm de mim e quais vêm dos livros (...)”. E, por fim, demonstra a forma com a qual encara a leitura: “Pois quando leio, não é apenas ler o que faço; eu jogo uma linda frase na boca e a chupo como uma bala de fruta, ou a sorvo como licor, até o pensamento se dissolver em mim feito álcool, infundindo-se no cérebro e no coração e atravessando as veias até a raiz de cada vaso sanguíneo”.


Mas, afinal, quem é Haňt’a, além de alguém que em trinta e cinco anos compactou livros e bebeu cerveja suficiente para encher uma “piscina olímpica”? Um sujeito que habita um conformismo estranho – “essa era a minha sina, pedir perdão, eu até pedia perdão de mim mesmo por ser o que eu era, por minha natureza” –, porquanto aceita a bagatela que lhe é oferecida pelo destino, desculpando-se para tanto com motivos extraídos dos livros e do âmago da atividade que realiza. Parece-nos, contudo, encarar a vida sem consciência plena, capaz de estar permanentemente divagando. Ressalta ligeiro – até por não suportar bêbado – que bebe para que a leitura o impeça de cair num sono profundo ou lhe cause um “delirium tremens”. O contraditório se insere com força na vida de Haňt’a, pois bem o sabemos se comunicando sem cautela, descobrindo que “os céus não são caridosos, nem os céus, nem qualquer homem sensato”, mas poucas palavras são de fato suas, haja vista a confusão gerada a partir da absorção de frases alheias.

            Para o leitor que acredita numa solidão seca e má, Haňt’a refuta: “Consigo ficar no meu canto porque nunca estou solitário, mas apenas sozinho, vivendo na minha solidão densamente povoada, uma farândola de infinito e eternidade, e o Infinito e a Eternidade parecem gostar de tipos como eu”. E a todo momento não nos deixa esquecer sua companhia permanente: os livros, bem como a justiça concreta emanada do seu trabalho: trinta e cinco anos salvando toneladas deles, seja vendendo para um professor, doando a um amigo ou guardando dentro de sua valise, levados até seu minúsculo apartamento, e compondo as duas toneladas que praticamente ocupam todos os espaços, inclusive acima de sua cama. Mas nem a nobre razão é capaz de fazê-lo descansado, pois às vezes escuta livros tramando uma vingaça em razão dos seus atos. No entanto, quando titubei, não se contém: “no fluxo de papel velho a lombada de um livro raro vez por outra luzirá, e se por um instante eu me afasto, encafifado, sempre volto a tempo de resgatá-lo (...)”.

Para Haňt’a, folhear livros dá sentido a tudo, inclusive ao acúmulo de trabalho, causador da ira de seu chefe, mas nada tão irresistível quanto permanecer imerso com um volume nas mãos, lendo “a primeira frase como uma profecia homérica” e sonhando vivamente “numa terra de grande beleza”. Todo envolvimento sem limites tem um preço – somos levados a constatar.

E é no submundo, no seu mundo, que Haňt’a amolda-se em segurança, pois sabe que há gente sobrevivendo em condições tão precárias quanto as dele e também capaz de pensar. Mesmo descobrindo haver uma guerra – “uma guerra total, humana” – aos seus pés, entre ratos brancos e marrons, “facções organizadíssimas”, pela supremacia dos esgotos de Praga, é com os roedores, “criaturinhas amigáveis”, que se cerca de uma convivência angustiante e estúpida: “(...) uma coisa temos em comum, ou seja, uma necessidade vital de literatura, com preferência acentuada por Goethe e Schiller encadernados em marroquim”. Não bastasse, sua sujeira é cordial ao meio, controlando a higiene com lavagens esporádicas, ainda assim quando dominado por uma “beleza grega”.

            Com exceção dos roedores, quase nada alcançamos socialmente na vida de Haňt’a, embora não escapem passagens incomuns: a cremação de sua mãe, atraente pela comparação do procedimento com a engrenagem da prensa hidraúlica; a presença de um tio, que mantém uma pequena locomotiva no jardim de casa, pois, aposentado como ferroviário, descobrira ser impossível viver longe do trabalho, despertando em Haňt’a a ideia de fazer o mesmo com a prensa; e Mančinka, uma garota marcada por dois episódios constrangedores, mas que “sem ter conhecido a glória, jamais renunciaria à vergonha”. O resto é composto por arroubos e sonhos, como Erasmo de Roterdã, montado em seu cavalo, perguntando-lhe como chegar ao mar.

            Após anos imerso num complexo de Sísifo, Haňt’a se descobre inútil com o surgimento de uma prensa automática capaz de destruir livros em quantidades assustadoras – a qual, na sua imaginação, irá aniquilar a cidade de Praga, com sua tradição e cultura milenar –, além do aparecimento da Brigada do Trabalho Socialista, com seus jovens e eficientes operários, pronta para fazer desaparecer tiragens inteiras de livros em poucas horas. Mas Haňt’a nos tinha alertado: “Já faz trinta e cinco anos que compacto papel velho e, se eu pudesse escolher, faria exatamente o que fiz nos últimos trinta e cinco anos”.

1. Imagem de "Uma solidão ruidosa": divulgação;
2. "Books" by Marta Aoiz Linares.        

                        

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