13 maio, 2015

Uma farândola de infinito e eternidade – 35 anos da vida de Haňt’a

“Livros raros perecem na minha prensa,
sob minhas mãos,
contudo não consigo deter o seu fluxo:
 não passo de um açogueiro refinado”
(Haňt’a – Uma solidão ruidosa)


Sobre Bohumil Hrabal, o também escritor Tcheco Milan Kundera foi categórico: "Uma das encarnações mais autênticas da Praga Mágica". Tal assertiva diz muito sobre a sofisticação do Realismo Mágico em Uma solidão ruidosa, um dos últimos trabalhos de Hrabal, nascido em 1914, na cidade de Brno-Zidenice, na antiga Tchecoslováquia, morrendo em Praga no ano de 1997. Uma solidão ruidosa foi publicado em 1976, no auge da repressão na URSS, da qual fazia parte a Tchecoslováquia. Uma questão que merece destaque é que, assim como o estranho herói da curta narrativa, Hrabal trabalhou em depósito de reciclagem, algo que sentimos na credibilidade das fortes imagens criadas no livro.

            Nas linhas iniciais de Uma solidão ruidosa temos a noção exata por qual terreno o narrador Haňt’a nos fará seguir: “Já faz trinta e cinco anos que cuido de papel velho, e essa é a minha love story. Faz trinta e cinco anos que eu compacto livros e papéis velhos, me lambuzando com as letras até eu mesmo ficar parecido com as minhas enciclopédias (...)”. Esclarece-nos também acerca da natureza de seu pensamento, o qual é recorrentemente alusivo através de citações de nomes como Hegel, Goethe, Schiller, Nietzsche, Schopenhauer, Kant, entre outros: “Minha educação ocorreu tão inconscientemente que não consigo dizer bem quais pensamentos vêm de mim e quais vêm dos livros (...)”. E, por fim, demonstra a forma com a qual encara a leitura: “Pois quando leio, não é apenas ler o que faço; eu jogo uma linda frase na boca e a chupo como uma bala de fruta, ou a sorvo como licor, até o pensamento se dissolver em mim feito álcool, infundindo-se no cérebro e no coração e atravessando as veias até a raiz de cada vaso sanguíneo”.


Mas, afinal, quem é Haňt’a, além de alguém que em trinta e cinco anos compactou livros e bebeu cerveja suficiente para encher uma “piscina olímpica”? Um sujeito que habita um conformismo estranho – “essa era a minha sina, pedir perdão, eu até pedia perdão de mim mesmo por ser o que eu era, por minha natureza” –, porquanto aceita a bagatela que lhe é oferecida pelo destino, desculpando-se para tanto com motivos extraídos dos livros e do âmago da atividade que realiza. Parece-nos, contudo, encarar a vida sem consciência plena, capaz de estar permanentemente divagando. Ressalta ligeiro – até por não suportar bêbado – que bebe para que a leitura o impeça de cair num sono profundo ou lhe cause um “delirium tremens”. O contraditório se insere com força na vida de Haňt’a, pois bem o sabemos se comunicando sem cautela, descobrindo que “os céus não são caridosos, nem os céus, nem qualquer homem sensato”, mas poucas palavras são de fato suas, haja vista a confusão gerada a partir da absorção de frases alheias.

            Para o leitor que acredita numa solidão seca e má, Haňt’a refuta: “Consigo ficar no meu canto porque nunca estou solitário, mas apenas sozinho, vivendo na minha solidão densamente povoada, uma farândola de infinito e eternidade, e o Infinito e a Eternidade parecem gostar de tipos como eu”. E a todo momento não nos deixa esquecer sua companhia permanente: os livros, bem como a justiça concreta emanada do seu trabalho: trinta e cinco anos salvando toneladas deles, seja vendendo para um professor, doando a um amigo ou guardando dentro de sua valise, levados até seu minúsculo apartamento, e compondo as duas toneladas que praticamente ocupam todos os espaços, inclusive acima de sua cama. Mas nem a nobre razão é capaz de fazê-lo descansado, pois às vezes escuta livros tramando uma vingaça em razão dos seus atos. No entanto, quando titubei, não se contém: “no fluxo de papel velho a lombada de um livro raro vez por outra luzirá, e se por um instante eu me afasto, encafifado, sempre volto a tempo de resgatá-lo (...)”.

Para Haňt’a, folhear livros dá sentido a tudo, inclusive ao acúmulo de trabalho, causador da ira de seu chefe, mas nada tão irresistível quanto permanecer imerso com um volume nas mãos, lendo “a primeira frase como uma profecia homérica” e sonhando vivamente “numa terra de grande beleza”. Todo envolvimento sem limites tem um preço – somos levados a constatar.

E é no submundo, no seu mundo, que Haňt’a amolda-se em segurança, pois sabe que há gente sobrevivendo em condições tão precárias quanto as dele e também capaz de pensar. Mesmo descobrindo haver uma guerra – “uma guerra total, humana” – aos seus pés, entre ratos brancos e marrons, “facções organizadíssimas”, pela supremacia dos esgotos de Praga, é com os roedores, “criaturinhas amigáveis”, que se cerca de uma convivência angustiante e estúpida: “(...) uma coisa temos em comum, ou seja, uma necessidade vital de literatura, com preferência acentuada por Goethe e Schiller encadernados em marroquim”. Não bastasse, sua sujeira é cordial ao meio, controlando a higiene com lavagens esporádicas, ainda assim quando dominado por uma “beleza grega”.

            Com exceção dos roedores, quase nada alcançamos socialmente na vida de Haňt’a, embora não escapem passagens incomuns: a cremação de sua mãe, atraente pela comparação do procedimento com a engrenagem da prensa hidraúlica; a presença de um tio, que mantém uma pequena locomotiva no jardim de casa, pois, aposentado como ferroviário, descobrira ser impossível viver longe do trabalho, despertando em Haňt’a a ideia de fazer o mesmo com a prensa; e Mančinka, uma garota marcada por dois episódios constrangedores, mas que “sem ter conhecido a glória, jamais renunciaria à vergonha”. O resto é composto por arroubos e sonhos, como Erasmo de Roterdã, montado em seu cavalo, perguntando-lhe como chegar ao mar.

            Após anos imerso num complexo de Sísifo, Haňt’a se descobre inútil com o surgimento de uma prensa automática capaz de destruir livros em quantidades assustadoras – a qual, na sua imaginação, irá aniquilar a cidade de Praga, com sua tradição e cultura milenar –, além do aparecimento da Brigada do Trabalho Socialista, com seus jovens e eficientes operários, pronta para fazer desaparecer tiragens inteiras de livros em poucas horas. Mas Haňt’a nos tinha alertado: “Já faz trinta e cinco anos que compacto papel velho e, se eu pudesse escolher, faria exatamente o que fiz nos últimos trinta e cinco anos”.

1. Imagem de "Uma solidão ruidosa": divulgação;
2. "Books" by Marta Aoiz Linares.        

                        

25 abril, 2015

Uma partida de xadrez

O psicólogo e pedagogo francês Alfred Binet, em fins do século XIX, por meio da psicometria, realizou um dos primeiros estudos acerca do xadrez. Investigando o comportamento de mestres enxadristas, concluiu que são elementos essenciais no processo cognitivo da mente destes jogadores a experiência, imaginação e memória. Afirmou, ainda, que o xadrez contém poder de concentração, nível de instrução, memória visual, talento estratégico, além de paciência e coragem. 

A literatura parece ser um lugar apropriado para reunir tantos quantos necessários personagens sob o manto dos elementos da mente dos mestres enxadristas. Respeitadas as características intrínsecas, não é de hoje que o xadrez é referido na literatura, mas nem sempre se buscou o rigor de transformá-lo em matéria-prima de uma obra; ou, pelo menos, em parte. Em “Concentração e outros contos”, que não é um livro sobre xadrez, Ricardo Lísias harmonizou com maestria personagens frágeis, penitentes, desestruturados e desencontrados, ainda que sem identidades, em ambientes às vezes inofensivos, outras nem tanto, como quem desloca com destreza e coragem as peças em um tabuleiro.

Neste livro, que reúne seus principais contos, percebe-se claramente que a escrita de Ricardo Lísias é tão precisa quanto um shan mat. Após o enfrentamento por 64 casas, necessário reformular algumas jogadas, manter a concentração na peça adversária, respeitar as dores provocadas pela lógica e duvidar sempre do quão se é capaz de prever a vitória (ou a derrota) para o mate literário. Mesmo que os textos tenham sido escritos em épocas distintas, eles compõem, de certa forma, uma unidade, em razão da perspectiva de cada personagem. 

O desconcertante conto “Dos nervos” cadencia-se por uma linguagem que sofre verdadeiras mutações, haja vista as diferentes repetições, se assim podemos dizer, além de cortes “civilizados e inteligentes”. Vê-se alguém aturdido em face da solidão, enquanto, em paralelo, joga-se uma nervosa partida de xadrez em “um dia crucial para a continuidade das reformas de Gorbatchov”. O título é capaz de, desde já, muito explicar, mas se engana quem pensa que a literatura de Ricardo Lísias é previsível. 

O conto “Fisiologia da solidão” se amolda na necessidade de repetição; aliás, de uma verdadeira obsessão! Esta indiscutível característica do mestre é também do narrador – um escritor solitário –, para o qual “a técnica, portanto, é uma obsessão: é a mesma coisa repetida incontáveis vezes com algumas variações mínimas”. Isto porque à personagem resta escrever, mesmo que seja difícil se expressar exatamente como se quer, pois “a literatura ameniza a solidão”. 

Já no saboroso conto “Evo Morales” – sim, o presidente da Bolívia! –, o narrador é um jogador profissional de xadrez que se encontra algumas vezes com o bochechudo Evo Morales em aeroportos, enquanto embarca e desembarca para campeonatos, e que constrói com ele uma sensação de amizade. O narrador busca algo nesta relação: “notei como me sinto bem na presença dele e fiquei um pouco triste”, exaltando uma qualidade de Evo Morales que é um pré-requisito para um bom enxadrista: a memória, tema este que é também trazido no conto “Fisiologia da memória”. 

Aliás, os outros contos que fazem parte das chamadas “Fisiologias” são particularmente dotados de muita força, pois não se eximem de tratar de sentimentos caros ao homem. Em “Fisiologia da infância” e “Fisiologia da família” os narradores, por meio de lembranças familiares, confrontam-se com a expressão de uma palavra não dita, enquanto que no conto “Fisiologia do medo” a culpa se mistura ao drama do suicídio de um grande amigo, que se integra ao “Fisiologia da dor”, dizendo-nos o narrador: “atendi ao telefone e soube que a polícia havia achado o corpo do André enforcado algumas horas antes. No início, agi com uma serenidade que só pioraria as coisas”. 

Para Ricardo Lísias, parece pouco importar o nome dos narradores, mas às vezes faz disto uma “obsessão”, como em “Concentração”, o conto que dá título ao livro. O narrador chama-se Damião, enquanto que todos os outros personagens são variações: Dani e Damian. Neste curioso conto, Damião, para arrefecer suas crises de solidão, barbeia-se compulsivamente, chegando ao ponto de se cortar, enquanto procura em Buenos Aires – país em que ninguém mais sabe dançar tango e jogar xadrez – por dois jogadores de xadrez e um casal de bailarinos de tango. Com uma sensação vertiginosa, o narrador passeia por uma cidade que não enterrou seus problemas políticos. 

O autor já declarou ter interesse no tema da política na literatura, em especial a latina, e geopolítica. Consegue-se enxergar isto em seus textos; às vezes, de modo expresso, quando em “Fisiologia da solidão” o narrador diz que escreve por dois motivos, sendo um deles a política. É natural, portanto, acharmos que o personagem – digamos – de “Concentração e outros contos” seja o alter ego de Ricardo Lísias, principalmente com “Autoficção”, conto cujo narrador tem o nome do autor, que desiste da literatura para se dedicar às artes plásticas. Mas, a bem da verdade, trata-se de ficção – uma ficção escrita com talento e estratégia, como se houvesse um projeto por trás da exploração da linguagem. 

No livro “El Hacedor”, de 1960, Jorge Luis Borges dedicou um poema à arte de reger as peças no tabuleiro, chamado “Xadrez”, através do qual riscou com magia a sentença: 

“Em seu austero canto, os jogadores 
Regem as lentas peças. O tabuleiro 
Os demora até o alvorecer nesse severo 
 Espaço em que se odeiam duas cores. 
(...) 
Também o jogador é prisioneiro 
(A máxima é de Omar) de um tabuleiro 
De negras e de brancos dias”. 

 Pois bem, o enxadrista Ricardo Lísias conduz sua obra com extrema competência literária, reorganizando palavras com a obsessão dos mestres. Através da concentração e imaginação apuradas, o prisioneiro da linguagem sabe como ninguém estabelecer a dança de suas peças, que vez em quando são obrigadas a serem engolidas por outra estrategicamente mais forte. E, para este incisivo jogador de xadrez, como quer Borges, o rito nunca acaba.

1. Imagem de "Concentração e outros contos": divulgação;
2. "Chess" by Miguel Angel Giron Calero;
3. BORGES, Jorge Luis. Obras Completas II. 1ª ed. São Paulo: Globo, V. 2, p. 211, 1999.



04 julho, 2011

Cadernos de Viagem - Potsdam

O Novo Palácio de Potsdam (Neues Palais) é um antigo Palácio real da Prússia localizado no lado oeste do Parque Real de Sanssouci, em Potsdam, na Alemanha. Uma construção inciada em 1763, após o fim da guerra dos sete anos, para celebrar o sucesso da Prússia, por Frederico "O Grande", e finalizada apenas em 1769, tornando-se um esplendor em mármore, pedras e dourados. Com estilo rococó e barroco, tinha mais de duzentas salas, um teatro, uma sala de concerto, duas antecâmaras, um estúdio, entre outros ambientes. Mais de quatrocentas estátuas e figuras em arenito adornam o palácio. Esta foi a forma encontrada por Frederico "O Grande" para externar o poder e a glória da Prússia. Confesso que, por alguns momentos, quando lá estive, passei horas imerso numa sensação de grandeza e plenitude. Os jardins são especiais também.





* Photos by Mendes Júnior.

30 maio, 2011

Cinema



Lendo o último livro do espanhol Enrique Vila-Matas publicado no Brasil, pela Cosac Naify, chamado Dublinesca, deparei-me já nas primeiras páginas com a citação do filme Spider (2002), do excelente diretor canadense David Cronenberg, que também tem em seu currículo Crash (1996), eXistenZ (1999), A History of Violence (Marcas da Violência) (2005), entre outros. Aliás, Vila-Matas faz mais do que uma simples citação: durante a passagem, o protagonista Samuel Riba é convidado por sua esposa, Celia, a assistir ao filme, e, durante sua exibição, há uma aparente tentativa de fazê-lo perceber ter características do personagem Spider, que vive solitário e incomunicável num mundo inóspito. Bem, é isto que nos mostra: "Volta a achar que sua mulher está tentando ver como ele reage diante da figura de Spider, para poder assim medir seu próprio grau de demência e burrice".

Prontamente - por ainda não ter visto o filme - resolvi não prosseguir na leitura até que resolvesse esta a qual considerei uma falha, pois sempre fui presenteado com fortes emoções durante e após os filmes de Cronenberg. A falha, a bem da verdade, era enorme: Spider é espetacular, e não menos a atuação de Ralph Fiennes, no papel de Spider, e a fotografia de Peter Suschutzky.

Logo na sequência inicial, acompanhada de uma música sublime e triste, vemos Spider descer de um trem com uma expressão de desconforto, balbuciando sons incoerentes, retirando de dentro da calça uma meia surrada com algo em seu interior. Após conferir um endereço, segue por ruas londrinas vazias, com a pequena mala em uma das mõas, recolhendo, durante o trajeto, objetos inúteis que encontra jogados, até chegar a East End, bairro em que passou sua infância. O endereço é de uma pensão que acolhe doentes mentais e só mais adiante sabemos que ele vinha de um hospital psiquiátrico.

De longe é fácil perceber que Spider tem problemas mentais, mas aos poucos vamos nos dando conta dos motivos que o levaram a ser quem é, ou acreditamos nisto. A partir de sua chegada à pensão, vai recontruindo inevitavelmente sua infância, de acordo com o que consegue lembrar - os fios da teia. Faz uso constante de um caderninho no qual escreve, com letras miúdas, frases em alfabeto imaginário, ou como diz Samuel Riba: "São sinais primitivos, paus ou pauzinhos dobrados, tão incompletos que não chegam nem a ser paus ou pauzinhos e, claro, não conseguem chegar a fazer parte do alfabeto de nenhum hieróglifo", e completa com uma sensação: "Produzem um verdadeiro pânico". Mas nada preocupa mais Spider do que alguém encontrar sua caderneta, a qual esconde sob o tapete do quarto, pois temos a impressão de que é nela em que vai tecendo as ilusões dispersas em sua memória.

O grande problema se baseia na morte da mãe. Responsabiliza o pai, que teria agido de forma brutal e, por fim, passado a viver com uma prostituta. Quando o assinato ocorre, ele ainda é uma criança, mas a narrativa do filme é feita com Spider adulto, o mesmo que desce na estação vestindo quatro camisas, embora esteja em pleno verão, revisitando, como simples testemunha atordoada, os acontecimentos cruciais do início da vida, até a prostituta assumir o lugar de sua mãe em casa. Difícil de ser observado que a mãe de Spider (Sra. Cleg), a protituta (Yvonne) e a dona da pensão (Sra. Wilkinson) foram vividas pela mesma atriz: Miranda Richardson. Importante detalhe, pois não apenas Spider se mostra perturbado na pensão com a presença da Sra. Wilkinson, mas nós também, pela confusão que Spider faz com as imagens.

O embate com as lembranças do pai assassino, vivido pelo irlandês Gabriel Byrne, aquele mesmo de Stigmata e Os Suspeitos, segue até o final, quando somos surpreendidos. A teia que Spider constrói não passa de um "emaranhado de cordas".

Por fim, ainda em Dublinesca, lemos que muito vagamente Spider lembra o personagem de Um homem que dorme, do francês Georges Perec (1936-1982), o qual ainda não li. Possivelmente, outra grande falha.


* Imagens extraídas do site www.imdb.com

29 maio, 2011

Música


Para um bom-dia-qualquer se faz necessário um som que se chame grande. Chet Baker pode ser traduzido assim: grande, enorme, gigante etc. Com a delicadeza que todo domingo requer, pois, de verdade, não se pode ofender tal dia da semana, sento-me ouvindo o disco da capa acima desde o comecinho da manhã. Trata-se de the art of the ballad (1998), composto por músicas gravadas em cidades diferentes (Nova York, Milão e Englewood Cliffs), para discos outros, como Chet Baker in New York, Chet Baker in Milan, Chet etc., entre os anos de 58 e 65, e remasterizado em 98 por Fantasy Studios, em Berkeley, Califórnia, por um sujeito chamado Kirk Felton.

O título do disco diz tanto, que Paul de Barros, responsável pelo texto que integra o encarte, escreve logo nas primeiras linhas: "Chet Baker believed in ballads. He believed in the idealized world of romance and beauty - and escape - that American love songs can conjure". Não só por isto, mas pela seleção musical, que vai desde Polka Dots and Moonbeams, Autumn in New York, Alone Together, I Should Care e I'm Old Fashioned, apenas para citar algumas, pois são treze deliciosas no total a serem consumidas.

Bem, parece que é isto, mas não, pois há um pouco de excelência musical em cada faixa, referindo-me aos músicos. Bill Evans, Paul Chambers, George Coleman, Roy Brooks, Philly Joe Jones, Herbie Mann, Pepper Adams, Connie Kay, Kirk Lightsey etc. são companheiros de Chet neste álbum. E, sem dúvida, dá para sentir a diferença de suas presenças. Há ainda a voz marcada e inconfundível de Chet nas duas últimas faixas do disco: na já citada I'm Old Fashioned e My Heart Stood Still.

Claro que the art of the ballad seria cultuado para uma noite romântica, servindo-se de um par agradável, cedendo aos prazeres escondidos no vinho e nos queijos, mas minha gata Amora - que se encontra agora esparramada no tapete musgo da sala ao lado do som - e eu entendemos que não há uma hora específica para Chet Baker, mas todas as vinte e quatro, desde que acreditemos também no amor.


20 maio, 2011

Cinema


Muito sensível, charmoso e nostálgico o filme O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas), 2009, do diretor francês Laurent Tirard, levando-se em consideração ser estabelecido como uma comédia. De fato, não deixa de sê-lo, entretanto, com contornos simbólicos, mostra uma face ingênua da relação familiar sob os olhos de crianças.


A bem da verdade, O Pequeno Nicolau tem sua origem numa série de histórias em quadrinho francesa escrita por René Goscinny, cocriador de Asterix, e ilustrada por Jean-Jacques Sempé, que foi publicada entre 1956 e 1964.


O enredo é simples. A história se passa na França da década de 50. Enquanto Nicolau, filho único, é mimado pelos pais, mantém uma vida de certa maneira divertida e normal com os amigos de colégio. Tudo parece transcorrer sem incidentes, até Nicolau, sorrateiro, escutar uma conversa de seus pais e acreditar que em breve terá um irmão. A partir desta descoberta, sente-se ameaçado e parte numa campanha, com táticas inocentes e ajuda de desastrados amigos, para se manter criança, permanecer dono absoluto da atenção dos pais e, ainda, mostrar ser indispensável a estes. Porém, ao ouvir de um amigo, que vive a mesma situação, o lado bom de ter um irmão, seu pensamento muda, mas é surpreendido com outra descoberta.


Tirard teve o cuidado de escolher para seu filme crianças que nunca haviam atuado, inclusive o protagonista Nicolau, vivido por Maxime Godart. Um personagem que chama atenção pela graça simpática é Clotário (Victor Charles), o amigo tapado.


Por fim, eis o elenco: Maxime Godart, Valérie Lemercier, Kad Merad, Sandrine Kiberlain, François-Xavier Demaison, Michel Duchaussov, Daniel Prévost, Vincent Claude, Charles Vaillant, Victor Charles, Benjamin Averty e Germain Petit Damico.

01 maio, 2011

Pesar

O escritor argentino Ernesto Sabato faleceu neste sábado, aos 99 anos de idade, no arredores de Buenos Aires. Considerado um ícone da literatura argentina, nasceu na cidade de Rojas em 24 de junho de 1911. O autor de O escritor e seus fantasmas, Sobre hérois e tumbas, livro que lhe deu reconhecimento internacional, e O túnel, segundo o jornal Clarín, foi um dos nomes emblemáticos no retorno da democracia argentina à frente da Conadep (Comisión Nacional de Desaparición de Personas), grupo que redigiu o relatório "Nunca Mais", que relata os horrores da última ditadura militar argentina (1976-1983).

"Nunca me he considerado un escritor profesional, de los que publican una novela al año. Por el contrario, a menudo, en la tarde quemaba lo que había escrito a la mañana", declarou em certa ocasião a respeito de seu trabalho. Sabato, ao final de sua vida, se dizia "una especie de anarquista cristiano que sólo cree en la paz y en la justicia social".

Ainda segundo o Clarín, era considerado um intelectual emblemático atormentado pelos problemas de seu tempo.

Eis a relação completa de suas obras, a partir dos títulos originais:

Romances

El túnel (1948)
Sobre héroes y tumbas (1961)
Abaddón el exterminador (1974)

Ensaios

Uno y el universo (1945, junto a Ben Molar y Julio de Caro)
Hombres y engranajes (1951)
Heterodoxia (1953)
El caso Sabato. Torturas y libertad de prensa. Carta abierta al general Aramburu (1956)
El otro rostro del peronismo (1956)
El escritor y sus fantasmas (1963)
Tango, discusión y clave (1963)
Romance de la muerte de Juan Lavalle. Cantar de Gesta (1966)
Significado de Pedro Henríquez Ureña (1967)
Aproximación a la literatura de nuestro tiempo: Robbe-Grillet, Borges, Sartre (1968)
La cultura en la encrucijada nacional (1973)
Diálogos con Jorge Luis Borges (1976)
Apologías y rechazos (1979)
Los libros y su misión en la liberación e integración de la América Latina (1979)
Entre la letra y la sangre (1988)
Antes del Fin (1998)
La Resistencia (2000)
España en los diarios de mi vejez (2004)



* Foto extraída do blog Monte de Leituras;


** Informações extraídas de http://www.clarin.com/.

26 abril, 2011

Guedali galopando rumo ao seio de Abraão




Moacyr Scliar (1937-2011) faleceu recentemente, mas não é por este triste motivo que abordo O Centauro no Jardim (1980), mas por se tratar de uma obra interessante que não descuida de interpretações. A coincidência, no tocante ao pesar da notícia, é que estava justamente imerso em sua leitura quando descobri que o imortal era mortal. A bem da verdade, a dilatada obra do porto-alegrense, que caminha pelo conto, crônica, romance, literatura infantil e ensaio, que soma mais de oitenta livros, é que podemos classificar de imorredoura. E há que se questionar: como alguém conseguiu escrever tanto, mesmo mantendo a profissão de médico? Sem dúvida, é admirável.

Moacyr Scliar guiou parte de sua obra pelo fantástico e pelo enfoque na tradição judaico-cristã, e O Centauro no Jardim segue ambas temáticas, acrescentando aqui a mitologia. O livro chegou a ser incluído na lista dos cem melhores livros relacionados à história dos judeus dos últimos dois séculos, elaborada pelo National Yiddish Book Center, dos Estados Unidos, em 2002. Também se destaca da “prateleira” de Scliar por ter sido um dos mais traduzidos: inglês, francês, espanhol, alemão, sueco, hebraico e russo –, além de adaptado para o teatro na Alemanha.

O Centauro no Jardim é construído a partir de períodos definidos em capítulos, através de datas e lugares, mas com componentes narrativos que remontam ao passado. Inicia-se com um Guedali, o centauro-narrador, tranquilo e aparentemente feliz, comemorando seus trinta e oito anos, ao lado de sua mulher e de seus amigos, num restaurante tunisiano, chamado Jardim das Delícias, o qual passa a reconstruir os acontecimentos de sua vida. Observamos que o nome do tal restaurante é o mesmo de um famoso tríptico aberto do holandês Hieronymus Bosch (1450-1516), El Bosco, que atualmente repousa no Museo Nacional del Prado, em Madri. O tríptico (1504) retrata o pecado entre o céu e o inferno. Enquanto na lateral esquerda temos o paraíso, representando o último dia da criação, com Eva e Adão, na direita está o inferno, no qual o homem é condenado por seu pecado. Já no centro vemos o jardim e os prazeres da vida, em que a humanidade se entrega aos prazeres mundanos, com forte carga erótica. Uma sequência simbólica.

O calvário de Guedali tem início numa pequena fazenda no interior do Rio Grande do Sul. Ele faz parte de uma família judia, advinda da Rússia, que, ajudada por um tal Barão Hirsch, fugiu dos pogroms. Guedali narra seu próprio nascimento como se misturado ao susto dos pais e irmãos, e tem consciência desde cedo de que é diferente: “As primeiras lembranças, naturalmente, não podem ser descritas em palavras convencionais”. O fato é que Guedali nasce um centauro e, portanto, provoca uma série de desafios para família Tartakovsky, desde no sentido de seguir os preceitos judaicos até o de escondê-lo a fim de preservar a dignidade de todos, afinal, dificilmente seria considerado natural um ser metade homem, metade cavalo.

A questão conflituosa se trava quando Guedali descobre o prazer de cavalgar pelo campo, ao tempo que vai se apercebendo haver um mundo fora de seu esconderijo e das leituras, hábito que passa a cultivar enquanto trancafiado. Num descuido, durante um galope, é surpreendido por um vizinho e seus pais decidem se mudar para a cidade, fato que o torna ainda mais prisioneiro de seu corpo. Avista por lentes longíquas o amor – platônico, mas amor – e resolve que chegou a hora de abandonar a segurança de seus pares e enfrentar de uma vez por todos o mundo. Durante cavalgadas pelo desconhecido, conhece Tita, uma centaura. Apaixonam-se. Tomam, portanto, a decisão que iria mudar suas vidas: se transformar em seres normais após cirurgia realizada no Marrocos. A partir do sucesso deste empreendimento – chamamos assim – inicia-se uma batalha interna e individual entre os ex-centauros.

Interessante o exercício de assumir o papel dos dois personagens para tentar imaginar como nos comportaríamos se modificados a ponto de nos tornarmos outros seres. É incômodo, acredito. A identidade estaria em jogo, assim como a natureza humana e seus componentes psicológicos e sociais. Estaríamos desfocados e deslocados? Por certo, mas consideremos a possibilidade de sermos vistos como iguais, sem características físicas aterradoras. Mas não é tão simples assim. O fato é que Guedali é tomado por uma crise de identidade – permita-nos usar este lugar-comum –, quer voltar a ser centauro, pois é o seu instinto e, de verdade, nunca deixou de ser um centauro – eis a verdade que nos quer passar –, quer galopar pelos campos rumo aos seios de Abraão. Abre-se, então, a discussão pelo respeito ao diferente e à originalidade, a angústia do homem enfiado na sociedade contemporânea e a condição judaica. É salutar ainda o contexto político no qual se insere parte da história.

Mendes Júnior

* Reprodução de O jardim das delícias extraída do site O fabuloso mundo da arte;

** Reprodução de capa extraída do site da Companhia Das Letras;

*** Imagem de centauro extraída de http://fantasyhorses.homestead.com/

15 abril, 2011

Com a palavra, professor Benjamim Schianberg





Não se sabe ao certo em qual local e data nasceu Benjamim Schianberg, professor e autor do livro O que vemos no mundo, para o qual também não temos o ano da publicação nem a editora. Mas é certo que sua obra pode ser considerada como um manual filosófico do amor, um dicionário de expressões de cunho entusiasta para enamorados, uma fonte de pesquisa objetivando esquadrinhar frestas do sexo, sobretudo uma carta de auto-ajuda destinada aos que se aventuram a tentar ponderar o imponderável, sondar o insondável e compreender o incompreensível. O eminente professor cunhou frases de ciência pertinente: “A grande desgraça é que as lembranças não bastam para confortar os amantes (...)”; descreveu tipos da natureza humana masculina: homens de sangue quente; divide com seus leitores técnicas apuradas de comportamento: vestir e despir o mundo; rotulou-se como um estudioso ocupado com as “fezes da alma”; tipificou a STTL – Síndrome da Transferência Total de Libido; proclamou que poucos homens, para a insatisfação destes, são fiéis de verdade; e, por fim, desbancou a segurança dos amantes apaixonados que, quase sempre negligentes, acreditam-se discretos: não são invisíveis, estando apenas ofuscados pela luz que eles próprios emitem. Vetusto o amor, faz-se necessária a leitura do professor Schianberg, a fim de enxergar este sentimento em meio à claridade e à lassidão.

Seria válido tudo o que foi escrito se existisse de fato um professor Benjamim Schianberg e se o mesmo tivesse escrito O que vemos no mundo. A bem da verdade, uma criação para servir de pano de fundo na história de um outro personagem, chamado Cauby – sim, igual ao cantor –, no livro Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, do paulistano Marçal Aquino. O curioso e hilário é que, mesmo Marçal tendo criado cuidadosamente um nome que sequer constava em sites de pesquisas e um livro nunca escrito, uma editora carioca pediu sua ajuda para localizar o tal escritor e publicar seu livro no Brasil. Infelizmente, não conseguiu.

Eu receberia as piores notícias..., sem dúvida alguma, trata-se de um título intrigante e charmosamente grande. Olhando rapidamente para qualquer estante de livros, dificilmente encontraríamos algo parecido. O próprio Marçal, durante uma entrevista para um programa televisivo, disse que não acreditava que alguma editora fosse capaz de se interessar em publicá-lo, mas, para sua surpresa, Luiz Schwarcz – Companhia Das Letras – aceitou o desafio.

A trama se passa basicamente numa pequena cidade do Pará, na época áurea para os garimpos e, portanto, desprotegida e nebulosa, envolvendo disputas de terra, emboscadas e mortes. O fotógrafo Cauby se apaixona perdidamente por uma mulher casada: Lavínia, uma ex-prostituta. A aproximação dos dois se dá pelo prazer da fotografia, embora ela encare o hobby como refúgio para um passado sofrido. Porém são as variações de comportamento de Lavínia que parecem sedimentar o interesse do amante, o qual encara como um grande desafio, a princípio, mas que aos poucos, contudo, se entrega feito paixão de adolescente. Por se tratar de uma diferença gritante, Cauby cria em sua cabeça duas Lavínias: Lavínia – a melancólica e comportada – e Shirley – “a que mijava de porta aberta”. As rosas, então, perdem a inocência quando o ciúme de Cauby começa a frequentar constantemente seu coração. Aliado aos desvios e sumiços da amante, Cauby intui ser correto desvendar a outra vida da amante, a que inclui seu marido, o pastor Ernani.

Ao largo do amor clandestino, na terra hostil, há outras versões deste sentimento e com elas seus desvios. Altino, tratado pela alcunha de “careca”, mantém um amor platônico por uma colega de profissão, Marinês, que o condenou a viver o resto dos dias naquele cafundó; Chang, “o china da loja”, vem representando o amor doente, o desvio, a tara, em seu aspecto mais tenebroso: a pedofilia, que o leva a um destino severo; Dona Jane, a dona da pensão, faz parte da gente do interior que cede o coração aos galanteios de forasteiro qualquer e no fim é abandonada sem comiseração; e a do próprio pastor Ernani que procurou converter a impura Lavínia com ditados bíblicos e se quedou em “arranques silábicos” esquecendo a existência do demônio.

Marçal disse em certa ocasião que seus livros não deveriam ser cunhados de policiais, haja vista que são romances ambientados naquilo que vê nas ruas, nas pessoas e nos movimentos do centro da cidade, nos diálogos e atos de gente comum, não sendo intencional que a história descambe para elementos funestos ou queira se encaixar numa determinada classificação literária. A tragédia em Eu receberia as piores notícias... torna seu desfecho exalando um cheiro podre – um bafejo de vômito – e de céu inube, como se tivesse o amor sido enganado pela brutalidade e loucura. Obliterado o destino comum, encontramos o silêncio como a mais ensurdecedora forma de nos alertar das últimas consequências do homem. Mas o trágico já se encontrava como a pedra fundamental do destino de Cauby desde o princípio – o amor é terreno sem limite: “(...) E, embora a mulher não apareça, sei que é por causa dela que estão me matando. E tenho tempo de saber que não me deixa feliz o desfecho da nossa história. Terá valido a pena”.


Mendes Júnior

* 105, photo by Eduardo Segura;

** Marçal Aquino, photo by Bel Pedrosa;

*** Foto de capa extraída do blog Inutilidade Útil.

15 março, 2011

Esperando os soldados


Quando percebi o silêncio e observei através da abertura na parede, um buraco penoso que sequer era grande, pois produzida por tiro de revólver, pressenti Idália morta (de verdade). Óbvio que fiquei assaltado. Já ouviram falar dos soldados? Não culpo meus nervos por estarem tão atentos aos acontecimentos de agora – nerfs à fleur de peau. Aos seus braços, na altura do colo, como uma criança nascida faz pouco, um livro aberto com as folhas balançando por força da janela arreganhada. Sua cabeça descansava nas laterais da surrada poltrona de couro cru ou Moscóvia, nunca soube, enquanto o gato curtia uma preguiça no assoalho mascado aos seus pés. Certo mesmo de que era uma poltrona imponentemente capaz de abrigar os anseios de uma rainha que parecia saber dominar o tempo, mas o gato é e sempre será repulsivo!

Mas pouco se habituou minha respiração em suspenso até perceber um leve deslocamento da mão de Idália. Não sei por que me exaltava, Idália tinha o costume de ficar trancafiada no quarto se escondendo, sem querer ser interrompida, com livros difíceis e gigantes para meu julgamento. Por assim dizer, enquanto Idália se achava ocupada, entre aspas, era eu quem perseverava postado esperando os soldados, aflito, com carne assada e cachaça para lhes oferecer. Punha-me em dificuldades, é bem verdade, driblando a vertigem, terra solta para tudo quanto era lugar, sem descanso, mas pronto e com o rosto reto. Meu papel era o de proteger o pouco que restava da casa deixada por nossos pais mortos em outra guerra; sim, e ainda tinha que apurar os olhos no gato, quando escapulia do quarto de Idália, a fim de proteger a comida. Este era o meu abrigo, a guerra.

– Os soldados? Não, não são eles!

Não suporto imaginar o banho de sangue caso os soldados não fossem bem recebidos. Escutei que fazem um escarcéu dos diabos. Não comeremos daquilo destinado aos soldados, disse-me Idália com autoridade na voz. Os tempos não eram para principiantes. Há dois dias ninguém punha nada na boca além de água. Na guerra não há fartura mas sacrifício. Idália me consolou com uma explicação estranha de como driblar a fome, e me espantou descobrir que não era se empanturrando de líquido mas policiando o pensamento por meio da concentração da mente, com auxílio dos signos, astros e outras baboseiras. Foi assim mesmo que ela falou: policiando. Idália é mais inteligente do que eu, talvez os livros ensinem como usar a cabeça. Mas não fiquei conformado, já que mal conseguia me deter de pé, o que dirá dominar os pensamentos! Tanto assim que dois pesadelos me abafaram o sono roubado da vigília anterior, fazendo-me sentir como o pior dos mortais. Em um deles lutava com um soldado, cara de fuinha, (lembro da farda rasgada justamente no local que indicava seu pelotão), pela carne assada, e no outro matei a pauladas e assei o gato repulsivo. Tive receio de que o próximo pesadelo fosse com Idália. Maldito seja! Pedi clemência por desejar a carne dos soldados.

Idália gritou para que eu fosse ler a Bíblia, que fosse rezar, rezar, rezar... Argumentei que na guerra não se deve questionar coisa alguma para não aumentar ainda mais o sofrimento da alma, mesmo sem entender direito o que eu dizia. Ela ficou furiosa, fez um discurso em prol dos livros, que extrapolavam a própria vida, e me mandou à merda. Quis replicar, mas não o fiz.

Confesso-me ansioso pelo final destes dias, para que apareça logo a droga desses soldados e possamos comer suas sobras, mas não estou certo de que aconteça. Talvez demore. O fato é que Idália tinha tudo de que precisava até o derradeiro piscar da vida: os livros. Mas me causa apreensão saber que ela não está preparada para o término da guerra. Da forma como vejo Idália pelo orifício, embalando o livro, podia cair uma bomba de graves proporções no nosso telhado que não despertaria daquele momento no seu valhacouto.


*Escrito em 2010;

** Ashes, by Munch.