24 Outubro, 2009
23 Outubro, 2009
22 Outubro, 2009
13 Junho, 2009
30 Agosto, 2008
A vendedora de maçãs

"La vida sin miedo
resultaba inconcebible"
Juan José Millás
Acordou durante a noite alta banhada em suor, com uma repentina vontade de arrancar, com unhas e dentes, as próprias vestes, rasgá-las descontroladamente, a fim de aliviar o bico extremamente disforme do peito, a barriga e o umbigo, que era a essa altura uma miúda poça de água com cheiro de talco. Dia sim, dia não, antes de deitar, empanturrava-se de talco – inocentemente, cria nesta fórmula para ficar mais alva – não gostava da sua morenice, queria mesmo era ter nascida gente branca. Disse qualquer coisa incompreensível enquanto ainda dormia. Salpicavam de sua boca grunhidos que se confundiam com momentos de dor. Contorcia-se em cima de praticamente uma tábua com colcha de retalhos. Até que foi tomada de assalto por um pesadelo tenebroso, medonho e repugnante, de fazer a lua se apagar, de causar o encerramento das chuvas de março e abril, de impedir, portanto, o sangramento do bonito açude do Jaibaras: ela tinha sido colhida por um desses caminhões de pequenas mudanças, um “pega-se frete” abaçanado, com a caçamba lotada de móveis e outros utensílios humildes, entre as movimentadas avenidas Virgílio Távora e Dom Luis. Foi tudo tão real e duradouro que, de olhos esbugalhados e já atentos para a realidade, custou a acreditar se tratarem de imagens criadas pelo seu inconsciente ou subconsciente, vai saber!, enquanto dormia profundamente em razão da estafa de mais um dia de labor intempestivo. Além do mais tinha sido um dia difícil: uns pivetes tentaram levar seu cesto de maçãs, mas um rapaz que montava jogo do bicho em uma das esquinas impediu o desfecho do roubo. A danada era tinhosa que só ela – sequer ofereceu uma de suas maçãs como agradecimento pela audácia do moço, nenhuma palavra, apenas concedeu-lhe um sorriso que mais parecia um “não fez mais do que sua obrigação de homem-macho”.
resultaba inconcebible"
Juan José Millás
Acordou durante a noite alta banhada em suor, com uma repentina vontade de arrancar, com unhas e dentes, as próprias vestes, rasgá-las descontroladamente, a fim de aliviar o bico extremamente disforme do peito, a barriga e o umbigo, que era a essa altura uma miúda poça de água com cheiro de talco. Dia sim, dia não, antes de deitar, empanturrava-se de talco – inocentemente, cria nesta fórmula para ficar mais alva – não gostava da sua morenice, queria mesmo era ter nascida gente branca. Disse qualquer coisa incompreensível enquanto ainda dormia. Salpicavam de sua boca grunhidos que se confundiam com momentos de dor. Contorcia-se em cima de praticamente uma tábua com colcha de retalhos. Até que foi tomada de assalto por um pesadelo tenebroso, medonho e repugnante, de fazer a lua se apagar, de causar o encerramento das chuvas de março e abril, de impedir, portanto, o sangramento do bonito açude do Jaibaras: ela tinha sido colhida por um desses caminhões de pequenas mudanças, um “pega-se frete” abaçanado, com a caçamba lotada de móveis e outros utensílios humildes, entre as movimentadas avenidas Virgílio Távora e Dom Luis. Foi tudo tão real e duradouro que, de olhos esbugalhados e já atentos para a realidade, custou a acreditar se tratarem de imagens criadas pelo seu inconsciente ou subconsciente, vai saber!, enquanto dormia profundamente em razão da estafa de mais um dia de labor intempestivo. Além do mais tinha sido um dia difícil: uns pivetes tentaram levar seu cesto de maçãs, mas um rapaz que montava jogo do bicho em uma das esquinas impediu o desfecho do roubo. A danada era tinhosa que só ela – sequer ofereceu uma de suas maçãs como agradecimento pela audácia do moço, nenhuma palavra, apenas concedeu-lhe um sorriso que mais parecia um “não fez mais do que sua obrigação de homem-macho”.
Nunca havia passado por nada parecido. O mais estranho na película fantasiosa da mente era o fato de que assistira à bizarra cena de sua morte como se fosse uma mera espectadora, tal qual uma pedestre plantada esperando o semáforo lhe conceder a vez, quando, de repente, acaba flagrando um acidente fatal e normal em dias como aqueles – véspera de carnaval – de motoristas embriagados e desatentos. Mas o que viu era para lá de incomum: nitidamente sua cabeça foi estraçalhada pelo pneu dianteiro do caminhão. Era como se pudesse internalizar a dor. Sentiu inclusive o cheiro ruim do sangue correndo pela rua igual água nas manhãs chuvosas. Escorregadio ficou o solo. Tudo sufocava. Pensou que poderia ser por há tempos não freqüentar a missa, mesmo diante da insistência de sua mãe, religiosa de carteirinha, que já levara até o Pároco em casa a fim de dar à única filha conselhos cristãos. Só poderia ser esta a maçaroca a lhe tirar o sossego. Nem em datas importantes, tais como Natal e Semana Santa, ia mais à missa. Talvez um aviso; também o preço que se pagava por denegrir a religião, que mal não poderia causar, decerto, senão o acondicionamento da alma diante da fúria da pós-modernidade, como alguns gostam de alardear a três por dois.
Pois era tanto do sangue que quis vomitar. E ali, ainda deitada, sem conseguir se refazer da embriaguez do pesadelo, estava ela salivando um azedume de cachaça. Jamais pensara no sangue como naquele momento. Impossível ter imaginado a textura da parte que ficava armazenada na cabeça, até então: uma papa consistente que recobria por onde deixaria suas pegadas de suposta transeunte, misturando-se aos calombos do asfalto causados pela quentura do meio-dia. A consistência do líquido lembrava-lhe a batida de rum que seu pai bebia e que, por causa dela, morrera de problemas no fígado num leito público.
Condoeu-se da criatura acidentada, da infeliz que era ela própria, sem falar na repugnância da imagem da mulher de saias com apenas um pedaço da cabeça, pernas arreganhadas, vestida dentro de uma calcinha preta de algodão que não cobria devidamente os pêlos pubianos. A camiseta de malha puída, agora completamente esfarelada pela grosseria da borracha em movimento, seios flácidos e gigantescos à mostra, assim como eram fartos os seus cabelos, que, aliás, foram arrancados e separados em nacos, que já eram incapazes de esconder sua alma despudorada, de quem não recebia sequer os cumprimentos do Pároco.
Lá estava ela, despachada e amassada a Deus dará; uma mula-sem-cabeça, mas que não atrapalhava o trânsito – uma brincadeira a que sua mente se permitiu.
“Perfeitamente aceitável sonhar com a própria morte” – atinou tentando encontrar justificativas para o injustificável. – “Mas o que dizer quando se vê tudinho, ao vivo e a cores?”
Os lençóis estavam empapados. A cama parecia uma pequena piscina, mas a sensação continuava a de um calor intenso, portanto, uma piscina encostada no inferno, com uma improvável termoluminescência interna, proveniente sabe-se lá de onde, em que se fervia constantemente o líquido à temperatura de descamar as costas e o teto da boca. Num caldeirão, isso sim, foi onde pensou estar dormindo até bem pouco tempo. No quarto havia uma janela que se abria em duas partes, e estava escancarada, ventava em demasia, mas o fogo advinha de dentro, da cortiça que cobria sua espinhela.
E seu ganha-pão, as famosíssimas maçãs, vermelhas que só vendo!, que eram propagadas pela gostosura (e por que não ressaltar a honestidade no tamanho?), desde os funcionários dos Correios até os advogados de uma banca próxima, descia a ladeira desgovernado, apressado e intocável, para rumo incerto e ignorado, até desaparecer, sem que ela pudesse fazer absolutamente nada – estava morta e mortos não têm direito a movimentos. Logicamente, faltava-lhe esta reação. Mas não precisaria mais vender maçãs nas esquinas de Fortaleza, nem de qualquer outra cidade, incluindo a sua: Manuaba do Norte, para manter a pose e o nariz empinado de outrora. Necessitada a menina, mas cheia de charme nas ventas. Não admitiria a pobreza até se se prestasse ao confessionário.
De certa maneira, também se sentia aliviada, (há tempos reclamava de cansaço à mãe, com quem dividia um casebre, que dizia ser um palacete escondido num lugarejo mágico), principalmente aliviada do risco iminente de um câncer de pele pelas infindáveis horas expostas ao sol abrasador de todo dia. Naquele instante, pensou, porém, não se fazer mais necessário qualquer dinheiro, já que pedaço no céu não se comprava. Sabia, contudo, que seu lugar junto aos anjos deveria ter sido conquistado através da força alastrante das boas atitudes, mas enquanto vivíssima e mediante benfeitorias colocadas em prática no plano terreno, como resultado de um mandamento bíblico. Isto aprendera durante as aulas de catecismo da professora Marly Alves, na época em que era uma estudante aplicada na Escola Normal. Aquilo lhe imbuiu um medo súbito.
O tempo quedava-se tarde, concluiu. E por quantas vezes agira como uma escrota! Uma filha-da-puta era ela! Gordurenta e morta! E suas maçãs rolando a perder de vista. E ela imersa em água fervendo, certamente das bandas do inferno. Pior do que o atropelamento em si foi pesar a falta de atenção das pessoas para com sua morte, justo de um público sempre tão sedento pela desgraça alheia. Apenas ela se dava conta de alguma coisa fragmentada por um caminhão de frete; tão-somente ela gritava num desespero estreito apontando para a vendedora de maçãs morta à luminosidade do farol tricolor. Ninguém a contemplou. Nem ao acidente, embora tenha havido um grande barulho quando o caminhão arrebentou uma porção de ossos fortes. Não houve quem reparasse no sangue esparramado no cruzamento entre as duas avenidas agitadas, cobrindo, por assim dizer, a cidade de vermelho, como vermelhas eram as maçãs.
Mendes Júnior
* Conto selecionado no II Concurso Nacional de Literatura Arti-Manhas, em 2008, publicado na coletânea "Contos Escolhidos";
** Painting by Valera Iskhakov, "Red woman with apples".
Indicações Musicoliterárias
Capa Selo ElencoQueiram me desculpar pela demora: estive ausente. Mas, - se bem lembro -, tratava de mencionar discos "envolventes" da Bossa Nova, pelo seu aniversário. A música, no entanto, por trás de sua melodia e letra, toda sua arquitetura, a emoção que assola o coração mais sensível, esconde personagens interessantes, vistas em sua maioria quando alguém resolve dividir com o grande público histórias de bastidores, peculiaridades, um pouco de suas vidas, (respeitada obviamente a intimidade do amor), algo de suas lutas, os obstáculos etc. Pois bem, três mulheres que devem constar em qualquer manual de Bossa Nova, sob pena de uma falha imperdoável, são Sylvia Telles, Dolores Duran e Maysa, a mulher que nunca deixou de parecer sofrida. Como disse o biógrafo da Bossa Nova, Ruy Castro, em "Chega de Saudade", estas três damas, com suas canções de dor-de-cotovelo, "foram as cantoras mais influentes da década de 50". Pena que morreram muito novas: Dolores com 29, Sylvinha com 32 e Maysa com 41.
Pretendo dividir a prosa, começando com Sylvinha Telles. Esta mulher de olhos perfeitos e sorriso largo, foi "descoberta" cantora pelo pai durante uma apresentação no programa "Calouros em desfile", de Ary Barroso, na Rádio Tupi. Isto numa época em que mulher cantar e tocar era, de certa forma, inaceitável. Mas o pai gostou do que ouviu, não bastasse ter namorado João Gilberto em 52, e deduzia não ter mais meios para impedir a filha. Tempos depois, Sylvinha foi convidada a trabalhar num teatro de revista, local de pouca reputação, para cantar a música "Amendoim torradinho", de Henrique Beltrão, e não recusou, mesmo diante do protesto de alguns amigos e do irmão, Mário Telles. A partir daí, a Odeon convidou Sylvinha a gravar "Amendoim torradinho"; era julho de 1955; além do amendoim, tinha a música "Desejo", de Garoto; as rádios adoraram. Tratava-se Pronto, Sylvinha viraria estrela do rádio, do disco e da televisão, a primeira cantora de Bossa Nova do Brasil, segundo Roberto Menescal.
Como uma justa homenagem a uma das mulheres mais importantes da Bossa Nova, e da qual pouca gente lembra e fala, indico um disco sensacional: "It might as well be spring", com o selo Dubas, cuja edição original é de 1965, pela Elenco, com arranjos de Lindolfo Gaya. O disco é uma reunião de clássicos da Bossa com versão em inglês, portanto, um desfile de músicos de primeira linha: Menescal, Bonfá, Luiz Eça, das Neves, Russo do Pandeiro, entre outros tantos. Felizmente, mesmo tratando de versões americanizadas da música brasileira, Menescal nos conta que Ray Gilberto, o versionista que atuou muito na ponte Estados Unidos - Brasil, veio morar por aqui e trabalhou diretamente com cada um que participou do disco - não queria perder a métrica. O disco virou referência e muitos artistas americanos gravaram alguma de suas músicas, tal foi o caso de Sarah Vaughan.
A seleção é maravilhosa: "Você" e "Tetê", de Menescal e Bôscoli; "Rain (Chuva)", de Durval Ferreira e Pedro Camargo; "Balanço Zona Sul", de Tito Madi; "Pardon my english (Samba torto)", de Tom e Aloysio de Oliveira; "If you went away (Preciso aprender a ser só)" e "The face i love (Seu encanto)", de Marcos e Paulo Sérgio Valle; e outras. Por fim, um ponto interessante que deve ser ressaltado: as capas tanto da edição da Elenco quando da Dubas são do lendário Cesar Villela, que não tocou nenhum instrumento nem cantou, mas que marcou sem dúvida a Bossa Nova.
Esteja dito, mas continua.
Mendes Júnior
15 Agosto, 2008
Laranja
Celeste chorava copiosamente ao meu lado. Estava deveras constrangido, pois as pessoas mais próximas, que queriam assistir à apresentação, se sentiam incomodadas com aquela ladainha fanhosa, e a todo instante pediam silêncio, com o indicador colado à boca, o que poderia ser considerado mais do que natural – grosseria grande era o comportamento de Celeste. Desde muito antes, dentro mesmo do carro, ela esboçava um berreiro, embora tenha conseguido manter o rosto enxuto até a primeira vodca. Celeste continuava estranha. Além de todas as esquisitices, era a única pessoa no mundo que bebia vodca sem gelo. Pedia apenas uma laranja cortada ao meio e espremia uma banda por dose, às vezes alterando tão-somente a coloração. Havia uma legião de amigos que sempre votava contra Celeste encarar a vodca nesses moldes, já que volta e meia se excedia e acabava por se arrepender no dia seguinte de alguma bobagem que cometia, no entanto, com a promessa de tudo acabar bem, enfiava a bebida praticamente em estado bruto – quase uma fogueira descendo pela goela; quase uma roseta de arame farpado rasgando a alma.
O fato é que ainda não conhecia o porquê do desalento de Celeste e aquilo ficava cada vez mais desconsertante.
“Qual o problema, Celeste?”
Celeste fazia de conta que não era com ela e sequer se dignava a virar o rosto para o meu lado. Fixava o olhar no palco. Tinha um cigarro no canto da boca. Sentia pena de Celeste: ela vivia solitária num minúsculo apartamento, sem gato, sem cachorro, sem parente, sem marido, só com seus livros e discos. Disse-me certa vez que companheiros mais sinceros do que os livros e os discos não há – “Eles nunca o abandonam”.
“E eu, porra?”
Mas Celeste me fez um carinho no pescoço e entendi que eu também era importante para ela. Estávamos nus, deitados no tapete da sala, escutando Freddie Hubbard e fumando um baseado. Tínhamos acabado de fazer mais um sexo sem compromisso. Na vida, raros são os momentos de plena paz e Celeste sabia como fisgá-los: pediu um minuto e foi até a estante apanhar um livro. Celeste não era magra, mas não se podia dizer que era gorducha. Celeste era a mulher na medida para o meu gosto. Ao andar, suas mamas balançavam, e me dava prazer ficar observando os movimentos tanto das tetas quanto das nádegas de Celeste, que também se deslocavam de forma peculiar, muito embora com mais timidez.
“Olha que coisa bonita!”, disse-me Celeste, abrindo Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, para ler um trecho. Antes, ressaltou que se tratava da história de uma interessante mulher.
(O pensamento de Teresa se destacava do corpo desconhecido que elaborara para sua alegria; cansava-se de sua felicidade, experimentava a saciedade do imaginário prazer – inventava outra evasão).
Terminou e ficou parada, esperando que eu dissesse alguma coisa, mas ainda tentava entender se havia relação entre Teresa e Celeste. Talvez não houvesse, apenas uma passagem ficcional, ou, quem sabe, poderia haver até demais: Celeste estava inclinada a pensar um mundo sem os escrotos de plantão e repetia em tom solene que sua maneira de enxergar a porcaria da vida havia mudado: estava cansada e cagando para gente feito eu.
“Eu, porra?”
Celeste me pediu sinceras desculpas. Enlouquecia. Há dias vinha desenvolvendo uma revolta incomum e, portanto, que não levasse em consideração algumas coisas de que falava. Gostava muito de mim, tranqüilizou-me, completando: na amizade não temos de nos explicar, mas entender que todos sofremos e que não por isto deixamos de amar uns aos outros, e era isso que queria de mim naquele instante da sua vida: compreensão e reciprocidade dos sentimentos, não só quando na magia legítima do sexo, mas por todo o sempre, mesmo que isto custasse uma lasca do couro das costas. Celeste era pragmática na maioria de suas falas, apenas no afloramente da inibida veia poética é que surgia com um certo obscurantismo, que me deixava imerso num enorme ponto de interrogação. Qual a Teresa? Qual a Celeste? Continuamos, ao som de Arietis, bebendo e dando tapas no baseado. O cheiro da mão de Celeste tinha assumido a conotação cítrica da laranja enquanto a minha parecia estar dentro de uma luva de ervas.
Realmente, notara que Celeste estava variando de humor ultimamente. O pior é que não se entregava, não queria conversar sobre o mal que a atormentava. Claro que eu insistia, mas não havia meio de decifrar a nova Celeste. Ela me perguntou o que eu achava dos poetas malditos, mas, mesmo que quisesse, não seria capaz de dizer algo atraente e preferi me quedar no silêncio. Melhor do que dizer babaquices. Sou daquele tipo que quando não domina determinado assunto me calo rápido, a fim de não passar vexame desnecessariamente.
“A Celeste agora só se ocupa com os malditos” – falou na terceira pessoa, e isto me deixou ainda mais intrigado. – “Franceses são uns merdas fodões! Você não acha?”
Os raios da manhã já entravam pela janela. A noite e a madrugada se foram bandidas. Resolvi tomar um banho quente na banheira de Celeste. Não sei se pela vodca, pela maconha ou pelo cansaço, mas Celeste, ao tentar cortar uma laranja, acabou acertando a mão, abrindo uma fenda de médio porte, e o sangue se misturou ao cheiro da laranja. Contou-me o que aconteceu quando entrou na banheira, pois fiquei assustado ao notar a água se avermelhando.
“Porra!”
(...)
Celeste não parava de chorar.
“Qual o problema, Celeste?”
“Nada”.
“Mas como nada? Você está mal e persiste na idéia de não se abrir comigo. Por quê?”
“Por nada”.
No acanhado palco da boate, um tal de Juan Miranda entremeava no piano baladas cubanas e jazz. Achei que Celeste fosse aprovar meu convite, mas só me decepcionava.
Lembrei de Teresa. Melhor: do pouco que conhecia da personagem de Mauriac. Queria saber mais sobre sua história, entretanto me restava unicamente o fato de que Teresa estava cansada da felicidade, e talvez fosse esta a tormenta de Celeste: cansaço. Mas Celeste nunca foi feliz, portanto, sua fadiga poderia ser de tudo: da vodca, da laranja, do sexo, da solidão, de mim ou do Juan Miranda, que agora tocava uma habanera, chamada Mariposita de primavera, menos por excesso de felicidade. Celeste era uma mulher arrasada desde que sua irmã falecera num acidente de automóvel. Assim como Teresa, não conhecia muito da irmã de Celeste, apenas que era mais nova e que recebia os cuidados da mais velha, pois cresceram diante da ausência dos pais. Celeste era tudo que a menina tinha e vice-versa, razão pela qual ficou desamparada quando ligaram no meio da tarde avisando da fatalidade.
Celeste me propôs irmos para o seu apartamento. A laranja estava exageradamente doce e aquilo lhe causava náuseas. Achei que fosse brincadeira de Celeste jogar a culpa na laranja, mas vi que ainda chorava e preferi não aborrecê-la com minhas teorias de comportamento. Claro que aceitei ir com Celeste, raramente a contrariava. Durante o caminho até o carro, senti uma enorme vontade de segurar sua mão, porém a desocupada era a que tinha a cicatriz e eu não achava confortável. Na outra, um cigarro enodado de batom escuro.
“Celeste, tenho pena de você”.
“Também tenho”.
“Por que então não me fala o seu problema?”
“Você não iria entender”.
“Por que não tenta?”
“Você não vai entender”.
“Por quê?”
“Vai à merda!”
Talvez o pensamento de Teresa explicasse a nova Celeste; talvez explicasse qualquer coisa. Não é a felicidade o âmago da questão, mas se apartar do corpo que ora nos é desconhecido, amargo e podre, é mudar tudo, é correr léguas até o gozo, é vestir uma outra fantasia, seja ela de Apolo ou Dionísio, é sujar o rosto quando necessário, é pagar o preço.
Celeste já não chorava. Celeste já não cheirava à laranja.
O fato é que ainda não conhecia o porquê do desalento de Celeste e aquilo ficava cada vez mais desconsertante.
“Qual o problema, Celeste?”
Celeste fazia de conta que não era com ela e sequer se dignava a virar o rosto para o meu lado. Fixava o olhar no palco. Tinha um cigarro no canto da boca. Sentia pena de Celeste: ela vivia solitária num minúsculo apartamento, sem gato, sem cachorro, sem parente, sem marido, só com seus livros e discos. Disse-me certa vez que companheiros mais sinceros do que os livros e os discos não há – “Eles nunca o abandonam”.
“E eu, porra?”
Mas Celeste me fez um carinho no pescoço e entendi que eu também era importante para ela. Estávamos nus, deitados no tapete da sala, escutando Freddie Hubbard e fumando um baseado. Tínhamos acabado de fazer mais um sexo sem compromisso. Na vida, raros são os momentos de plena paz e Celeste sabia como fisgá-los: pediu um minuto e foi até a estante apanhar um livro. Celeste não era magra, mas não se podia dizer que era gorducha. Celeste era a mulher na medida para o meu gosto. Ao andar, suas mamas balançavam, e me dava prazer ficar observando os movimentos tanto das tetas quanto das nádegas de Celeste, que também se deslocavam de forma peculiar, muito embora com mais timidez.
“Olha que coisa bonita!”, disse-me Celeste, abrindo Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac, para ler um trecho. Antes, ressaltou que se tratava da história de uma interessante mulher.
(O pensamento de Teresa se destacava do corpo desconhecido que elaborara para sua alegria; cansava-se de sua felicidade, experimentava a saciedade do imaginário prazer – inventava outra evasão).
Terminou e ficou parada, esperando que eu dissesse alguma coisa, mas ainda tentava entender se havia relação entre Teresa e Celeste. Talvez não houvesse, apenas uma passagem ficcional, ou, quem sabe, poderia haver até demais: Celeste estava inclinada a pensar um mundo sem os escrotos de plantão e repetia em tom solene que sua maneira de enxergar a porcaria da vida havia mudado: estava cansada e cagando para gente feito eu.
“Eu, porra?”
Celeste me pediu sinceras desculpas. Enlouquecia. Há dias vinha desenvolvendo uma revolta incomum e, portanto, que não levasse em consideração algumas coisas de que falava. Gostava muito de mim, tranqüilizou-me, completando: na amizade não temos de nos explicar, mas entender que todos sofremos e que não por isto deixamos de amar uns aos outros, e era isso que queria de mim naquele instante da sua vida: compreensão e reciprocidade dos sentimentos, não só quando na magia legítima do sexo, mas por todo o sempre, mesmo que isto custasse uma lasca do couro das costas. Celeste era pragmática na maioria de suas falas, apenas no afloramente da inibida veia poética é que surgia com um certo obscurantismo, que me deixava imerso num enorme ponto de interrogação. Qual a Teresa? Qual a Celeste? Continuamos, ao som de Arietis, bebendo e dando tapas no baseado. O cheiro da mão de Celeste tinha assumido a conotação cítrica da laranja enquanto a minha parecia estar dentro de uma luva de ervas.
Realmente, notara que Celeste estava variando de humor ultimamente. O pior é que não se entregava, não queria conversar sobre o mal que a atormentava. Claro que eu insistia, mas não havia meio de decifrar a nova Celeste. Ela me perguntou o que eu achava dos poetas malditos, mas, mesmo que quisesse, não seria capaz de dizer algo atraente e preferi me quedar no silêncio. Melhor do que dizer babaquices. Sou daquele tipo que quando não domina determinado assunto me calo rápido, a fim de não passar vexame desnecessariamente.
“A Celeste agora só se ocupa com os malditos” – falou na terceira pessoa, e isto me deixou ainda mais intrigado. – “Franceses são uns merdas fodões! Você não acha?”
Os raios da manhã já entravam pela janela. A noite e a madrugada se foram bandidas. Resolvi tomar um banho quente na banheira de Celeste. Não sei se pela vodca, pela maconha ou pelo cansaço, mas Celeste, ao tentar cortar uma laranja, acabou acertando a mão, abrindo uma fenda de médio porte, e o sangue se misturou ao cheiro da laranja. Contou-me o que aconteceu quando entrou na banheira, pois fiquei assustado ao notar a água se avermelhando.
“Porra!”
(...)
Celeste não parava de chorar.
“Qual o problema, Celeste?”
“Nada”.
“Mas como nada? Você está mal e persiste na idéia de não se abrir comigo. Por quê?”
“Por nada”.
No acanhado palco da boate, um tal de Juan Miranda entremeava no piano baladas cubanas e jazz. Achei que Celeste fosse aprovar meu convite, mas só me decepcionava.
Lembrei de Teresa. Melhor: do pouco que conhecia da personagem de Mauriac. Queria saber mais sobre sua história, entretanto me restava unicamente o fato de que Teresa estava cansada da felicidade, e talvez fosse esta a tormenta de Celeste: cansaço. Mas Celeste nunca foi feliz, portanto, sua fadiga poderia ser de tudo: da vodca, da laranja, do sexo, da solidão, de mim ou do Juan Miranda, que agora tocava uma habanera, chamada Mariposita de primavera, menos por excesso de felicidade. Celeste era uma mulher arrasada desde que sua irmã falecera num acidente de automóvel. Assim como Teresa, não conhecia muito da irmã de Celeste, apenas que era mais nova e que recebia os cuidados da mais velha, pois cresceram diante da ausência dos pais. Celeste era tudo que a menina tinha e vice-versa, razão pela qual ficou desamparada quando ligaram no meio da tarde avisando da fatalidade.
Celeste me propôs irmos para o seu apartamento. A laranja estava exageradamente doce e aquilo lhe causava náuseas. Achei que fosse brincadeira de Celeste jogar a culpa na laranja, mas vi que ainda chorava e preferi não aborrecê-la com minhas teorias de comportamento. Claro que aceitei ir com Celeste, raramente a contrariava. Durante o caminho até o carro, senti uma enorme vontade de segurar sua mão, porém a desocupada era a que tinha a cicatriz e eu não achava confortável. Na outra, um cigarro enodado de batom escuro.
“Celeste, tenho pena de você”.
“Também tenho”.
“Por que então não me fala o seu problema?”
“Você não iria entender”.
“Por que não tenta?”
“Você não vai entender”.
“Por quê?”
“Vai à merda!”
Talvez o pensamento de Teresa explicasse a nova Celeste; talvez explicasse qualquer coisa. Não é a felicidade o âmago da questão, mas se apartar do corpo que ora nos é desconhecido, amargo e podre, é mudar tudo, é correr léguas até o gozo, é vestir uma outra fantasia, seja ela de Apolo ou Dionísio, é sujar o rosto quando necessário, é pagar o preço.
Celeste já não chorava. Celeste já não cheirava à laranja.
Mendes Júnior
* Conto selecionado no Prêmio de Literatura Unifor 2007
** Photo by Mendes Júnior
29 Julho, 2008
16 Julho, 2008
Indicações Musicoliterárias

Estamos comemorando os 50 anos da Bossa Nova. É possível que todos tenham conhecimento do fato, que considero de grande relevância, por várias razões, as quais não nominarei, senão dizer da mais simples de todas: sou fã. Na Flip (Feira Literária Internacional de Paraty) deste ano, uma das mesas foi dedicada ao assunto, composta por um de seus fundadores, Carlos Lyra, que nos brindou com histórias deliciosas de uma época que não se vive mais, e que há muito deixa saudade. Estarei, nos próximos dias, indicando obras relacionadas com a Bossa Nova, desde nomes daqui quanto de bem longe destas plagas, como forma de compartilhar a música brasileira.
O primeiro disco que trago ao blog foi gravado em apenas dois dias: 27 e 28 de agosto de 1962, na cidade de New York, e tem o selo Verve. Isto não significa, ou seja, a gravação em dois dias que o trabalho foi descuidado, ao contrário, muito bem arranjado e tocado por um time de primeira. Refiro-me ao "Big Band Bossa Nova", de Stan Getz. Razões desfilam para comprovar a riqueza do disco. Os arranjos são de Gary McFarland, um dos mais significativos para as orquestras de jazz nos anos 60, que tem parte de sua discografia relacionada ao "latin jazz" e ao "samba". Outra questão a se levar em consideração é o repertório: "Manhã de Carnaval", "Samba de Uma Nota Só", "Bim Bom" e "Chega de Saudade" são nossas conhecidas, mas a maneira como são conduzidas, não; ficaram fantásticas, e não pensem se tratar de um exagero. Há ainda as músicas do próprio Gary McFarland: "Balanço no Samba", inspirado no filme "Orfeu Negro"; "Entre Amigos", que tem uma maravilhosa entrada; "Melancolico"; e "Noite Triste". Importado, mas vale conferir.
Músicos: Stan Getz (tenor saxophone); Gary McFarland (conductor); Doc Severisen, Bernie Glow, Joe Ferrante, Clark Terry, Nick Travis (trumpet); Ray Alonge (French horn); Tony Studd, Bob Brookmeyer, Willie Dennis (trombone); Ray Beckenstein (flute, clarinet); Gerald Sanfino (flute); Eddie Caine (alto flute); Babe Clark, Walt Levinsky (clarinet); Romeo Penque (bass clarinet); Hank Jones (piano); Jim Hall (guitar); Tommy Williams (bass); Johnny Rae (drums); Jose Paulo (tambourine); Carmen Costa (cabassa).
Esteja dito.
Mendes Júnior
15 Julho, 2008
Portas azuis

15/07/2008.
As batidas das portas do fundo provocaram arrepios em Madalena, haja vista sua mão que não desgrudava do meu pijama. Apertava com mais vigor a cada nova bordoada. Suas unhas descascadas e longas, antes apenas maliciosas, perfuraram o pano e cravaram na pele da minha cintura. Pedi que se acalmasse, não era nada demais, apenas um forte vento anunciado mais cedo pelo cheiro da terra. Disse-me que, em pesadelo na noite do santo, havia acontecido exatamente igual: o telhado desabaria em pouco tempo. Claro que não lhe dei ouvidos. Num esforço que só Deus era testemunha, levantei-me; fui até a cozinha resolver o problema que me tirava do sono. Até o Biriba estava com uma expressão de medo – um gato que herdara junto com a casa. Buscou abrigo ao lado da geladeira, diante do olhar vigilante de um pingüim de cerâmica, que, do alto, planificava o abatimento daquele que ameaçava seu território. Vez ou outra Biriba levava um choque e miava estranho. O pingüim de cerâmica insuflava o peitoral alvinegro. Das três portas, somente duas estavam escancaradas; faziam movimentos compassados, mas de forma a se desvencilharem das paredes antigas.
A casa foi herança de uma tia, que talvez se chamasse Francisca das Dores. Estava talhado no tronco da árvore que ficava no quintal: “Quintino Alves e Francisca das Dores, eternamente”. No cartório, o que se leu foi bem diferente: Marlúcia Dias, que morrera aos cinco dias de fevereiro do mesmo ano, solteira, deixou ao único familiar, eu, o casarão da rua Moraes de Figueiredo, bem como todos os bens móveis de seu interior e semoventes. Madalena e eu nos mudamos no começo do outro ano.
As portas eram azuis, como azuis eram os olhos do Biriba, que nunca estiveram tão esbugalhados quanto durante a ventania. Madalena gritava pelo meu nome quando subi na cadeira para fechar os ferrolhos de cima. Portas com fechaduras no alto, no centro e no chão, altas, grossas, sem maçanetas e com dobradiças enferrujadas e alardeadeiras. Foi necessária muita força até descobrir que era incapaz fechá-las. Levei uma pancada no rosto e cai de costas. Durante um período, fiquei olhando o telhado; imaginei o pesadelo de Madalena se tornando realidade. Senti um molhado na perna. Não havia reparado, mas descia um fio de sangue da minha cintura. As unhas de Madalena agora me pareceram uma navalha. Do meu nariz, já era diferente: o sangue jorrava.
O vento não dava trégua e o barulho começou a vir de outra parte – talvez da entrada do casarão. A terceira porta do fundo também se abriu. A minha impressão foi de que não havia separação com o lado de fora, como se não mais existissem paredes, somente o teto. Por sorte, não chovia. Madalena, de tanto gritar, deve ter cansado e dormido. Não consegui me mexer; permaneci deitado no chão. Olhei de lado e não vi o Biriba. No alto, vigas sólidas prendiam telhas cobertas de uma camada esverdeada; nas madeiras mais finas se viam agarradas cascas de laranja – meninices de outras épocas. O telhado não desabaria, pensei comigo, enquanto ao meu redor se formava uma enorme poça de sangue. Minha vista foi ficando turva, as imagens desaparecendo e os ossos sendo assolados por uma frieza incomum; notei meu corpo afastado de mim: não comandava ação alguma. Madalena, minha doce Madalena, você estava com a razão: não há mais teto para mim; o breu é o que tenho diante dos olhos; tudo se fez noite; miro o telhado e não dou com ele.
O rumor continuou vindo das portas em encontrões até o amanhecer, mas Madalena, por dormir em profundidade, já não escutava. Biriba, de um salto, se juntou ao pingüim de cerâmica em cima da geladeira; ficaram amigos; às vezes brincam no quintal, ao pé da árvore. Sobre suas cabeças, dias ensolarados e noites estreladas. Por sorte, nunca chovia e o casarão permanecia seco.
A casa foi herança de uma tia, que talvez se chamasse Francisca das Dores. Estava talhado no tronco da árvore que ficava no quintal: “Quintino Alves e Francisca das Dores, eternamente”. No cartório, o que se leu foi bem diferente: Marlúcia Dias, que morrera aos cinco dias de fevereiro do mesmo ano, solteira, deixou ao único familiar, eu, o casarão da rua Moraes de Figueiredo, bem como todos os bens móveis de seu interior e semoventes. Madalena e eu nos mudamos no começo do outro ano.
As portas eram azuis, como azuis eram os olhos do Biriba, que nunca estiveram tão esbugalhados quanto durante a ventania. Madalena gritava pelo meu nome quando subi na cadeira para fechar os ferrolhos de cima. Portas com fechaduras no alto, no centro e no chão, altas, grossas, sem maçanetas e com dobradiças enferrujadas e alardeadeiras. Foi necessária muita força até descobrir que era incapaz fechá-las. Levei uma pancada no rosto e cai de costas. Durante um período, fiquei olhando o telhado; imaginei o pesadelo de Madalena se tornando realidade. Senti um molhado na perna. Não havia reparado, mas descia um fio de sangue da minha cintura. As unhas de Madalena agora me pareceram uma navalha. Do meu nariz, já era diferente: o sangue jorrava.
O vento não dava trégua e o barulho começou a vir de outra parte – talvez da entrada do casarão. A terceira porta do fundo também se abriu. A minha impressão foi de que não havia separação com o lado de fora, como se não mais existissem paredes, somente o teto. Por sorte, não chovia. Madalena, de tanto gritar, deve ter cansado e dormido. Não consegui me mexer; permaneci deitado no chão. Olhei de lado e não vi o Biriba. No alto, vigas sólidas prendiam telhas cobertas de uma camada esverdeada; nas madeiras mais finas se viam agarradas cascas de laranja – meninices de outras épocas. O telhado não desabaria, pensei comigo, enquanto ao meu redor se formava uma enorme poça de sangue. Minha vista foi ficando turva, as imagens desaparecendo e os ossos sendo assolados por uma frieza incomum; notei meu corpo afastado de mim: não comandava ação alguma. Madalena, minha doce Madalena, você estava com a razão: não há mais teto para mim; o breu é o que tenho diante dos olhos; tudo se fez noite; miro o telhado e não dou com ele.
O rumor continuou vindo das portas em encontrões até o amanhecer, mas Madalena, por dormir em profundidade, já não escutava. Biriba, de um salto, se juntou ao pingüim de cerâmica em cima da geladeira; ficaram amigos; às vezes brincam no quintal, ao pé da árvore. Sobre suas cabeças, dias ensolarados e noites estreladas. Por sorte, nunca chovia e o casarão permanecia seco.
Mendes Júnior
* Painting by David de Almeida, "Fan 8".
14 Julho, 2008
13 Julho, 2008
Psicologia como ciência – a crise da subjetividade privatizada

Uma questão interessante que, por certo, merece destaque no estudo do surgimento da psicologia como ciência no século XIX, na minha opinião, trata-se da subjetividade privatizada. No excelente trabalho Psicologia – uma (nova) introdução, dos professores Luís Cláudio Mendonça Figueiredo e Pedro Luiz Ribeiro de Santi, deparamo-nos com duas condições (fundamentais) para o conhecimento científico da psicologia: uma experiência clara da subjetividade privatizada e a experiência da crise desta mesma subjetividade. Mas o que vem a ser a subjetividade privatizada? Pelo que percebemos, estamos falando da nossa individualidade, dos nossos desejos, do nosso “eu”, enfim, daquilo que está dentro de nós e que somente nós temos contato. E quanto à crise? Bem, estaríamos diante das transformações culturais ao longo dos anos, tais como religiosidade, arte, valores, costumes etc., determinando, de certa forma, a subjetivação e a individualização. Mas é aqui que o homem percebe que conceitos como liberdade, individualidade e igualdade não passam de meras ilusões. Há uma perplexidade, inclusive quando descobre não existir muita diferença entre os homens.
No entanto, importa ressaltar – e o contrário seria difícil de entender –, que as transformações supracitadas se deram no seio da sociedade, socialmente, politicamente e economicamente, e somente a partir do reconhecimento da instância individual do homem dentro desta mesma sociedade é que a psicologia é aceita como ciência. Mas para isto estamos falando de três séculos: do Renascimento à Idade Moderna, e, durante este longo período, o homem chega a ser valorizado, diante da concepção de que ele seria o centro do mundo e totalmente livre para trilhar seu caminho (e Deus?), até a crise da soberania do “eu”.
Abordando de forma sucinta cada época, podemos afirmar que no Renascimento a figura de Deus parece ter se distanciado e se colocado sobre o mundo, fazendo com que o homem passasse a controlar a natureza. Há, portanto, uma valorização do homem, nascendo, por sua vez, o humanismo moderno. Um assunto, a meu ver, de extrema importância é que aqui surge a filosofia grega do ceticismo, para a qual era impossível ao homem um conhecimento seguro do mundo. Em suma: o homem começa a criticar e duvidar do próprio homem. Além do mais há um nascente individualismo, que acaba produzindo reações: racionalistas e empiristas, que, de acordo com os professores supracitados, tratam de estabelecer bases novas e mais seguras para as crenças e ações humanas.
A partir de então, a figura do homem volta a se sujeitar a uma ordem superior, ocorrendo a desvalorização da própria individualidade e o conflito da liberdade, conforme já anunciamos acima. Esta tal superioridade parte da religião (Reforma e Contra-Reforma), e o indivíduo passa a ser devidamente controlado. Buscamos, com isso, apenas retratar, mesmo que de forma rasteira, as fases pelas quais passaram a subjetividade privatizada.
Dando um salto até a modernidade, não esquecendo, é lógico, da idéia cética, o “eu” deixa de ser soberano. Mas por quê? Surge a problematização da crença em conhecimentos absolutos, e isto perpassa pelo Iluminismo, pelo Romantismo (“é um momento essencial na crise do sujeito moderno pela destituição do ‘eu’ de seu lugar privilegiado de senhor, de soberano”), pela filosofia nietzschiana, para qual as idéias de “eu” ou “sujeito” são interpretadas como ficções, incentivando muitas restrições ao seu ponto de vista, principalmente quando afirma que é ilusório o fazer humano, e pelas condições sócio-econômicas, momento em que os homens são reduzidos à dependência dos proprietários dos meios de produção, são explorados e violentados – não há liberdade, não há igualdade.
Com isso, claramente percebe-se a necessidade das crises da subjetividade privatizada, a fim de que a psicologia seja científica. Significa dizer que tais experiências induzem os homens a pensarem acerca das causas e do significado de tudo aquilo que fazem, causam uma reflexão do que somos, quem somos, como somos e por que tomamos determinadas ações. E, para tanto, a ilusão da liberdade e da igualdade são pedras fundamentais na construção dos questionamos humanos e, obviamente, na condução de projetos da psicologia como uma ciência independente, pois a crise da subjetividade requer uma solução, e é na psicologia o caminho a se percorrer.
No entanto, importa ressaltar – e o contrário seria difícil de entender –, que as transformações supracitadas se deram no seio da sociedade, socialmente, politicamente e economicamente, e somente a partir do reconhecimento da instância individual do homem dentro desta mesma sociedade é que a psicologia é aceita como ciência. Mas para isto estamos falando de três séculos: do Renascimento à Idade Moderna, e, durante este longo período, o homem chega a ser valorizado, diante da concepção de que ele seria o centro do mundo e totalmente livre para trilhar seu caminho (e Deus?), até a crise da soberania do “eu”.
Abordando de forma sucinta cada época, podemos afirmar que no Renascimento a figura de Deus parece ter se distanciado e se colocado sobre o mundo, fazendo com que o homem passasse a controlar a natureza. Há, portanto, uma valorização do homem, nascendo, por sua vez, o humanismo moderno. Um assunto, a meu ver, de extrema importância é que aqui surge a filosofia grega do ceticismo, para a qual era impossível ao homem um conhecimento seguro do mundo. Em suma: o homem começa a criticar e duvidar do próprio homem. Além do mais há um nascente individualismo, que acaba produzindo reações: racionalistas e empiristas, que, de acordo com os professores supracitados, tratam de estabelecer bases novas e mais seguras para as crenças e ações humanas.
A partir de então, a figura do homem volta a se sujeitar a uma ordem superior, ocorrendo a desvalorização da própria individualidade e o conflito da liberdade, conforme já anunciamos acima. Esta tal superioridade parte da religião (Reforma e Contra-Reforma), e o indivíduo passa a ser devidamente controlado. Buscamos, com isso, apenas retratar, mesmo que de forma rasteira, as fases pelas quais passaram a subjetividade privatizada.
Dando um salto até a modernidade, não esquecendo, é lógico, da idéia cética, o “eu” deixa de ser soberano. Mas por quê? Surge a problematização da crença em conhecimentos absolutos, e isto perpassa pelo Iluminismo, pelo Romantismo (“é um momento essencial na crise do sujeito moderno pela destituição do ‘eu’ de seu lugar privilegiado de senhor, de soberano”), pela filosofia nietzschiana, para qual as idéias de “eu” ou “sujeito” são interpretadas como ficções, incentivando muitas restrições ao seu ponto de vista, principalmente quando afirma que é ilusório o fazer humano, e pelas condições sócio-econômicas, momento em que os homens são reduzidos à dependência dos proprietários dos meios de produção, são explorados e violentados – não há liberdade, não há igualdade.
Com isso, claramente percebe-se a necessidade das crises da subjetividade privatizada, a fim de que a psicologia seja científica. Significa dizer que tais experiências induzem os homens a pensarem acerca das causas e do significado de tudo aquilo que fazem, causam uma reflexão do que somos, quem somos, como somos e por que tomamos determinadas ações. E, para tanto, a ilusão da liberdade e da igualdade são pedras fundamentais na construção dos questionamos humanos e, obviamente, na condução de projetos da psicologia como uma ciência independente, pois a crise da subjetividade requer uma solução, e é na psicologia o caminho a se percorrer.
________________________
FIGUEIREDO, Luís; SANTI, Pedro. Psicologia: uma (nova) introdução. 2. ed. São Paulo: PUCSP, 2007.
FIGUEIREDO, Luís; SANTI, Pedro. Psicologia: uma (nova) introdução. 2. ed. São Paulo: PUCSP, 2007.
Mendes Júnior
* Publicado em Cronópios, em 07/07/2008;
** Painting by Romero Carrasco, "Untitled 16".
16 Junho, 2008
Vida de Viriato

11/06/2008.
Freqüentava o Real Gabinete Português de Leitura há quatro anos, desde que fui morar no Rio de Janeiro, numa pensão miquelina de Botafogo. Ir todos os dias, no entanto, não importava ser conhecido. Meu medo me causava receio. Certamente, um deslize que me acompanhou desde Crime e Castigo. Confesso que, – não sem vergonha –, um troço esquisito e inexplicável me quedou ao anonimato. Não sei o porquê de ter dito isso ao médico, como se se relacionasse com a gordura que me obstruía a veia. O tenebroso acesso do coração se deu quando lia Lírica de João Mínimo, de Garret, na biblioteca. Descobriram-me com a cabeça e os braços estirados na escrivaninha. Fiquei assim por segundos. Voltei da vertigem a partir de uma voz de barítono rouco. “O mundo está desumano demais”, soltei mais esta ao médico. É que na confusão reclamaram do rumor, uma moça queria paz, caso contrário, iria ler na feira que montava banca perto dali. “Pois que fosse pro diabo!”, murmurei. A Coordenadora de Cultura estava inquieta pela mesa de inestimável valor; não se propôs a debulhar meu fastio. Tentei aclarar que não foi intencional: “O coração, senhora!” Não adiantou; enfezada, chamou-me de insano. A ambulância tardou em virtude do trânsito. “Estava na biblioteca. Na próxima, escolherei o local para uma ruinzeira, como se não fosse premente, hein, doutor!”, falei sarcástico, acomodado no corredor do hospital. Doutor Emo, (li na placa colada à gola do jaleco), tinha o rosto amassado e amarelo. Uma enfermeira fardola se aproximou. Nome? Viriato. Profissão? Escritor. (Notei um ar de superioridade). Estalou a língua e saiu; não carecia de mais saber. “E há melhor companhia do que os livros quando se adoece?”, perguntei ao doutor, que uma vez mais não correspondeu como eu desejava; considerava a leitura um grandessíssimo desrumar de vida e um desaprumo de cabeça. O mais triste é que morri. É terrível ter a perfeita noção da sua morte. Avisaram-me que era interino, até as arestas estarem aparadas. A ausência delas agravou meu estado, afinal um homem não pode fenecer limpo. E lá fui explicar que não cometera erros, (não roubara nem matara), enfim, nada que depreciasse a alma. Não era este o desejo? “Viriato, você foi um covarde!”, bradaram. O maior de todos os crimes: a covardia diante da vida. Lembro do caixão largo; era viciado em comida, mas a gula perdera seu posto no Livro dos Pecados para a bulimia. O féretro não era de madeira tão nobre quanto da escrivaninha. Como o reconhecimento não me ocorreu nem na morte, além dos vermes, o cupim tomará conta para que coisa alguma resista do que acabo de escrever donde estou, assim como de toda minha literatura.
Mendes Júnior
* Painting by Rafael Canogar, "Untitled (170)";
** Conto produzido especialmente para o Caderno Vida&Arte, Jornal O POVO, publicado na sua versão eletrônica em 15/06/2008.
03 Junho, 2008
O poeta maldito...
(...)
9. Da Preparação do Epitáfilo
9. Da Preparação do Epitáfilo
Bem sei: não te conformas com o pouco
de todos os homens. E buscas o poema.
E tendo em tuas mãos o papel e a pena
refazes a vida. E nunca está perdida
em ti canção.
Habitas tua sombra e permaneces fiel.
E podes fugir no dorso de um verso.
Quanto ao mais é ir vivendo.
E restaurando com amor
o áspero chão.
(...)
"Breve Romance do Cavaleiro
e Poeta José Alcides Pinto
Mensageiro do Reino de Lúcifer"
- Artur Eduardo Benevides - O Viajante da Solidão -
In Os Amantes - Poesia - José Alcides Pinto
29 Maio, 2008
Indicações Musicoliterárias

"The meeting of Armstrong and Peterson marked one of the most catalytic moments since the day when Peterson met Norman Granz" (Leonard Feather).
A voz de Louis Armstrong é uma dessas coisas que marcam uma vida, uma paixão ou até mesmo uma ocasião mais simples. Seu jazz vocal é difícil de explicar apenas com as palavras, mas digamos que pudesse ser traduzido com uma canção: "Blues in the Night (My Mama Done Tol' Me)", ou muitas outras, tais como "Let's Fall in Love", "Sweet Lorraine" e "Moon Song". Digo que é impossível não ser tocado pelo disco "Louis Armstrong meets Oscar Peterson", principalmente se você estiver acompanhado de uma Madona amada, enquanto o coração se banha de um vinho decente e o corpo se enche de folha cubana. De julho a outubro de ano de 1957, na cidade fervilhante de Hollywood, no Capitol Studios, Norman Granz teve a brilhante idéia de juntar Armstrong e o The Oscar Peterson Trio para gravar esse disco. Antes da degustação é preciso entender que a paz de espírito (pode parecer piegas, mas...) é "conditio sine qua non" para compreender toda a beleza da obra, inclusive as três músicas de Cole Porter, que são "Just One of Those Things", "I get a Kick Out of You" e "Let's Do It". O selo é Verve Records. Ah! Sabe o grande amor da sua vida? Pois é nele que irá pensar.
Esteja dito.
Mendes Júnior
27 Maio, 2008
"Night in St. Cloud"

27/05/2008.
Neste exato instante, sinto-me como se fizesse parte da paisagem de “Night in St. Cloud” – quadro a óleo pintado com incomparável sensibilidade por Edvard Munch, em 1890. Sou aquela criatura, relativamente densa, de chapéu longo à beira da janela, imerso em devaneios, em meio à quase escuridão e à melancolia. Apenas uma luminosidade da lua entrando em espiral nevoado pela janela em forma de cruzes, fazendo-me acreditar estar em Londres, a me sugerir também uma prisão; a claridade deixando o quarto na penumbra e com uma aparência de grandeza que sequer existia quando dia. Estou em Paris, não em Londres, e sou o poeta Emanuel Goldstein, amigo do criador, mas não quero a Morte, não anseio desaparecer nos próximos dias, não tenho o desejo ardente da consciência de finitude, nem quero ter nunca, ao contrário, aliás penso na mulher bela, de forma silenciosa e implacável à alma, aquela dama que me toma diariamente de assalto os sonhos nobres e os pecaminosos, por que não? É por ela tão-somente que se cobrem minhas lembranças de então, na página noturna de St. Cloud. E é na vida que me absorvo – como é capaz de peripécias, de retornos estranhos, sempre tão lúcida e perspicaz nos fazendo crer que algo de muito bom ainda existe nesse chão desesperado! – e vejo exatamente seu sorriso, que era tão doce e menino, mas que agora é forte e sensato. Sou Emanuel Goldstein olhando para uma cidade desfocada que não tem conhecimento de que é permissivo viver o passado tal qual o presente, e assim clama em prelúdios uma boca em chamas – eis as lágrimas a salgar os lábios de uma boca já em chamas – grito o nome dela, da linda mulher, pena que poucos ouvem a melodia, a cidade descansa, apenas os vagabundos estão de pé com seus cigarros ruins, e as mulheres públicas em assanhamentos sexuais, e os cães que ladram mas não mordem. Foi-se sua graça a temperar o vento frio da madrugada de fins de maio. Saborosos traços amarelos a me queimar os olhos de vidro lá fora. Era uma tarde quando a vi pela primeira vez depois de anos, muitos, vários, demasiadamente inconcebíveis para um coração arquitetado pela poesia. Ela, a amada, se surgiu como se surge uma rainha de Manet, e o vinho em seus graciosos dedos pereceu-me o mais valioso de todos os tesouros, mas havia seu sorriso, já cantado nesta prosa incomum, ah!, e é ele, o sorriso, que quero enxergar por entre as cruzes da janela nesta noite em St. Cloud; é ele que desejo inteiramente, assim como a própria vida, para ainda me ser contemplado vê-la, quem sabe amá-la.
Mendes Júnior
* Painting by Munch, "Night in St. Cloud".
19 Maio, 2008
Quanto maior estiver...

19/05/2008.
(Voz). Um poema relativamente célere que resolveu em voltas o labirinto humano. Em meio ao caos de maio e aos adjacentes da serra, chovia gotas de cristais no café requentado com leite de cabra. E já era manhã quando o espetáculo foi anunciado e o pão com manteiga deixado na ponta da mesa. A toalha de plástico não insistiu com o desjejum. O pão escorregou. Vexou-se a ponto da cadeira de bambu, que tinha o encosto frouxo, ficar também deitada ao chão de terra batida. (Barulho de queda). Era um moleque ainda, de andar de pés descalços, roupa furada, sem cueca e nariz escorrendo. Uma pipoca doce à porta. (Gaitada sonora de felicidade). Catorze ou Quatorze centavos o ingresso. Precisaria engraxar dois sapatos apenas, somente dois, um mais um sapato para o tanto da entrada com a pipoca. Preços populares. Depois do banho, somente após, o lustre em alguém. Palhaços, mágicos, animais, mulheres, enfim, o trapezista. (Aplausos de aprovação). Sonhava no ar, no céu, na lua enquanto entornava o corpo na rede olhando pela janela. (Batida de coração). Nada de bicicleta. Asas! Asas! Asas! (Grito). E a mão escorregou, pegou o vazio. (Agitação ou Espanto). O balanço correu sozinho nas alturas. Havia uma tela de proteção, uma rede, uma teia. Sorte do trapezista. Foi por pouco, muito pouco. (Silêncio).
Mendes Júnior
* Photo by André Adeodato, "Teia de cristal".
Nietzsche – O nascimento da tragédia

Sem data.
Logo no primeiro capítulo da obra “O nascimento da tragédia ou Helenismo e Pessimismo”, cujo título original é Die Geburt der Tragödie oder Griechentum, escrito em 1872, Nietzsche esclarece:
“Teremos ganho muito a favor da ciência estética se chegarmos não apenas à intelecção lógica mas à certeza imediata da introvisão [Anschauung] de que o contínuo desenvolvimento da arte está ligado à duplicidade do apolíneo e do dionisíaco, da mesma maneira como a procriação depende da dualidade dos sexos, em que a luta é incessante e onde intervêm periódicas reconciliações (...)” [1]
Assim, Nietzsche começa a tecer comentários a respeito do que considerava as condições trágicas do ser humano. Encontrou nos dois deuses gregos da arte, Apolo e Dionísio, a contraposição, quanto a origens e objetivos, natural no homem. Mas por que as duas figuras gregas? No entendimento do filósofo, foram os gregos que “pressentiram e vivenciaram de modo exacerbado as atrocidades da existência e as ‘dores do mundo’, sem subterfúgios moralistas” [2]. Considerava ainda que os gregos haviam conseguido dominar de forma exemplar o caos dos próprios impulsos. E Apolo representaria a forma simétrica, o estímulo para o puro, o ponderado, a ordem, a moral, a nobreza das figuras, enfim, considerado a arte do figurador plástico (bildner), enquanto que Dionísio, como deus da música, simbolizava o fim tenebroso e desmedido, o excesso, o desejo e a orgia, nada menos do que a arte não-figurada (unbildlichen). Estas características (impulsos) às vezes caminham de maneira harmônica, outras vezes seguem fecundando discórdia, o que acabaria por instigar as “produções” a as “lutas” – a arte, por assim dizer –, “através de um miraculoso ato metafísico da ‘vontade’ helênica (...) tanto a obra de arte dionisíaca quanto a apolínea geraram a tragédia ática” [1]. Desta forma, a tragédia seria a composição da alma (Apolo) com o corpo (Dionísio).
“Teremos ganho muito a favor da ciência estética se chegarmos não apenas à intelecção lógica mas à certeza imediata da introvisão [Anschauung] de que o contínuo desenvolvimento da arte está ligado à duplicidade do apolíneo e do dionisíaco, da mesma maneira como a procriação depende da dualidade dos sexos, em que a luta é incessante e onde intervêm periódicas reconciliações (...)” [1]
Assim, Nietzsche começa a tecer comentários a respeito do que considerava as condições trágicas do ser humano. Encontrou nos dois deuses gregos da arte, Apolo e Dionísio, a contraposição, quanto a origens e objetivos, natural no homem. Mas por que as duas figuras gregas? No entendimento do filósofo, foram os gregos que “pressentiram e vivenciaram de modo exacerbado as atrocidades da existência e as ‘dores do mundo’, sem subterfúgios moralistas” [2]. Considerava ainda que os gregos haviam conseguido dominar de forma exemplar o caos dos próprios impulsos. E Apolo representaria a forma simétrica, o estímulo para o puro, o ponderado, a ordem, a moral, a nobreza das figuras, enfim, considerado a arte do figurador plástico (bildner), enquanto que Dionísio, como deus da música, simbolizava o fim tenebroso e desmedido, o excesso, o desejo e a orgia, nada menos do que a arte não-figurada (unbildlichen). Estas características (impulsos) às vezes caminham de maneira harmônica, outras vezes seguem fecundando discórdia, o que acabaria por instigar as “produções” a as “lutas” – a arte, por assim dizer –, “através de um miraculoso ato metafísico da ‘vontade’ helênica (...) tanto a obra de arte dionisíaca quanto a apolínea geraram a tragédia ática” [1]. Desta forma, a tragédia seria a composição da alma (Apolo) com o corpo (Dionísio).
Tal idéia fazia parte do pensamento do – à época – jovem Nietzsche, que não acreditava ter o homem uma natureza boa, além do que era cético também em relação à ciência e à racionalidade; para ele, a arte, principalmente representada pela música de Richard Wagner, que mais tarde causaria conflitos, significava a restauração da cultura trágica. A bem da verdade o pensamento filosófico de Nietzsche cria a chamada crise da razão e de valores, ao tentar realizar um diagnóstico fiel da situação do homem moderno, mas não no sentido meramente da negação, mas através da contestação do absoluto. Com isso, Nietzsche buscava o pensamento de novos valores.
[1]. NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia ou Helenismo e Pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000;
[2]. GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche. São Paulo: PubliFolha, 2000.
Mendes Júnior
* Painting by Javier Alonso, "Womem # 09".
13 Maio, 2008
À soleira

13/05/2008.
Colei meu rosto à janela da cozinha, (batia-lhe um vento morno de maio), e lá fora, demonstrando força para mais dois dias de sol, seis homens de preto seguravam um caixão brilhoso pelas alças ardentemente douradas. Comentei com Neuza que era assim que queria os móveis daqui de casa: um brinco de luminoso! “Óleo de Peroba”, foi o que Neuza me advertiu para incluir na lista da próxima feira, “para madeira e ‘Brasso’ para os metais e aderentes”. Descansei o aparelho de barbear na bacia de plástico vermelho com água ensebada, a fim de assistir ao cortejo de forma lisonjeira. De relance, olhei-me no pequeno espelho que Neuza usava para pentear as madeixas castanhas, que estava parcialmente escorado em dois tijolos reutilizados na janela: metade da minha cara era uma bunda de criança, a outra metade uma “mata viçosa”. Percebi que estava muito mais velho do que aparentava “anteontem” e assim sucessivamente. Logo atrás do caixão, junto do padre, vinham a mulher e as duas filhas do morto. Ela ainda formosa (mesmo depois das (pré)ocupações da doença do marido: lepra?), bem aquinhoada pela natureza dos anjos, tinha os traços do corpo delicadamente cuidados, por certo, indiferentes ao desgaste daquele pardieiro de cidade empoeirada e nojenta. Caminhava calmamente dentro de um fino vestido cinza, que descia em rendas de “Lambda” até os joelhos, deixando-lhe as alvas e grossas batatas das pernas expostas a olhares gulosos e inescrupulosos feito o meu. Um laço largo próximo aos seios portentosos tomava o lugar do cinto. O véu, um pequeno mosquiteiro negro, cercava maliciosamente seus olhos, sua boca e seu queixo finos. Pedi a fofoqueira da Neuza que me esclarecesse se havia sido de lepra mesmo ou de tuberculose a causa da partida do doutor Queijada Torres de Azeredo. “Cobreiro!”, disse-me com a boca cheia de galinha desfiada com cebola e pimentão, enquanto se limpava num pano de prato encardido, que trazia junto ao ombro indecente, ou seja, nu! “Um santo homem morrer de cobreiro! Onde já se viu isto? É o fim dos tempos!”, falou Neuza com dó do infeliz e de quem mais morrera de cobreiro. “Pensei que tivesse sido lepra. Falaram até que estava sem as duas mãos. Um pecado!”, falei. Disse a última frase para dentro, apenas para mim, mas Neuza, “A Orelhuda da Mamãe”, escutou: “Por que pecado, por quê?” Optei pelo silêncio, talvez em respeito ao morto, talvez para não discutir uma vez mais com Neuza, talvez por não querer falar nada, mas pensando se seria possível viver ao lado daquela mulher sem a chance de tocá-la, apertá-la, pegá-la de jeito de cabra macho. Seria o pior de todos os castigos, o mais cruel e insano formigamento para a alma, o mais desumanamente torpe entrenó para garganta – à flor da pele, arrepiei o fio do pêlo do dedo do pé quando atinei que agora ela era uma viúva. Fosse eu um sujeito de poesia e de posse, deixaria Neuza na miséria, me achegaria na viúva com galanteios e prendas, e passaria noites e mais noites debruçado no seu cangote, que há de ser o mais cheiroso da paróquia. Até criava as duas meninas como se minhas fossem – ainda assim valeria o esforço. Reparei no olhar arredio do padre, que despejava água-benta em excesso no povo, como se quisesse banhar a cidade inteira de benção. Achei um baita desperdício. Sequer é ele quem paga pelas coisas da igreja. Com o vinho não seria esta bondade toda. Minha testa ardia da claridade. “Isso é lá hora de enterro!”, foi meu gorjeio de clemência. “Neuza, dá cá um pedaço dessa galinha!”, pedi. “Há quanto tempo Rita de Cássia anda com a tabaqueira do papai?”, perguntei, apanhando novamente o aparelho de barbear e sentindo falta lascada do fumo.
Mendes Júnior
* Painting by Natasha Rosenbaum, "Under Construction".
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