13 julho, 2008

Psicologia como ciência – a crise da subjetividade privatizada




Uma questão interessante que, por certo, merece destaque no estudo do surgimento da psicologia como ciência no século XIX, na minha opinião, trata-se da subjetividade privatizada. No excelente trabalho Psicologia – uma (nova) introdução, dos professores Luís Cláudio Mendonça Figueiredo e Pedro Luiz Ribeiro de Santi, deparamo-nos com duas condições (fundamentais) para o conhecimento científico da psicologia: uma experiência clara da subjetividade privatizada e a experiência da crise desta mesma subjetividade. Mas o que vem a ser a subjetividade privatizada? Pelo que percebemos, estamos falando da nossa individualidade, dos nossos desejos, do nosso “eu”, enfim, daquilo que está dentro de nós e que somente nós temos contato. E quanto à crise? Bem, estaríamos diante das transformações culturais ao longo dos anos, tais como religiosidade, arte, valores, costumes etc., determinando, de certa forma, a subjetivação e a individualização. Mas é aqui que o homem percebe que conceitos como liberdade, individualidade e igualdade não passam de meras ilusões. Há uma perplexidade, inclusive quando descobre não existir muita diferença entre os homens.
No entanto, importa ressaltar – e o contrário seria difícil de entender –, que as transformações supracitadas se deram no seio da sociedade, socialmente, politicamente e economicamente, e somente a partir do reconhecimento da instância individual do homem dentro desta mesma sociedade é que a psicologia é aceita como ciência. Mas para isto estamos falando de três séculos: do Renascimento à Idade Moderna, e, durante este longo período, o homem chega a ser valorizado, diante da concepção de que ele seria o centro do mundo e totalmente livre para trilhar seu caminho (e Deus?), até a crise da soberania do “eu”.
Abordando de forma sucinta cada época, podemos afirmar que no Renascimento a figura de Deus parece ter se distanciado e se colocado sobre o mundo, fazendo com que o homem passasse a controlar a natureza. Há, portanto, uma valorização do homem, nascendo, por sua vez, o humanismo moderno. Um assunto, a meu ver, de extrema importância é que aqui surge a filosofia grega do ceticismo, para a qual era impossível ao homem um conhecimento seguro do mundo. Em suma: o homem começa a criticar e duvidar do próprio homem. Além do mais há um nascente individualismo, que acaba produzindo reações: racionalistas e empiristas, que, de acordo com os professores supracitados, tratam de estabelecer bases novas e mais seguras para as crenças e ações humanas.
A partir de então, a figura do homem volta a se sujeitar a uma ordem superior, ocorrendo a desvalorização da própria individualidade e o conflito da liberdade, conforme já anunciamos acima. Esta tal superioridade parte da religião (Reforma e Contra-Reforma), e o indivíduo passa a ser devidamente controlado. Buscamos, com isso, apenas retratar, mesmo que de forma rasteira, as fases pelas quais passaram a subjetividade privatizada.
Dando um salto até a modernidade, não esquecendo, é lógico, da idéia cética, o “eu” deixa de ser soberano. Mas por quê? Surge a problematização da crença em conhecimentos absolutos, e isto perpassa pelo Iluminismo, pelo Romantismo (“é um momento essencial na crise do sujeito moderno pela destituição do ‘eu’ de seu lugar privilegiado de senhor, de soberano”), pela filosofia nietzschiana, para qual as idéias de “eu” ou “sujeito” são interpretadas como ficções, incentivando muitas restrições ao seu ponto de vista, principalmente quando afirma que é ilusório o fazer humano, e pelas condições sócio-econômicas, momento em que os homens são reduzidos à dependência dos proprietários dos meios de produção, são explorados e violentados – não há liberdade, não há igualdade.
Com isso, claramente percebe-se a necessidade das crises da subjetividade privatizada, a fim de que a psicologia seja científica. Significa dizer que tais experiências induzem os homens a pensarem acerca das causas e do significado de tudo aquilo que fazem, causam uma reflexão do que somos, quem somos, como somos e por que tomamos determinadas ações. E, para tanto, a ilusão da liberdade e da igualdade são pedras fundamentais na construção dos questionamos humanos e, obviamente, na condução de projetos da psicologia como uma ciência independente, pois a crise da subjetividade requer uma solução, e é na psicologia o caminho a se percorrer.


________________________
FIGUEIREDO, Luís; SANTI, Pedro. Psicologia: uma (nova) introdução. 2. ed. São Paulo: PUCSP, 2007.
Mendes Júnior
* Publicado em Cronópios, em 07/07/2008;
** Painting by Romero Carrasco, "Untitled 16".

14 comentários:

Anônimo disse...

Bom Dia querido! vc nem imagina o quanto seu artigo me ajudou!
beijos e um ótimo fim de semana!
Jacqueline C.R.
jacque_line_rojas@hotmail.com

Mendes Júnior disse...

Obrigado pela leitura, Jacqueline! Fico muito feliz!

Elisabeth disse...

Bom dia, este texto está me enlouquecendo, porque pelo que eu entendo a psicologia foi forjada como ferramenta de controle social, nos somos desde a pré-escola, direcionados para algo que acreditamos que seja bom, mas muitas vezes não é o que queremos; ou então queremos tanto alguma coisa e quando conseguimos algo aconte e a contradição se instala,não queremos mais porque vemos que não era assim. Daí a crise. E o texto fala da segunda crise. Então entendi que a primeira crise é pelo que quero e a 2ª quando vejo que não era aquilo que eu queria. Comparamos com a Revolução Francesa quando lutou-se por um ideal e depois não era nada daquilo. Gostaria da sua opinião

Anônimo disse...

oi..estou estudando serviço social e uma das matérias é psicologia...ficou muito claro pra mim...abrigada..estava ficando louca já...bjs

Mariana Sanford disse...

Olá querido, como vai?!
Gostei da maneira como tudo foi colocado!
Parabéns!
beijos

Carol - Aju disse...

Nossa, uma luz na escuridão!

muito obrigada!

;)

danieli disse...

otimo seu texto, me ajudou muito

grata.

Ligia andrade' disse...

Mendes Júnior,
Gostaria de saber em que e subjetividade privatizada influenciou para o surgimento da psicologia "?
é um trabalho que tenho pra entregar e ainda nao fiz quase andaa , horrores "
Obrigada desde Já "
me manda a resposta por email
galeguinhaandrade@hotmail.com

JAEYDE disse...

OI.
PRECISO ENCARECIDAMENTE DE SUA AJUDA, SERÁ QUE PODERIA ME RESPONDER A ESSAS PERGUNTAS? POIS JÁ LI O LIVRO DELES DUAS VEZES E NÃO CONSEGUI RESPONDÊ-LAS
1- QUAIS FATORES FORAM FUNDAMENTAIS NA HISTÓRIA DO OCIDENTE PARA A CONSTRUÇÃO DO QUE SANTI E FIGUIREDO DENOMINAM SUBJETIVIDADE?
2- COMO A PSICANÁLISE CLABOROU PARA A CONSTRUÇÃO DA IDEIA DE SUBJETIVIDADE PRIVATIZADA?
3-DE QUE FORMA A BUSCA DA OBJETIVIDADE CIENTIFICA COLABOROU PARA A SEDIMENTAÇÃO DE UMA IDEIA DE SUBJETIVIDADE?
4- COMO O BEHAVORISMO VE A QUESTÃO DA VIDA INTERIOR, DE ACORDO COM O LIVRO?

Mellina Capricci disse...

O resumo da minha aula! Agradecida!

Lucas Sousa disse...

isso me ajudou bastante

Rafael Tuzze disse...

Boa Tarde! Eu estou tentando entender o assunto para responder uma pergunta como a religiosidade determinou a nossa subjetividade e individualização.

Helen Daniela disse...

Não sei bem o que comentar, só sei que tu explica perfeitamente. Valeu!


Foi de grande ajuda!
Obs.: Pareceu meu professor de História do Pensamento Psicológico falando! hahaha

Helen Daniela disse...

Não sei bem o que comentar, só sei que tu explica perfeitamente. Valeu!


Foi de grande ajuda!
Obs.: Pareceu meu professor de História do Pensamento Psicológico falando! hahaha