15 março, 2011

Esperando os soldados


Quando percebi o silêncio e observei através da abertura na parede, um buraco penoso que sequer era grande, pois produzida por tiro de revólver, pressenti Idália morta (de verdade). Óbvio que fiquei assaltado. Já ouviram falar dos soldados? Não culpo meus nervos por estarem tão atentos aos acontecimentos de agora – nerfs à fleur de peau. Aos seus braços, na altura do colo, como uma criança nascida faz pouco, um livro aberto com as folhas balançando por força da janela arreganhada. Sua cabeça descansava nas laterais da surrada poltrona de couro cru ou Moscóvia, nunca soube, enquanto o gato curtia uma preguiça no assoalho mascado aos seus pés. Certo mesmo de que era uma poltrona imponentemente capaz de abrigar os anseios de uma rainha que parecia saber dominar o tempo, mas o gato é e sempre será repulsivo!

Mas pouco se habituou minha respiração em suspenso até perceber um leve deslocamento da mão de Idália. Não sei por que me exaltava, Idália tinha o costume de ficar trancafiada no quarto se escondendo, sem querer ser interrompida, com livros difíceis e gigantes para meu julgamento. Por assim dizer, enquanto Idália se achava ocupada, entre aspas, era eu quem perseverava postado esperando os soldados, aflito, com carne assada e cachaça para lhes oferecer. Punha-me em dificuldades, é bem verdade, driblando a vertigem, terra solta para tudo quanto era lugar, sem descanso, mas pronto e com o rosto reto. Meu papel era o de proteger o pouco que restava da casa deixada por nossos pais mortos em outra guerra; sim, e ainda tinha que apurar os olhos no gato, quando escapulia do quarto de Idália, a fim de proteger a comida. Este era o meu abrigo, a guerra.

– Os soldados? Não, não são eles!

Não suporto imaginar o banho de sangue caso os soldados não fossem bem recebidos. Escutei que fazem um escarcéu dos diabos. Não comeremos daquilo destinado aos soldados, disse-me Idália com autoridade na voz. Os tempos não eram para principiantes. Há dois dias ninguém punha nada na boca além de água. Na guerra não há fartura mas sacrifício. Idália me consolou com uma explicação estranha de como driblar a fome, e me espantou descobrir que não era se empanturrando de líquido mas policiando o pensamento por meio da concentração da mente, com auxílio dos signos, astros e outras baboseiras. Foi assim mesmo que ela falou: policiando. Idália é mais inteligente do que eu, talvez os livros ensinem como usar a cabeça. Mas não fiquei conformado, já que mal conseguia me deter de pé, o que dirá dominar os pensamentos! Tanto assim que dois pesadelos me abafaram o sono roubado da vigília anterior, fazendo-me sentir como o pior dos mortais. Em um deles lutava com um soldado, cara de fuinha, (lembro da farda rasgada justamente no local que indicava seu pelotão), pela carne assada, e no outro matei a pauladas e assei o gato repulsivo. Tive receio de que o próximo pesadelo fosse com Idália. Maldito seja! Pedi clemência por desejar a carne dos soldados.

Idália gritou para que eu fosse ler a Bíblia, que fosse rezar, rezar, rezar... Argumentei que na guerra não se deve questionar coisa alguma para não aumentar ainda mais o sofrimento da alma, mesmo sem entender direito o que eu dizia. Ela ficou furiosa, fez um discurso em prol dos livros, que extrapolavam a própria vida, e me mandou à merda. Quis replicar, mas não o fiz.

Confesso-me ansioso pelo final destes dias, para que apareça logo a droga desses soldados e possamos comer suas sobras, mas não estou certo de que aconteça. Talvez demore. O fato é que Idália tinha tudo de que precisava até o derradeiro piscar da vida: os livros. Mas me causa apreensão saber que ela não está preparada para o término da guerra. Da forma como vejo Idália pelo orifício, embalando o livro, podia cair uma bomba de graves proporções no nosso telhado que não despertaria daquele momento no seu valhacouto.


*Escrito em 2010;

** Ashes, by Munch.

O cio III - Finalmente, quando tudo é estranho


Se meu susto foi menor do que o dele? Não! Meu susto não foi menor do que o dele! Pior: toda aquela liberdade, que me fazia esbaldar amiúde, de certa forma atirada, incomum aos padrões, pervertida, e, até para quem não conhece muito da vida, uma fatia azeda, passou a ser vista como excesso por mim. Entender ou não é um mero detalhe quando se sente, quando se torna inconsciente, quando não depende mais de nós. Claro que havia uma mistura de satisfação e de atropelo por parte da criança, haja vista sua incapacidade de se voltar e correr, estava estampada, ao tempo que não arredava o rosto, petrificada, como se quisesse dizer algo, pedir absolvição pelo incômodo, clamar para que a perdoasse por ter me visto nua, em atividade sexual solitária, que lhe faltara educação...

Mesmo sabendo que o menino nada esboçaria, queria-o tranquilo, menos culpado. “Não há problemas, sou eu quem lhe devo desculpas” – murmurei, e minhas palavras foram ditas com tanta sinceridade que, subitamente, duvidei de que a voz seria um dia de Ritelma de Laguna, da guerreira incandescente Ritelma de Laguna, da escritora menor Ritelma de Laguna.

Na lembrança havia ainda afeição, qualquer farelo de sentimento bom, mas estranho ao meu cio ordenado, que, aliás, era a razão de todo desconforto. Depositei a taça vazia na mesinha ao lado e quase derrubo o jarro com cravos amarelos (o amarelo me coloca em estado positivo, junto com o lítio), que, tal qual Mrs. Dalloway, na Londres da década de 20, sou eu (a própria) quem compra, contudo na Paris desfocada do século XXI, até por não ter quem o faça no meu lugar.

Lentamente, com as mãos relativamente trêmulas, tentei devolver ao corpo o roupão, embora não estivesse em condições para me levantar e amarrá-lo devidamente; tateando na caça do cinto jogado ao soalho, não desviei o olhar; vesti o bastante para cobrir minha intimidade. Notei que o menino se sentiu infinitamente mais confortável, tanto que deixou o letargo, se virou e fez menção de escalar o muro pelo qual tinha pulado para a varanda, mas, como diz a velha máxima, descendo todo santo ajuda, e se quedou desproporcional o seu tamanho, sua força e a altura da parede. Repetiu os movimentos três vezes até notar que era uma façanha impossível; então, estacionou, restou imóvel como outrora, mas desta vez virado de costas para mim, por certo, esperando que o ajudasse. Uma desgraça!, deve ter atinado. A bola de futebol em seu braço me deu a certeza de que ele queria apenas o objeto de sua brincadeira. Eu, curtir meu cio. Estávamos os dois interrompidos pela eventualidade de um encontro inimaginável, principalmente pelo caráter imposto a partir de quando sentei para escrever as primeiras linhas desta história. “Não há problemas”, disse uma vez mais, embora em outro tom: mais segura. Enfim, levantei-me; apanhei o cinto do roupão e caprichei no laço; fui à porta da sala e refiz as duas voltas da chave; escancarei-a; um vento fresco entrou antes que o menino saísse desembalado sem mais me fitar. Ocorreu-me uma vontade de tocar seus cabelos, como faria uma mãe oferecendo conforto. Evitei o contato de modo a preservá-lo.

Corri até a varanda, queria vê-lo novamente, mas muitos anos se passaram. Em meio a quimeras, Paris fazia um céu denso de raras estrelas.
* Escrito em fevereiro de 2011;
** Red Continuum OF-A138, by Oleg Frolov.