01 outubro, 2007

A síndrome de Ulisses: a decomposição de um sonho


CRÍTICA, sem data.


Com pouco incômodo – sendo necessário um passeio rápido pela internet nas páginas eletrônicas de psiquiatria – pode-se descobrir o significado da Síndrome de Ulisses. De acordo com o psiquiatra Joseba Achotegui, Professor Titular da Universidade de Barcelona e Diretor do SAPPIR (Servicio de Atención Psicopatológica y Psicosocial a Inmigrantes y Refugiados), o termo é uma analogia ao herói grego, personagem central da obra de Homero, Odisséia, em razão das dificuldades vividas por Ulisses em território além, sendo, no caso, diagnosticada ao imigrante, legal ou ilegal, que tenta a sorte, o sucesso e/ou a felicidade em outros países, mas que, infelizmente, lhe é dado como “alimento” unicamente uma realidade que em nada se parece com a fantasia que criou na cabeça antes de sair de sua terra natal, e “se caracteriza, por un lado, porque la persona padece unos determinados estresores o duelos y, por otro lado, porque aparecen un amplio conjunto de síntomas psíquicos y somáticos que se enmarcan en el área de la salud mental”¹ Na exata concepção do vocábulo, é a Síndrome del Inmigrante con Estrés Crónico y Múltiple.

Esticando um pouco mais a pesquisa, podemos nos deparar com a informação de que o imigrante sofre com outros problemas sérios: o alcoolismo, uso de drogas pesadas, o acometimento de doenças sexualmente transmissíveis e problemas dermatológicos, por exemplo, em função da situação degradante e desumana em que vive, mal tendo dinheiro para pagar dívidas contraídas pela subsistência (sobrevivência) e para o sustento do vício. Sem falar que muitos amanhecem e anoitecem sozinhos na ilegalidade e, portanto, sequer vão ao hospital ou ao posto de saúde quando sofrem de uma patologia qualquer, por medo de serem apanhados na clandestinidade. Esse imigrante acaba por se desfazer cedo do sonho de prosperar em terra alheia e não lhe resta outra alternativa senão aceitar a alcunha de escória.

Questões relevantes, como as supracitadas, são tratadas com muito sabor no romance do colombiano Santiago Gamboa, A síndrome de Ulisses, cujo título não poderia ser mais apropriado. O livro conta a “saga” de um jovem que abandona Bogotá, chamado Esteban, para estudar e se tornar escritor numa Paris até então desconhecida. Aquela cidade bela, romântica, cheia de luz e democrática – por que não multicultural – se transforma num lugar frio, escuro, de exclusão absoluta e de rara possibilidade – deixa de ser a Paris em festa de Hemingway ou mesmo de Fitzgerald. O jovem aspirante a escritor, que à noite lava pratos num restaurante oriental mas que também estuda na Universidade de Sorbonne, e que mora numa chambrita, um pequeno quarto, como se o destino de cada um fosse exatamente cair no mesmo fosso, se envolve com outros imigrantes de diferentes nacionalidades: Romênia, Líbano, Polônia, América Latina, Iraque, Córeia, Turquia, enfim, mas não por isto se vê em segurança:

“Então, no meio daquele grupo, fui acometido por uma intensa e opressiva sensação de orfandade, como se em algum ponto tivesse me extraviado do caminho e agora me encontrasse numa órbita distante, algo como o Planeta dos Macacos, só que com poloneses e romenos (...)”²

No entanto, não deixa de reconhecer a função maior dessa realidade:

“(...) mas enfim, disse a mim mesmo, minha vida, por escolha própria, tinha agora mais a ver com todos eles do que com minhas lembranças de Bogotá, e era justamente isso o que tinha diante de mim, nem mais nem menos (...)”

Nessa Paris desfocada, “numa cidade cheia de hostilidade e frio”, os imigrantes acabam se isolando em grupos multilíngües e somente em esporádicas ocasiões se relacionam com os nativos. Geralmente, estes acontecimentos estão permeados por uma ilusão causada numa esteira de festas regadas a drogas, sexo e bebidas, sendo este um desvio crucial: o imigrante, numa tentativa de fugir de toda ordem de problemas causados pelo meio, principalmente no âmbito psicológico, facilmente encontra alento no vício. No livro insere-se desde o consumo excessivo de drogas até o vício produzido pelo sexo sem medida, tema este que é tratado em diversas vertentes e, de certa forma, abertamente, indo da relação homoafetiva até a posição-inaugural par detruá. As pessoas que transitam pela história parecem usufruir muito bem desses “entretenimentos” a despeito da perda de “uma esperança de tudo se ajeitar”, como diria Chico Buarque, e, com isso, passam a creditar os destemperos e agruras à própria cidade e acabam se deixando cair por terra:

“(...) Para mim também esta cidade implicou uma apredizagem difícil, uma sangrenta lição daquilo que eu era e, principalmente, daquilo que queria ser (...)”

O jovem Esteban abandona sua Colômbia na afetuosa idéia de que irá se transformar em um escritor, muito embora saiba que a novela que produzira não era tão boa assim, no entanto, Paris, como um histórico centro cultural, poderia abrigar e enaltecer sua literatura – pensava ele –, mas o que não sabia era que uma teoria dessa não valia para um marginalizado feito ele, ou quem sabe o sucesso estivesse relacionado tão-somente com a competência no trabalho. Interessante observar que, no decorrer da narrativa, há dezenas de citações a autores e a títulos literários, em sua maioria estrangeiros, porém consagrados – gente que há muito deixou seu território para viver em cidades como Paris, contudo autores que conseguiram um confortável reconhecimento. Para servir de exemplo, Gabriel García Márquez escreveu sua segunda obra, Ninguém escreve ao Coronel, em janeiro de 1957, na capital francesa, romance este que já foi inclusive às telas da sétima arte. No entanto, não esqueçamos que as frustrações e as dificuldades no “exílio” são a tinta maior da escrita de muitos “Ulisses”:

“(...) a poesia e o exílio são velhos companheiros; o exílio traz com ele a tristeza do que se perdeu, o que já é em si um sentimento lírico (...)”

Nesse ponto, não se trata daquilo que o imigrante é ou faz, mas daquilo que ele queria ter sido – o sonho se perde, e isto parece inevitável. Não resta mais nada senão se subjulgar e tentar, quando muito, sobreviver. E há aqui uma bonita história. Deve-se levar em conta que o escritor Santiago Gamboa é licenciado em filologia hispância pela Universidade Complutense de Madri, estudou literatura cubana na Universidade de Sorbonne e atualmente vive em Roma, como correspondente da France Press, ou seja, qualquer semelhança com a personagem central do próprio romance não pode ser considerada apenas uma mera coincidência, obviamente com algumas diferenças.

O pano de fundo de A síndrome de Ulisses é a situação em que vivem os imigrantes, entretanto, a frustração de não conseguir alcançar uma posição digna, mais precisamente fazendo referência ao jovem escritor colombiano, já foi abordada em outro romance de Santiago Gamboa: Los impostores (2002), ainda sem tradução no Brasil, senão vejamos o que diz o próprio autor, em uma entrevista, a respeito deste livro: “Por un lado son todos escritores no triunfadores, frustrados en el caso del colombiano. Hay un escritor intrigante que quiere ser escritor y no escribir, que es el peruano, está enamorado de lo que significa ser escritor, sólo quiere firmar libros. Y el otro quiere la vanidad literaria a través de la filología. Todos son impostores, están queriendo ser algo que no son”³.

Os imigrantes com suas vidas miseráveis e já sem sonhos, contudo, conseguem extrair da rua resvaladiça uma certa dose de fortaleza:

“Ao dizer isto me deu um beijo e me bateu com o travesseiro: sinto muito que as coisas não tenham ido bem para você, disse, deve ser difícil viver assim nesta cidade, que oferece tanto a quem tem, você não pensou em voltar para Colômbia? Não, disse eu (…)”

É isso que Santiago Gamboa, por alguns críticos literários considerado sucessor de García Marquéz e Vargas Llosa, quer nos mostrar nesse belo romance.


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[1]. Extraído: http://www.pensamientocritico.org/josach0407.html
[2]. GAMBOA, Santiago. A síndrome de Ulisses. São Paulo: Planeta, 2006.
[3]. Extraído: http://www.literaturas.com/gamboa.htm


Mendes Júnior.
* Publicado no Cronópios, em 26/09/2007;
* Photo by Pablo Herrerías, "Nude".

Um comentário:

Isabela disse...

Muito bom! Adorei conhecer sobre a Sindrome de Ulisses... sera que passo ou passei por momentos assim? Temos muito o q conversar. Arranje um tempo pra mim na sua agenda, é a décima vez q te peço isso. E nao esqueça da crônica do cotidiano brasileiro, ou cearense...

beijos