25 outubro, 2007

Sodomītae-ārum



20/10/2007.




Sou um sodomita e cheiro à mortadela. Engraçado, estou sempre carregado de sensações que me diminuem como ser humano, pelo menos, assim me concebem todos: homem rabisseco, criatura menor. Hoje, depois de enfrentar correntezas e correntezas ao inverso do mar revolto, chego aos quarenta anos ainda capaz de expressar surpresa com a festa de aniversário organizada pela mamãe. Esse meu soluço é de uma emoção esporádica, assim como o é minha felicidade por morar às asas da mãe. Fico ali, no cubículo instalado debaixo dos primeiros degraus, que inclusive está podre há tempos, mas durmo bem, não tão confortável quanto gostaria. Noutra semana descobri um tumor à altura dos genitais, quando cortava pêlos na região, mas o doutor Epaminondas não se achou hábil em garantir se havia gravidade neste incômodo de saúde, ficando para determinar em atendimento à sobriedade de exames feitos com o auxílio da tecnologia avançada da medicina, mas para quando?, perguntou minha mãe, no que respondi: no momento em que decidir e quiser a tecnologia avançada da medicina, ora, mas para quando é isso?, novamente minha mãe – não lhe dei ouvidos e fui comer meu panachê. Apaguei o fogo de quarenta palitos azuis que estavam enfileirados no bolo de chocolate. Minha avó materna adorava bolo com café forte e manteiga-da-terra, entretanto, mesmo depois de anos, me trazia péssimas lembranças, pois foi sua última refeição antes de escorregar no banheiro. Fiz um pedido que levantou vôo com a fumaça: um segredo até certo ponto bem guardado, mas mamãe insistiu sobremaneira a fim de que eu o revelasse. A princípio, recusei-me a ceder aos seus apelos, contudo achei por bem compartilhar intimidade com a única pessoa que fazia parte da vidinha nossa: sou sodomita, disse-lhe brandiloqüentíssimo. Ela bateu palmas: Que maravilha, meu filho! Éramos ela e eu – tão-somente os dois, ainda cedo, pois eu contemplava quarenta anos e cheirava à mortadela. Que maravilha, meu filho!, repetia minha mãe de punho em riste, diante de minha livor mortis. Não há de ser nada a história de tumor, mamãe, fique despreocupada. E que maravilha, mamãe! Estamos salvos! E eu sentado à beira da calçada da casa de brilhante com dez anos ao lado do seu afável marido, lembra? Ela não recordava. Mas como não, mamãe, se era você quem de lá dentro emitia um bonito som para invadir a dor que sentíamos. Ah, que maravilha!, ressaltou. Os arpejos da mamãe me levaram ao suicídio. Era naquele local que eu ficava... apenas bem.
Mendes Júnior

* Publicado no site da Revista Piauí;

** Publicado na Revista Cronópios, em 26/08/2008;

*** Photo by Ralph Gibson, "Leda".

24 outubro, 2007

Indicações Musicoliterárias

Herbie Hancock
Uma confissão: sou fã do Herbie Hancock! Mas quem é Herbie Hancock? - perguntar-me-ia um frentista amigo. Bem, Herbert Jeffrey Hancock, nascido em Chicago - por assim dizer - foi popular a partir da segunda metade do século passado por suas façanhas no piano e, obviamente, por ter lugar como compositor no quinteto do grandioso Miles Davis. Passeou pelo hard bop, modal, free, jazz-rock, jazz-funk, fusion a até pela música brasileira. No entanto começou a tocar piano baseando-se nos repertórios de Chopin e Mendelssohn, mas isto quando jovem ainda; depois despertou sua atenção para o jazz e, portanto, acabou sendo bastante influenciado por outro pianista: Bill Evans. Até então, Hancock não se interessava por improvisos, mas tal situação foi se modificando e ele começou a exibir uma personalidade própria, cheia de nuanças.

É interessante observar que, mesmo com um talento indiscutível, faz-se necessário estar na hora certa e no local adequado, e foi justo o que aconteceu a Hancock no final de 1960, quando foi convocado às pressas para substituir Duke Pearson (autor de Prairie Dog) no quinteto do trompetista Donald Byrd durante uma turnê. Pronto, as portas estavam abertas, e Hancock acabou gravando seu álbum de estréia: Takin' Off, pelo selo Blue Note, em 1962, com apenas 22 anos de idade. Quem fez parte deste disco? O saxofonista Dexter Gordon, o trompetista Freddie Hubbard, além de Billy Higgins e Butch Warren. A partir do segundo álbum, My Point of View, foi parar no Miles Davis Quintet (Seven Steps to Heaven, Nefertiti, In a Silent Way, A Tribute to Jack Johnson etc). Hancock ainda provou da sétima arte: Round Midnight (1986).

Mas aquilo que realmente gostaria de dizer neste curto texto é que Herbie Hancock, para a felicidade dos amantes do jazz, acaba de lançar pela Verve um novo álbum, chamado River: The Joni Letters, e o disco é muito bom! É natural o receio quando se depara com as participações desta homenagem à antiga parceira de Hancock, tais como Norah Jones, Tina Tuner, Corinne Bailey e Luciana Souza, mas o preconceito logo se vai com as faixas Court and Spark, Edith and the Kingpin, River e Tea Leaf Prophecy, esta com a encantadora Joni Mitchell. Os músicos que completam a obra são Dave Holland (bass), Wayne Shorter (soprano e tenor saxophone), Vinnie Colaiuta (drums) e Lionel Loueke (guitar).

Por fim, revelo que gosto muito do álbum The New Standard, também gravado pelo selo Verve, em 1995, mas ficará para uma próxima conversa.

Esteja dito.

Mendes Júnior.

14 outubro, 2007

Minha casa sou eu


14/10/2007.


Caminhava a passos largos, era hora de recitar um poeminha bobo que escrevi no alpendre da fazenda. Não era sítio, mas fazenda, pois, como disse certa vez o poeta maldito José Alcides Pinto, fazenda seca enquanto no sítio tudo é meio verde ainda. Para escrever o poema... Com sua licença: se eu digo que o poeminha é bobo, será que a norma culta considerará redundância a junção do diminutivo com o adjetivo de baixa índole? Antes contava (ou queria contar) que para escrever o tal poema fiz uso de uma plaina imaginária para alisar os versos deveras rústicos e das pedras das lavadeiras do Rio Acaraú para bater bem as palavras e retirar toda a sujeira ou, como queria Graciliano Ramos, os excessos do texto. Foi por volta da hora do almoço, chovia e, finalmente, meu pai estava em casa, fato este que diminuía minha aflição e mascarava a saudade que eu sentia de quando criança, os potes de doce de leite, as grossas fatias de queijo coalho e as viagens de carro (sempre) às sete da noite. A vida pode de nada valer, desde que se tenha na lembrança uma infância tenra e prazenteira, e era justamente isto que havia acontecido a mim, dentro e fora do sonho. E, para tanto, tenho que discordar da delicada medicina quando me diz que aquele era um outro eu e que, de agora em diante, devo focalizar apenas este eu, como se não houvesse qualquer semelhança entre os dois ou como se um não fosse reflexo condicionado do outro. Ora, vejam só, sempre me pareceu um absurdo idealizar o presente sob tal ótica, além de um esforço desnecessário e, aproveitando o prefixo, totalmente desgastante. Minha casa são todas em que já pisei um dia – como diferenciá-las? E era sobre isto que se atinha meu poeminha bobo: influenciado por Manuel Bandeira, era um soneto que leria nas comemorações da padroeira e que falava da meninice, da vontade de nunca crescer, mas que também enaltecia as boas e péssimas experiências vividas nas mãos alheias e nos sorrisos falsos e a permanente covardia diante da nossa morte. Sim, nossa, pois ela, múltipla e pública, é inevitável, como agora interrompendo a leitura do meu poeminha sem graça. Qual a graça, então? Engraçada é sem dúvida a morte, pois quem senão ela teria a capacidade de irromper de entre nuvens cinzentas, em meio aos meus passos abundantes, transformando-lhes em miúdos contornos alijados às águas do pobre rio de minha casa? Minha casa! Está escutando, doutor? Minha casa! Tudo é minha casa! A vida é minha casa! Eu sou minha casa! E como o piso da casa está marcado!, há uma sombra no tapete que teima em não sair. Passa sabão, passa sabão, passa sabão, passa sabão... Lembra daquele esforço desnecessário e desgastante? Pois bem, ei-lo à nossa frente: nunca conseguiremos apagar a sombra desenhada no triste chão da casa. Agora, já não subia no tablado para recitar coisa alguma, mas para representar um novo eu – uma ilusão tão-somente da figura que passeia os olhos pela platéia dispersa, fazendo piruetas, cambalhotas e várias outras firulas não tão divertidas quanto às piadas da morte. Enquanto isto, o palhaço se desata em choro, tropeçando nos próprios passos.


Mendes Júnior
* Photo by Franco Donaggio, "Metaportraits. Madness".

08 outubro, 2007

Bachelard (1884 – 1962) – Ruptura epistemológica para explicar o novo espírito científico – II

Gaston Bachelard
ARTIGO, sem data.


Dando continuidade à análise que ora fizemos do pensamento do francês Gaston Bachelard, tomando por base sua obra “O Novo Espírito Científico”, e abordando preferencialmente àquilo que ele chamava de “negação”, que, a bem da verdade, seriam os cortes epistemológicos e as rupturas, reforçamos sua importância no momento em que a história passava a encarar a verdade como algo circunstancial e intersubjetivo e que a consensualidade não assegurava mais a certeza, alterando de vez o discurso do real e alimentando um questionamento pertinente: a universalidade do conhecimento vigente até o século XIX. Com essa obra, Bachelard mostra haver uma profunda ruptura entre a ciência contemporânea do novo espírito científico e a ciência clássica newtoniana e euclidiana. A categoria dessas rupturas vai estar presente como uma constante e como um fundamento primordial ao longo do desenvolvimento do seu pensamento, levando sua reflexão para novos caminhos, contestando pressupostos da tradição científico-filosófica. É esta a intenção de Bachelard com sua proposição: retificar princípios e categorias que norteavam as filosofias das ciências de sua época, as quais considerava inadequadas.

Bachelard foi decisivo para o desenvolvimento da epistemologia como saber autônomo, cujas idéias passaram a orientar as diretrizes teóricas do pensamento epistemológico e a propor uma certa autonomia e uma linha alternativa ao neopositivismo lógico em virtude da insistência sobre a consideração “histórica” dos processos científicos. A saber: Bachelard concebia a existência da imaginação criadora de cada um na ciência e, por esta razão, não mais era possível uma contraposição entre a razão e a imaginação. Por sua vez, desenvolve seu pensamento através de duas vertentes (aparentemente) antagônicas: ciência e poética, e isto permitia a Bachelard ser um racionalista rigoroso e ao mesmo acorde passear na esfera dos sonhos e devaneios, aprendendo o verdadeiro sentido da imagem e da imaginação. Eis uma considerável ruptura, na qual faz surgir uma grande polêmica, pois se trata da epistemologia e da poética caminhando juntas de encontro aos conhecimentos arraigados pela tradição. Bachelard entendia que era possível, sim, a complementação da ciência com a poética, permitindo ao homem um mundo novo e surreal.

De acordo com o pensamento de Bachelard, a razão não deixa de ter uma história, mas uma história com trajetória descontínua e com muitos obstáculos, portanto somente a epistemologia que partisse da reflexão da própria ciência poderia se tornar adequada para expressá-la. Para Bachelard, a filosofia positivista era considerada ultrapassada na medida em que não conseguia “dar conta das transformações que o saber científico sofreu”. Aqui, abrimos um parêntese para ressaltar o pensamento de Bachelard no que diz respeito aos períodos que considerava ter passado a história das ciências: o estado concreto, o estado concreto-abstrato e o estado abstrato. No princípio exaltava-se a experiência, mas é no estado abstrato que há a discussão da experiência, ou seja, menos empírico e mais abstrato. A ciência deixaria tão-somente de descrever dados e passaria à epistemologia discursiva e, por intermédio da descontinuidade e da ruptura, haveria o progresso e o desenvolvimento do pensamento e da razão. Bachelard combaterá a noção de razão absoluta e contínua, as “filosofias do imobilismo”.

Bachelard defende uma polaridade epistemológica, entendendo que a filosofia das ciências deve conter dois pólos: realista e idealista, empirista e racionalista, ao mesmo tempo. Seria, portanto, o reconhecimento do a priori e do a posteriori representando a dinâmica do conhecimento; há um complemento e o fim é o dinamismo da própria ciência – há um desenvolvimento dialético. Propõe Bachelard uma espécie de pedagogia da ambiguidade para dar ao espírito científico a flexibilidade necessária à compreensão das novas doutrinas.
Mendes Júnior.

05 outubro, 2007

Caderno de Viagem – Mito e história e estória


05/10/2007.


Amanheci com saudades de Buenos Aires e do seu ar europeu. Aliás, é até difícil não se imaginar caminhando pelas ruas parisienses, quando em Buenos Aires, com seus charmosos cafés e sua gente bem vestida e bonita, de qualquer sexo – também se respira moda alta por lá. Mas é interessante observar o comportamento nativo e dele tirar algumas conclusões adocicadas. Por exemplo, vive-se de mitos, e eles são muitos.

Maradona é um mito. E não importa nada se o craque do esporte bretão tenha se envolvido com drogas pesadíssimas, visitas várias a clínicas de recuperação, grossas confusões, Cuba, gol com a mão e outras lendas, (que nem tanto), ninguém, até hoje, jogou tão maravilhosamente, magnificamente, espetacularmente bem quanto ele, nem mesmo Pelé ou Garrincha, e seu retrato está em todos os lugares: camisetas, muros, propagandas, guias, calçadas, enfim... É item inclusive de casa noturna, onde, depois das três da madrugada, Maradona e seus amigos certamente serão encontrados.

Carlos Gardel é outro mito: mesmo depois de falecido se considera que esteja cantando tango melhor do que antes. A música Por una cabeza está cada dia mais rica. E não importa nada se Carlos Gardel tenha chegado para viver na Argentina a partir dos dois anos de idade, vindo de Tacuarembó (Uruguai) ou Toulouse (França), ele é nascido argentino e ponto final. Mi Buenos Aires Querido é o segundo hino oficial do país, merecidamente melódico e cheio de suavidade. Escutando-o é provável que se pense num blank verse ou numa canção emergida na soledade de Cabo Verde, ou, quem sabe ache, um exagero de minha parte, mas veja: “El farolito de la calle en que nací / fue el centinela de mis promesas de amor, / bajo su quieta lucecita yo la vi / a mi pebeta, luminosa como un sol (...) Mi Buenos Aires / tierra florida / donde mi vida / terminaré”.

A história de que em uma única rua de Buenos Aires há mais livrarias do que no Brasil inteiro é um mito para estufar o peito portenho. Mesmo que fosse possível tal comparação, não significaria dizer que se tenha mais leitores por ter maior número de livrarias, que, aliás, se consegue encontrar nas suas estantes algumas pérolas de Borges, Cortázar, Sábato e Soriano. E não importa nada se, de acordo com o mais recente censo divulgado pela Associação Nacional de Livrarias (ANL), temos 2.680 livrarias de Norte a Sul – o dobro, portanto, da Argentina –, o que vale é a idéia de que eles são culturalmente superiores, inclusive na adversidade, já que, na América Latina, dizem não haver outro lugar que tenha tanto psicólogo per capita quanto na Argentina.

Existem outras questões pontuais, como a Avenida 9 de Julho, dita a mais larga do mundo, e a Avenida Rivadavia, a mais longa (também) do mundo; o Teatro Colón, que, assim como o Metropolitan House, em New York, e o Scala, em Milano, está entre as melhores casas de ópera (também) do mundo; o Rio da Prata, que banha Buenos Aires, é o mais largo (também) do mundo, chegando a medir 90 km entre as margens. E curiosidades não faltam: por exemplo, o ônibus, a caneta esferográfica, o sistema de impressão digital e o doce de leite são inventos argentinos; ou o fato de Buenos Aires ter sido fundada duas vezes, e seu primeiro nome ser Ciudad de la Santísima Trinidad y Puerto de Nuestra Señora la Virgen María de los Buenos Aires.

Buenos Aires é uma cidade mitológica, imponente e curiosa, e não importa nada, nada, nada se você não a enxergar assim.
Mendes Júnior
*Photo by Ernesto Rolandelli, " Puerto Madero II".

03 outubro, 2007

Assalto à moda moderna (ou Assalto à moda impressa no jornal)


03/10/2007.


Tiago Pantera faleceu de morte matada. Com apenas vinte anos (ainda incompletos), a prematura tragédia foi motivo de muita dor para a família, principalmente para a mãe, assim como seria para todas as mães. Pois bem, Pantera até os dezessete anos era um bom garoto, nada com estudos, é bem verdade, mas não fugia ao trabalho: fazia bicos numa oficina mecânica e ajudava em casa com a venda de picolé caseiro preparado pela irmã mais nova. A partir daí, a vida desandou e Pantera se enlaçou com uma mulher pública, chamada Rosete Fofolete, ficando, por esta razão, enquadrado num artigo de lei cuja pior pena era a cegueira vacilante de homem apaixonado. Não foi por falta de aviso, mas por excesso de recomendação – o proibido tem mais tempero para o homem – que Pantera, contra tudo e todos, resolveu lutar a favor do seu sentimento por Fofolete, que fazia ponto num posto de combustível, na estrada que levava a Manuaba do Norte. Certo dia, achando-se dono de alguma situação, Pantera exigiu de Fofolete que desse um basta na vida mundana, pois começava a ficar enciumado e não mais gostaria de vê-la fornecendo para outros machos, sentia-se deveras constrangido. Ainda não havia reparado na exata quantidade de dentes que faltava na boca de gaveta dela, e só se deu conta quando ela riu como nunca rira antes: “Pantera, meu gatinho manhoso, nada de lengalenga. Ande aqui se esfregar na sua boneca”. À época, os dois já moravam juntos num conjugado e quem pagava a conta era o corpo moreno e assanhado de Fofolete. Certo (outro) dia, movido pelo perfume do amor, bateu à porta de um caminhão e lá estava Fofolete na boléia fazendo uma felação num homem barbudo de aspecto grotesco. Pantera estava pronto para matar, mas levou um estilete tão-somente e acabou ficando na exata condição para morrer. E morreu com um tiro no peito durante a Novena de São Francisco. O corpo foi velado na casa da mãe – uma pequena construção de barro, que ficava à beira de uma lagoa cheia de mosquito e lixo. A mãe não se esgueirou do esquife do filho um só instante. Volta e meia era consolada por uma vizinha, um parente, uma amiga, mas estava completamente desiludida. Uma tragédia e nada haveria de ser pior, pensava a mãe de Pantera, mas isto antes de um trio anunciar um assalto. “Não se respeita mais nem velório!”, gritou um senhor que ao fundo bebia. Os três homens encapuzados não levaram em consideração os protestos e empertigados pediram para que todos colocassem dentro da sacola, que um dos bandidos tinha à mão, seus pertences de valor, pois só assim ninguém sairia machucado (estavam armados de revólver). “Não se respeita mais nem casa de pobre!”, dizia consternada a mãe de Pantera, cuja pele estava alva como pérola, mas os bandidos pediram pressa, exigência esta que ia de encontro ao nervosismo dos presentes, que inclusive não tinham muito a oferecer, além de dois ou três celulares pré-pagos, algumas correntinhas e pulseiras de micheline, garrafas de cachaça e vales-transportes. No meio de toda confusão, brilhava o corpo de Tiago Pantera; percebia-se na sua expressão uma calmaria nada que ver com o estorvo ora vivido pelos que ali estavam generosamente para lhe prestar uma derradeira homenagem. Junto ao ataúde, uma bandeira do Ferroviário Atlético Clube, sua segunda maior paixão. Rosete Fofolete, a primeira das paixões, não se dignou a ir se despedir do morto, até pela saraivada de ofensas que receberia e, portanto, acabou escapando do dramático velório de Pantera, mas não este, por incrível que possa lhes parecer. Quando nada mais restava, eis que o mais forte dos bandidos resolve assaltar o próprio morto. “Nossa Mãe Santíssima, não se respeita mais nem morto!”, clamou a irmã do pobre Pantera, antes de desmaiar. O meliante afastou as rosas artificiais das laterais do féretro e começou a mexer nos bolsos de Pantera, numa total falta de respeito e consideração. Mas o que poderia querer levar este coitado desta vida, senão uma foto 3x4 de Fofolete? “Vocês já estão mortos para o mundo”, disse o sádico malfeitor, antes de deixar o retrato junto ao peito de Pantera.
Mendes Júnior
* Photo by Sigal Avni, " Untitled".

01 outubro, 2007

A síndrome de Ulisses: a decomposição de um sonho


CRÍTICA, sem data.


Com pouco incômodo – sendo necessário um passeio rápido pela internet nas páginas eletrônicas de psiquiatria – pode-se descobrir o significado da Síndrome de Ulisses. De acordo com o psiquiatra Joseba Achotegui, Professor Titular da Universidade de Barcelona e Diretor do SAPPIR (Servicio de Atención Psicopatológica y Psicosocial a Inmigrantes y Refugiados), o termo é uma analogia ao herói grego, personagem central da obra de Homero, Odisséia, em razão das dificuldades vividas por Ulisses em território além, sendo, no caso, diagnosticada ao imigrante, legal ou ilegal, que tenta a sorte, o sucesso e/ou a felicidade em outros países, mas que, infelizmente, lhe é dado como “alimento” unicamente uma realidade que em nada se parece com a fantasia que criou na cabeça antes de sair de sua terra natal, e “se caracteriza, por un lado, porque la persona padece unos determinados estresores o duelos y, por otro lado, porque aparecen un amplio conjunto de síntomas psíquicos y somáticos que se enmarcan en el área de la salud mental”¹ Na exata concepção do vocábulo, é a Síndrome del Inmigrante con Estrés Crónico y Múltiple.

Esticando um pouco mais a pesquisa, podemos nos deparar com a informação de que o imigrante sofre com outros problemas sérios: o alcoolismo, uso de drogas pesadas, o acometimento de doenças sexualmente transmissíveis e problemas dermatológicos, por exemplo, em função da situação degradante e desumana em que vive, mal tendo dinheiro para pagar dívidas contraídas pela subsistência (sobrevivência) e para o sustento do vício. Sem falar que muitos amanhecem e anoitecem sozinhos na ilegalidade e, portanto, sequer vão ao hospital ou ao posto de saúde quando sofrem de uma patologia qualquer, por medo de serem apanhados na clandestinidade. Esse imigrante acaba por se desfazer cedo do sonho de prosperar em terra alheia e não lhe resta outra alternativa senão aceitar a alcunha de escória.

Questões relevantes, como as supracitadas, são tratadas com muito sabor no romance do colombiano Santiago Gamboa, A síndrome de Ulisses, cujo título não poderia ser mais apropriado. O livro conta a “saga” de um jovem que abandona Bogotá, chamado Esteban, para estudar e se tornar escritor numa Paris até então desconhecida. Aquela cidade bela, romântica, cheia de luz e democrática – por que não multicultural – se transforma num lugar frio, escuro, de exclusão absoluta e de rara possibilidade – deixa de ser a Paris em festa de Hemingway ou mesmo de Fitzgerald. O jovem aspirante a escritor, que à noite lava pratos num restaurante oriental mas que também estuda na Universidade de Sorbonne, e que mora numa chambrita, um pequeno quarto, como se o destino de cada um fosse exatamente cair no mesmo fosso, se envolve com outros imigrantes de diferentes nacionalidades: Romênia, Líbano, Polônia, América Latina, Iraque, Córeia, Turquia, enfim, mas não por isto se vê em segurança:

“Então, no meio daquele grupo, fui acometido por uma intensa e opressiva sensação de orfandade, como se em algum ponto tivesse me extraviado do caminho e agora me encontrasse numa órbita distante, algo como o Planeta dos Macacos, só que com poloneses e romenos (...)”²

No entanto, não deixa de reconhecer a função maior dessa realidade:

“(...) mas enfim, disse a mim mesmo, minha vida, por escolha própria, tinha agora mais a ver com todos eles do que com minhas lembranças de Bogotá, e era justamente isso o que tinha diante de mim, nem mais nem menos (...)”

Nessa Paris desfocada, “numa cidade cheia de hostilidade e frio”, os imigrantes acabam se isolando em grupos multilíngües e somente em esporádicas ocasiões se relacionam com os nativos. Geralmente, estes acontecimentos estão permeados por uma ilusão causada numa esteira de festas regadas a drogas, sexo e bebidas, sendo este um desvio crucial: o imigrante, numa tentativa de fugir de toda ordem de problemas causados pelo meio, principalmente no âmbito psicológico, facilmente encontra alento no vício. No livro insere-se desde o consumo excessivo de drogas até o vício produzido pelo sexo sem medida, tema este que é tratado em diversas vertentes e, de certa forma, abertamente, indo da relação homoafetiva até a posição-inaugural par detruá. As pessoas que transitam pela história parecem usufruir muito bem desses “entretenimentos” a despeito da perda de “uma esperança de tudo se ajeitar”, como diria Chico Buarque, e, com isso, passam a creditar os destemperos e agruras à própria cidade e acabam se deixando cair por terra:

“(...) Para mim também esta cidade implicou uma apredizagem difícil, uma sangrenta lição daquilo que eu era e, principalmente, daquilo que queria ser (...)”

O jovem Esteban abandona sua Colômbia na afetuosa idéia de que irá se transformar em um escritor, muito embora saiba que a novela que produzira não era tão boa assim, no entanto, Paris, como um histórico centro cultural, poderia abrigar e enaltecer sua literatura – pensava ele –, mas o que não sabia era que uma teoria dessa não valia para um marginalizado feito ele, ou quem sabe o sucesso estivesse relacionado tão-somente com a competência no trabalho. Interessante observar que, no decorrer da narrativa, há dezenas de citações a autores e a títulos literários, em sua maioria estrangeiros, porém consagrados – gente que há muito deixou seu território para viver em cidades como Paris, contudo autores que conseguiram um confortável reconhecimento. Para servir de exemplo, Gabriel García Márquez escreveu sua segunda obra, Ninguém escreve ao Coronel, em janeiro de 1957, na capital francesa, romance este que já foi inclusive às telas da sétima arte. No entanto, não esqueçamos que as frustrações e as dificuldades no “exílio” são a tinta maior da escrita de muitos “Ulisses”:

“(...) a poesia e o exílio são velhos companheiros; o exílio traz com ele a tristeza do que se perdeu, o que já é em si um sentimento lírico (...)”

Nesse ponto, não se trata daquilo que o imigrante é ou faz, mas daquilo que ele queria ter sido – o sonho se perde, e isto parece inevitável. Não resta mais nada senão se subjulgar e tentar, quando muito, sobreviver. E há aqui uma bonita história. Deve-se levar em conta que o escritor Santiago Gamboa é licenciado em filologia hispância pela Universidade Complutense de Madri, estudou literatura cubana na Universidade de Sorbonne e atualmente vive em Roma, como correspondente da France Press, ou seja, qualquer semelhança com a personagem central do próprio romance não pode ser considerada apenas uma mera coincidência, obviamente com algumas diferenças.

O pano de fundo de A síndrome de Ulisses é a situação em que vivem os imigrantes, entretanto, a frustração de não conseguir alcançar uma posição digna, mais precisamente fazendo referência ao jovem escritor colombiano, já foi abordada em outro romance de Santiago Gamboa: Los impostores (2002), ainda sem tradução no Brasil, senão vejamos o que diz o próprio autor, em uma entrevista, a respeito deste livro: “Por un lado son todos escritores no triunfadores, frustrados en el caso del colombiano. Hay un escritor intrigante que quiere ser escritor y no escribir, que es el peruano, está enamorado de lo que significa ser escritor, sólo quiere firmar libros. Y el otro quiere la vanidad literaria a través de la filología. Todos son impostores, están queriendo ser algo que no son”³.

Os imigrantes com suas vidas miseráveis e já sem sonhos, contudo, conseguem extrair da rua resvaladiça uma certa dose de fortaleza:

“Ao dizer isto me deu um beijo e me bateu com o travesseiro: sinto muito que as coisas não tenham ido bem para você, disse, deve ser difícil viver assim nesta cidade, que oferece tanto a quem tem, você não pensou em voltar para Colômbia? Não, disse eu (…)”

É isso que Santiago Gamboa, por alguns críticos literários considerado sucessor de García Marquéz e Vargas Llosa, quer nos mostrar nesse belo romance.


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[1]. Extraído: http://www.pensamientocritico.org/josach0407.html
[2]. GAMBOA, Santiago. A síndrome de Ulisses. São Paulo: Planeta, 2006.
[3]. Extraído: http://www.literaturas.com/gamboa.htm


Mendes Júnior.
* Publicado no Cronópios, em 26/09/2007;
* Photo by Pablo Herrerías, "Nude".