21 abril, 2007

Caixa de madeira I

CRÔNICA 13/03/2007


Caixa de papelão, madeira apodrecida. Lá se foi o Nepomuceno sabe lá Deus para que morada. Mas ele volta. Ele deixou sua palavra como a garantia de todas as garantias de que voltava; ao menos, mesmo a viúva intercedendo, ele se despediu da gente. Onde diabos irá acomodar o menino já crescido da viúva? Não, não foi o Nepomuceno, apenas resolveu acertar umas coisas que devia, aparar umas arestas do troço de uma pensão antiga, e lá se foi pras bandas de Massapê com uma malinha que mal cabia todos juntos. Tinha nada para se queixar – Nepomuceno era luminoso, fazia das suas, mas ajeitava o tratado da vida com muito jogo de cintura, e tinha couro de artista: vendeu até pedaço de chão no quinto dos infernos. Aqui – também pudera – nós sofremos bem três dias com uma ventania de areia, seca que nem olho tinha valia, que colocou todo mundo no fundo de uma rede durante as setenta e duas horas, ou menos, ou mais, e foi daí em diante que a mulher virou viúva. Viúva para um bando de gente, mas cabrocha para o danado do Nepomuceno, que a levou de viagem num pau-de-arara. Pode ser que sim, quem vai saber ao certo? Eu meto as calças numa fogueira, se quer saber. Olha como o menino tem a fuça dele, o andar igual. É dele. É não. Quem vai saber decerto é dona Quitéria; aquilo lá já cedeu as ancas um tanto de vezes ao deleite de Nepomuceno. Fato consumado é falácia repetida: ora, por assim dizer, Nepomuceno varava noite em companhia da voz de outrem, parecendo coisa macumbeira. Vixe, Santíssima! Quem é o dono do verbo? Não me admira levar a viúva e o menino crescido pra bem longe daqui; ao menos, por enquanto, corre-se frouxo, não tem aperreio de povo conhecido. Vá lá conferir, já que não leva fé, se ele não coloca na sua frente aquele pai antigo que você tinha e que já foi pro beleléu. A voz pequena da cunhada do Artemiro foi que saiu de homem velho, mas era ela mesma. Até vai escrevendo, sem deixar escapar nada, tudinho dito do além. Peguei o menino e puxei pela orelha: que esculhambação é esta de fazer teu pai de besta, trazendo ele aqui? Que tolice é esta, rapaz? Tio? Que porra de tio é o teu que fica fazendo pouco da pelagem do povo ignorante? Isso é vacilo do grosso, seu cabra!, no que o menino revidou: Não vou tolerar esse tipo de agressão, ainda mais levando em conta que meu tio é ventríloquo. Não foi por não saber o que significava esta palavra, mas por ter escutado uns sons cobiçosos, vindos não sei donde, dizendo ao pai do menino crescido que derrubasse ali todas as moedas que tinha no bolso porque em curtíssimo prazo ele iria se amoldar num caixão de madeira, que fiquei tonto. Quem me acudiu foi o próprio menino que chamava o Nepomuceno de tio e que acabou perdendo o pai durante a ventania de areia, mas que também não sabia o que significava ventríloquo, muito embora Nepomuceno, feito pai de verdade, tenha lhe dito um dia que era um ventríloquo e que intermediava palavreado de morto. Mas não é que o tal morreu mesmo! Morreu de morte matada ou morrida? Sei não, mas tem gente que não se ajeita... Uma invenção assim não se faz contra um ventríloquo – corre-se um risco medonho. E o Nepomuceno volta? Ele me jurou que voltava.
Mendes Júnior
* Publicado na Cronópios, em 03/09/2007;
** Photo by Mendes Júnior.

Um comentário:

ana carolina rodrigues disse...

gostei de como utilizou as gírias nordestinas. deu até para se imaginar alguém falando. rsrsr. é raro se deparar com textos que tenham esta identidade tão enraizada. parabéns e muito sucesso!!