28 abril, 2007

O nome dela



CRÔNICA, 06/06/2006


Sempre a via passar no mesmo horário. Muito embora soubesse disto, mesmo assim, comecei a antecipar meu desjejum por causa do medo de que algo acontecesse e eu ficasse a ver navios. Era como se o meu dia dependesse da impressão que ela concederia aos meus óculos de grau. Isto deve ter durado algo em torno de dois meses e dia, além de uma conta exorbitante na padaria, até que fosse tomado pela emoção de ir ter com ela.

Na primeira vez que a vi, fiquei deslumbrado. Ela era bela. Parecia que nunca tinha sido de outra forma durante toda a vida. Lembro-me com detalhes de como se portava naquela manhã: um blazer cor de tangerina combinando com uma blusa preta, um salto marrom escuro, os cabelos presos por uma espécie de elástico, uma pasta de couro à altura do busto e, no semblante, uma certa preocupação com o horário. Sem dúvida, estava atrasada. Talvez, por esta razão, nem por um segundo tenha desviado sua atenção do rumo da frente; se assim o fizesse, provavelmente, encontrar-me-ia com a metade de um pão francês lutando por espaço dentro da boca. Foi melhor.

Nunca fui afeito à fácil amizade, mas tive de abrir uma exceção para tentar descobrir sua graça. Do garçom ao português dono da padaria, ninguém sabia informar. Aos poucos, sem que notasse, estava no meio de uma investigação pertinaz e silenciosa. E para que detalhe algum me fugisse da cachola, passei a fazer rápidas anotações no meu jornal; mais precisamente no espaço destinado às cruzadas. “Horizontais – 68. Rio que corta a cidade de São Paulo: hoje ela desceu a rua com um ar de felicidade”. É claro que os quadrinhos eram menores do que as observações, mas não corria o risco do flagrante de minha indiscrição.

A cada nova manhã, minhas elucubrações ganhavam corpo. Ela tinha rosto de Tereza, jeito de Maria, forma de Raimunda, boca de Joana e pernas de Sebastiana; tinha cabelo de Francisca, pele de Elisa, sorriso de Heloisa e aparência de Marisa; andava apressada como se não tivesse nome, mas rebolava como se tivesse todos; triste, parecia Cristina; feliz, também se parecia com Cristina. Sobressaltei-me algumas vezes. Com o tempo, em meio ao leite-morno-pingado-adoçado, perdi-me.

Pensei em desistir, mas já havia levado por demais adiante essa história. Não que estivesse completamente apaixonado por ela; estava era obcecado pelo nome dela. Provavelmente, conhecendo-a melhor, acabaria conquistando essa beltrana ou fulana ou sicrana. E por ser linda, bem que poderia ser Rosalinda. Fiquei nisto: seu nome era Rosalinda. E somente quando comecei a dividir minhas nobres noites de sono com cartas de amor endereçadas a uma suposta Rosalinda, foi que resolvi acabar com o mistério. Afinal, eu já freqüentava aquela padaria há meia centena de horas e quarenta cafés da manhã, aproximadamente.
Ao levantar da mesa, deixei-me guiar por uma só idéia: o nome dela fazia jus à sua beleza. Rosalinda tinha origem na Espanha e significava a junção de rosa com linda – tudo que ver. Nem precisava dos meus enormes cálculos para chegar ao resultado desta equação. Era simples: rosa mais linda era igual a esta moça desconhecida. Bastou um trote e pronto. “Com sua licença, senhorita” – adentrei com uma conversa fiada. “Desculpa interromper seu ritmo, mas suas feições lembram-me alguém muito familiar. Sem querer ser indelicado, a senhorita poderia me declinar a graça?” Notei um certo ar de constrangimento antes da sentença. “Himineia Terebentina Ministéio Salgado” – anunciou-me. Achei que nem precisava dizer o nome completo; tinha certeza de que este romance não ia vingar. Eu só tinha ido mesmo tomar um café. “Foi engano. Passar bem”.
Mendes Júnior.

2 comentários:

Suellen Luna disse...

Esse texto é maravilhoso!!!

PAULA disse...

GOSTO DA MANEIRA COMO ESCREVE SOBRE AS MULHERES,GOSTO DA RIQUEZA DE DETALHES,DO ENCANTAMENTO...ENFIM,SUA SENSIBILIDADE ME AGRADA.ESSE TEXTO É MUITO BOM E NO FINAL TEM UMA LEVEZA,UM TOQUE DE COMÉDIA.ADOREI!!PARABÉNS!PAULA