10 maio, 2007

O leitor Borges

Jorge Luis Borges

ARTIGO PUBLICADO NO SITE DO JORNAL O NOROESTE, 30/06/2006.

“Las calles de Buenos Aires / ya son mi entraña / no las ávidas calles / incómodas de turba y ajetreo / sino las calles desganadas del barrio / casi invisibles de habituales (...)”. Versos como estes retratam parte da obra do argentino Jorge Luis Borges – poeta, ensaísta e contista – que completou duas décadas de morte no dia 14 de junho deste ano. Boa parte de seu trabalho teve a linda Buenos Aires como pano de fundo, mas não a cidade que o turista anseia conhecer, e sim aquela fincada no subúrbio. Inclusive, as linhas supracitadas fazem parte de seu primeiro livro de poemas, Fervor de Buenos Aires (1923), no qual canta o fascínio pela periferia de sua cidade natal. O autor de El Aleph (1949) primeiro teve contato com a língua inglesa para depois ir para o espanhol. Com onze anos de idade traduziu o conto O príncipe feliz, do inglês Oscar Wilde, para o jornal El País. A razão para tanto, o próprio Borges explicou em inúmeras entrevistas que concedeu, oportunidade na qual afirmava que antes de conhecer a rua de sua infância, bem como sua cidade, conhecera a biblioteca do pai de “infinitos livros em inglês”. Desde cedo, o escritor argentino teve contato com os grandes nomes da literatura universal, por meio da vasta coleção paterna e, portanto, ia além: “na realidade, acredito nunca ter saído daquela biblioteca”. É importante ressaltar que o irrealismo borgiano tem seu fermento baseado nas inúmeras leituras e nos desafios emocionais. Por vezes, encontram-se em seus livros determinados autores, tais como Kafka, Schopenhauer (este considerado um dos maiores), Berkeley, Edgar Allan Poe e obras, como, por exemplo, Dom Quixote e Mil e uma noites. Seus críticos o consideram, por esta razão, um leitor por excelência. Mas o outro mote forte de sua escrita dá-se através da relação com a mãe e os fracassos sentimentais. Sua mãe, Leonor Acevedo de Borges, faleceu onze anos antes do escritor, em 1975. Recentemente, em um canal de tv pago, dentro das comemorações de seu aniversário de falecimento, pude constatar um pouco de tudo isto, numa entrevista com Jorge Luis Borges. Aliás, era a primeira vez que via o autor de Ficciones (1944) falando. E mesmo com uma voz cansada enalteceu a Argentina e seu caráter intelectual, abordou a literatura e seus autores de predileção e expôs um pouco suas feridas. O que mais me impressionou foi quando disse que tivera um sonho na noite anterior, em que morria, mas havia acordado muito feliz. O repórter, encabulado, fez de conta não ter entendido. Mas, (in)felizmente, para Borges, a morte era uma certeza que o deixava feliz. Talvez, quisesse estar no La Recoleta, descansando em paz. “Estas cosas pensé en la Recoleta / en el lugar de mi ceniza”. Jorge Luis Borges faleceu no dia 14 de junho de 1986, em Genebra. Trinta anos antes, Borges começava a ter os primeiros sinais de cegueira, justamente quando assumiu a direção da Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Estes dois fatos simultâneos, valeram-lhe uma homenagem do italiano Umberto Eco, em seu romance O nome da Rosa, através da personagem Jorge de Burgos, um monge cego guardião de uma enorme biblioteca. Para Borges, a leitura tinha um papel fundamental em sua obra, por isso, nunca abandonou o livro. Não se considerava melhor escritor do que leitor. Mis libros (que no saben que yo existo) / son tan parte de mí como este rostro (...)”.
Mendes Júnior.

Um comentário:

Cláudia disse...

Eu amo Borges!!!

queria pedir q me mandasse essa entrevista com ele, se caso ainda tiver...

Obrigada

Parabéns pelo texto...