16 julho, 2007

Sem os óculos ficamos cegos










ARTIGO, 16/07/2007.

Não faz tanto tempo – a memória é cruel, portanto, não queiram de mim uma data precisa –, o Governo Federal lançou uma instigante peça publicitária, que assanhava a estima de todo e qualquer brasileiro, fosse ele rico, pobre, analfabeto, mulato, albino, pardo, negro, naturalizado, calvo, magro ou gordo, enfim, fazia suspirar até o mais morno tupiniquim, em que se podia bater forte no peito e gritar orgulhosamente: “o melhor do Brasil é o brasileiro” e a frase de efeito “eu sou brasileiro e não desisto nunca”. Quantas vezes vimos o joelho do “fenômeno” sendo desmontado ao tentar driblar um adversário na Itália? Quantas vezes ficamos emocionados revendo a história do cearense que devolveu ao dono uma bolada de dinheiro, que foi achada no banheiro de um aeroporto? É quase improvável que a resposta não seja “muitas”.

Ufanismo deixado um pouco de lado, nem sempre o melhor de um País é seu povo, principalmente quando o assunto em questão é a preservação dos patrimônios públicos históricos e culturais. Pois bem, pela terceira vez, afanaram os óculos da estátua da imortal Rachel de Queiroz – aquela pequena mulher que parou na Academia Brasileira de Letras –, esculpida pelo artista plástico Murilo de Sá Toledo, que fica num dos bancos da praça General Tibúrcio (praça dos Leões), em Fortaleza. Ao que tudo indica, e pela perseverança do “brasileiro”, quantas vezes recolocados os óculos, serão novamente arrancados pelo descaso. Isto para ficarmos apenas com o crime de furto dos óculos, pois já tentaram deixá-la sem sapatos. Triste daqueles que cospem na própria cultura – estes serão sempre alvos fáceis da pior ignorância, haja vista a imponente estátua do jurista Clóvis Beviláqua – aquele que lutou pela codificação dos direitos cíveis –, localizada em frente à Faculdade de Direito do Ceará, que dia sim, dia não, surge pichada. Ressalte-se, no entanto, que na estátua do poeta popular Patativa do Assaré – aquele da Vaca Estrela e do Boi Fubá –, localizada no Centro Cultural Dragão do Mar, só não acontece o mesmo por causa da segurança local, mas, ainda assim, é alvo de brincadeiras impertinentes.

Para que ninguém cante o isolamento da nossa falta de educação e, de outra ordem, incompetência na fiscalização, a mais-que-justa homenagem, feita pelo Governo do Rio de Janeiro, aos 100 anos do poeta Carlos Drummond de Andrade – aquele que se incomodou com uma reles pedra –, por meio de uma estátua em plena praia de Copacabana, sofreu o primeiro “golpe” logo um dia após sua inauguração, em 31 de outubro de 2002, e vem perdendo os óculos com certa regularidade. Outro poeta que também não escapa das ações de vandalismos é Vinicius de Moraes – aquele que viu a coisa mais linda e mais cheia de graça a caminho do mar –; o poetinha queria passar uma tarde, ouvir o mar e falar de amor em Itapoã, e acabou transformado em estátua à beira-mar, de autoria do artista plástico Juarez Paraíso. Nela, Vinicius de Moraes aparece sentado numa cadeira, com o braço apoiado a uma mesa e com uma caneta na mão direita rabiscando num caderno, por certo, um novo poema, e ao seu lado uma outra cadeira para receber os “amigos”, isto quando a cadeira do visitante está no local, pois o mais comum é que não esteja; até o assento do poetinha já passou por recomposição diante dos danos causados por mãos grosseiras.

Mas será esse o povo que orgulha uma Nação, o mesmo povo que não se dá conta de sua riqueza cultural, que mergulha fundo na estupidez, que tenta não deixar qualquer herança de si, o mesmo povo cego que nada preserva, que sequer pensa nos seus?, mas, então, quem terá perdido os verdadeiros óculos? A Rachel, o Carlos, você ou eu? Nós, sem dúvida. E quem somos nós? Aqueles... aqueles... aqueles... aqueles...
Mendes Júnior
* Imagens de autores desconhecidos.

Um comentário:

Isabela disse...

As vezes dá vontade de perder os verdadeiros óculos para não enxergar o tamanho da ignorância do nosso povo. Quero morrer acreditando que ainda podemos mudar algo na educação dos brasileiros mas acho que vou desistir logo-logo. Talvez eu não seja 100% brasileira. Não torço pro Brasil na copa do Mundo, odeio o Pan e não quero mais voltar pra cá, a corrupção exagerada me espanta. Saio do barco antes que ele afunde de vez.

"Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro desta flâmula
- Paz no futuro e glória no passado.

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte."

'Au revoir' Brasil! Levo comigo apenas o Fabiano e a Sinhá Vitória de Vidas secas (e a Baleia, claro!) como símbolo do nosso povo nordestino. As poesias de Vinícius, as canções do Chico, Cartola, Tom.... e a esperança de dias melhores.