11 julho, 2007

Um café



Fev/2007


Sorte minha encontrar uma mesa vazia. Acabei sentando próximo a um casal. Sedento por uma caneca de café, não hesitei em entrar no primeiro pé-de-chinelo do centro da cidade. A longa chuva me causara um sincero estrago, tão logo desembarquei na Rua das Flores: fiquei literalmente ensopado e, por isso mesmo, necessitava com urgência de abrigo. Eis outra razão que não me permitia refletir. A tal da entrevista de emprego – que enfim me levara a andar de ônibus depois de bons anos – estava marcada para dali a uma hora, sobrando-me relativo tempo para recompor minhas vestes e, quem sabe, suficiente para uma dúzia de cigarros.

Infelizmente, não me enganei quando imaginei uma borra preta no lugar de um café bem fresco: era difícil de tragar, e a música de fundo também não ajudava. Tudo parecia tão decadente que preferi segurar o mijo por medo do que poderia encontrar no toilette. Uma moça amorenada teve a petulância de me oferecer um programa àquela hora do dia, já quase se aboletando ao meu colo. Respondi-lhe em tom ríspido que fosse fornecer em freguesia distante. A moça saiu descomedida e por pouco não esbarrou no garçom. Acendi um novo cigarro com a chama do velho e me pus a observar um mendigo escondido em guarda-chuva alheio ao pé da porta.

Estiquei o braço na condição de cliente, mas um gordo asqueroso que ficava atrás do balcão sequer me deu atenção. Fui até o casal ao lado pedir emprestado o jornal esquecido na cadeira. “Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!” – falou o cavalheiro, batendo com força na mesa. Recuei por entender que não me era permitido interromper uma discussão assim por causa do meu entretenimento. Preferi ficar sem o jornal, mas não consegui desviar minha atenção dos dois.

Nunca gostei de usar gravata; sempre achei um incômodo sem precedente e um luxo excessivo. “Não fosse por esta porcaria de entrevista”. Desabotoei a gola e dei ao pescoço mobilidade. Agora fitava o casal sem parar. Pela maneira de se portar, Alice parecia uma mulher bem nascida, não combinando com o ambiente rude. Vestia-se divina e elegante, aparentando nobreza diante do homem – de quem eu não conhecia o nome – que por vezes bradava em sua direção. Pelo que me chegou aos ouvidos inescrupulosamente, eles mantinham um caso há ano e meio; o tal deveria ser um professor universitário renomado que, diante de inúmeras solicitações de palestras mundo afora, deveria, neste momento, estar ministrando um curso de férias numa universidade francesa e, no entanto, foi descoberto um autêntico malandro que não tinha onde cair morto. Toda aquela pose de intelectual não era proveniente de suas tantas especializações, mas de sua lábia nociva.

Alice, de soslaio, enxugava uma lágrima. Parecia gostar dele de verdade. E o engraçado é que, embora estivesse diante de um grave constrangimento, o ficto ainda clamava por justiça. Nem quando ela anunciou uma gravidez inesperada e lhe cuspiu no rosto o desgraçado deixou escapulir sua mentira. “Nunca mais, entendeu?! Nunca mais!” – gritou Alice. Antes de sair, jogou-lhe no peito uma nota de dinheiro amassada. “Pois não, professor, deseja a conta?” – perguntou o garçom ao moço. Quando dei por mim, já tinha perdido a entrevista.

Mendes Júnior.
* Crônica publicada no site da revista Piauí;
** Photo by Kim Ji Hae, "Wasting Springs".

2 comentários:

Isabela disse...

Que foto, hein?! Desse estilo posso fazer milhares!

Não some!

bjs

Mariana Sanford disse...

oi! como vai?! gostei do que li! e ai, quando lança o livro?!
beijos