03 junho, 2007

Ao nascer de uma nova manhã


03/06/2007.
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas
(Chico Buarque)

E quando todos decidem passar com pressa, correndo, caminhando, andando, sem reparar nos lados, sem sentir o som, sem se deixar invadir pelo perfume da brisa solta, com sorriso no rosto, sério, sem expressão alguma, em silêncio, cantando, conversando, em marcha pulsante, com tudo no lugar, com absolutamente nada, mas nada mesmo, onde deveria estar, disformes, corpos suados, desenhados, outros nem tanto, no começo de uma manhã, ao nascer do novo sol, numa antiga pedra banhada de sal, na areia morna, tranqüila e branca, lisa, sensível e saudosa, eis que um beijo surge tão diferente, tão desesperadoramente diferente, jamais visto tão cedo, tão claro, tão lúcido, tão brando... O beijo que não se ilude com o que está em volta – essa correria toda, uma coisa esteticamente confundida – e que, portanto, se insere na paisagem como a claridade nova, que não se faz de rogada e vem surgir diante da pontualidade de uma inesperada paixão, iluminando o abraço terno que durará eterno, que não se ajoelhará perante a tudo aquilo que é lançado contra o tempo; aliás, não se deve nunca declamar o tempo, sequer lembrar dele, não se aconselha a ver as horas – são ainda horas tão virgens, muitos ainda nem levantaram, nem leram as notícias –, afinal, as limitações do tempo de nada servem quando se pode beijar assim, quando se pode ver pela vez primeira o sol abrindo caminho pelas ondas do mar, quando se pode dispor da luz para fugir pela estrada que ele oferece – um tapete amarelo que se contorce ao movimento da água. Nuvem alguma seria capaz de conter o espelho que se forma bem aos olhos do desejo que não se furta em sonhar, em ir, sair, seguir, chegar até o final da vereda e transpor o brilho que se espalha pelos grãos, pela espuma, por toda a água – que os românticos sempre consideraram infinita – e pelos raios que tecem “versos como quem refaz a vida”. O que tornam as nuvens mágicas é justamente o momento em que elas insistem, por segundos, em ficar sobrepostas ao verdadeiro sol e deixam fios rosas extravazarem por frestas, afinal, as limitações do tempo de nada servem quando se pode beijar assim. Somente o beijo é tão demorado, como toda e qualquer magia, até por que coisa nenhuma vai além quando duas bocas se encontram, nada leva o pensamento tão deliciosamente longe, nada faz guiar dois corações com tamanha força. E os dois permanecem como se fizessem parte da antiga pedra banhada de sal, na “praia branca como tabuleiro de salina”, enlevados, assistindo ao instante incessante, com uma linha reluzente à frente, convidando – convidando não, intimando – para que todo o amor existente no mundo seja jurado, mas não com um juramento gélido, indelével, sangüíneo, desse que se vê aos montes, porém aquela espécie que faz sorrir de graça, do nada, da manhã ou, pelo menos, aquele que se declara solenemente com um beijo, um beijo como aquele; caso contrário, de que adiantaria viver? Deve-se existir em função de contemplações dessa natureza, toques assim, sentimentos assim, abraços assim, sonhos assim... Os outros, estes que vão e vêm, que não se dignam sequer a reparar nos lados, não viram nada, não sabem de nada, não pararam para nada, nunca vão entender o amor, nem ao menos vão sofrer por uma paixão, como cantou certa vez o poeta camarada. Eles, os dois, não; faziam parte de um mesmo contexto, aliás, que não seria muito nem exagerado afirmar que era deles tão-somente e de mais ninguém. Os segundos viraram minutos, que viraram horas, que viraram dias, e o sol nasceu, brilhou, resplandeceu, concedeu ao amor a linda estrada amarela, e cresceu, por fim, mas sem se importar com o tempo, afinal, as limitações do tempo de nada servem quando se pode beijar assim.

Mendes Júnior.
* Photo by André Adeodato.

4 comentários:

Anônimo disse...

Era uma vez, um comentário que foi pro bebeléu....mas mesmo assim a dona dele insiste em dizer que adora ver o sol nascer. bjs

Mendes Júnior disse...

Minha querida amiga Isabela fez um lindo comentário a respeito desse texto, porém, como ela diz, "foi pro beleléu". Mesmo no beleléu, agradeço pelas bonitas palavras e ressalto a beleza de se ver o sol nascer, ainda mais quando se está em boa companhia...

"Quero assistir ao sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir os pássaros cantar,
Eu quero nascer, quero viver"
(Cartola)

Anônimo disse...

Quando O Sol Nascer
Maskavo

Composição: Marceleza, Bruno, Prata e Quim

Quando o sol nascer
Quando ele crescer
Só quero descobrir
O que será de nós

A lua vai chegar
Inevitável próximo dia
O que eu queria

A noite durar
O quanto a gente quiser
O dia vai raiar
Inadiável sua partida
Viver outra vida

Mas o meu coração
Não vai te esquecer

Ref.:
Quando o sol nascer
Quando ele crescer
Só quero descobrir
O que será de nós
Eu quero acreditar
O acaso não existe na vida

Estou convencido
Que seja o que for
Vai nos favorecer

E você vai voltar
Invariavelmente mais linda
Prazer da rotina
Poder te encontrar

E eterno amor viver

Anônimo disse...

Eu não conheço essa música, mas fica valendo. :-) tirando o estilo pop dela, a letra até que dá pra passar. bjs