30 agosto, 2007

Questões sociais e de conhecimento no pensamento positivo

Auguste Comte
ARTIGO, 29/08/2007.

Analisando o trabalho Há uma ordem imutável na natureza e o conhecimento a reflete: Auguste Comte (1798-1857), de Maria Amália Anderly, encontramos uma interessante abordagem sobre a teoria criada pelo francês Auguste Comte, no caso, o Positivismo, especificamente tendo por base sua obra maior: “Discurso sobre o Espírito Positivo”, donde podemos, a priori, nos questionar sobre as leis do universo e da sociedade como sendo imutáveis. Obviamente, tal assertiva foi (bem) aceita no século XIX, o que não podemos afirmar para a contemporaneidade. Como exemplo, registra-se que a idéia de ordem e progresso teve grande valor por ocasião da construção de nossa República, inclusive servindo como lema na bandeira pátria.

Antes de adentrarmos no mérito da questão, ressaltamos que a base do pensamento positivista foi sustentada em meio aos conflitos políticos vividos pela França durante o século XIX. A idéia de Comte era de que permanecesse o poder na mão da burguesia, pois, com isso, defendia a “simples” manutenção deste poder, já que desta maneira aquele vigente seria fortalecido e evitaria ameaças revolucionárias e, conseqüentemente, ter-se-ia um Estado sedimentado. Além do ideário político, Comte cria “visões” científicas – a sociologia – e funda uma religião social, “como base de uma pretensa reforma social” [1], o que claramente é apontado por alguns como contradição no posicionamento, embora fosse relativamente entendido que a reforma social era conseqüência da ciência que estava criando.

De acordo com leitura do “Discurso sobre o Espírito Positivo”, o termo positivo dá a noção de conflito entre o útil e o ocioso, a certeza e a indecisão, o preciso e o vago – que não se confunde com certeza nem indecisão – e o emprego da palavra “positivo” contrário ao de “negativa”, enfim, consiste na substituição do absoluto pelo relativo. A bem da verdade, considerava que o Positivismo era justamente o desenvolvimento do pensamento humano, no que chamou de lei dos três estados: estado teológico, como início da inteligência do homem; o estado metafísico, uma mudança em relação ao primeiro estado; e, por fim, o positivo, no qual se percebe a impossibilidade do absoluto, buscado o ser humano priorizar o “raciocínio” e a “observação”. Tais estados são decorrentes de uma evolução histórica, que se pode pensar como evolução – um desenvolvimento de espírito e conhecimento. Assim considerado, a evolução é contínua e linear, ou seja, segue sem rupturas, como também Comte pensou para o caso da história, que seria “um conjunto de fases imóveis em si mesmas, que num contínuo se substituem umas às outras, de forma que cada estágio é superior ao anterior”[1]. Seguindo o raciocínio, chega-se ao estado superior em que há o crescimento do espírito, que, por sua vez, torna-se positivo. Comte entende que essa ordem constitui a condição fundamental do progresso.

Aqui, então, surge a concepção de ordem que Comte determinou como uma transformação ordenada em que não é possível mudanças violentas e, portanto, permanece “num contínuo”, bem como a idéia de progresso, que leva a um melhoramento linear. Assim, tem-se um avanço (progresso) em linha reta e uma ordem preestabelecida permitindo o desenvolvimento do espírito e o pensamento, de acordo com leis já estabelecidas. Comte nos diz que ordem e progresso são inseparáveis.

Outra concepção da teoria positivista é de que é considerado conhecimento real apenas aquilo que pode ser observado, senão vejamos:

“(...) Seja qual for, porém, o modo, racional ou experimental, de proceder à sua descoberta, é sempre de sua conformidade, direta ou indireta, com os fenômenos observados que resulta exclusivamente sua eficácia científica” [2]

Para Comte, os fatos são acumulados pela observação, que é submetida à imaginação, que permite fazer a relação entre eles, estabelecendo leis gerais e invariáveis. Entende-se que o pensamento científico é baseado na observação desses fatos e nessas relações, que são determinadas pelo raciocínio. Para o conhecimento científico positivo não é possível hipóteses, mas a certeza e a precisão; não admite dúvidas, indeterminações ou especulações. No entanto, Comte também aceita que o conhecimento possa ser relativo, já que o homem somente o alcança diante de sua condição, ou seja, a transformação e a incorporação fazem com que o homem utilize o conhecimento de forma mais ampla e com mais fatos, mas nem tudo pode ser observado por ele. Uma coisa, no entanto, Comte deixa muito claro: não é admitida qualquer indeterminação e/ou acaso nos fenômenos da natureza.

Comte também estabelece uma distinção de ciências em abstratas e concretas: as ciências abstratas têm por objeto a descoberta de leis que regem diversas classes de fenômenos, enquanto que as concretas “consistem na aplicação dessas leis à história efetiva dos diferentes seres existentes” [2]; as outras ciências são consideradas secundárias. Comte divide as ciências abstratas e concretas em astronomia, física, química, filosofia e física social, as quais devem utilizar método único, o que não significa que elas devam se submeter aos mesmos procedimentos de investigação, mas se refere à aplicação da filosofia positiva a todos os ramos do conhecimento. De acordo com Maria Amália Anderly, “a garantia de uma unidade do método a todas as ciências está associada ao que Comte talvez considere seu grande empreendimento: a criação de uma física social, ou uma sociologia”.

Com a teoria positivista, entende-se que qualquer subordinação ao poder, certamente, corrompe a ordem preestabelecida, sem contar que induz a falsa noção de haver diferentes grupos sociais com interesses opostos e insolúveis. Portanto, é necessária uma ordem para que as instituições permaneçam fortes, daí programa social de Comte, que se baseava em dois pilares: educação universal e trabalho para todos. As idéias de Comte eram coerentes no sentido de evolução, desenvolvimento e transformação de espírito, a fim de refletir de forma positiva nas idéias e na moral.

Então, voltamos à religião criada por Comte: a religião da humanidade, a qual dizia que deveria ser trabalhada a vida moral e não a material – permitir reformas necessárias ao progresso do espírito positivo. Comte, através do Positivismo, consegue a coerência ao combinar ciência e religião.

[1]. Há uma ordem imutável na natureza e o conhecimento a reflete: Auguste Comte (1798-1857), de Maria Amália Anderly;
[2]. COMTE, Auguste. Discurso sobre o Espírito Positivo. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

Mendes Júnior.

Um comentário:

Glenda Miranda disse...

Quando achava que estava muito presa às leituras do vestibular, você, moço, deu um jeito de chamar minha atenção. Sinto-me, ainda, distante das leituras agradáveis que não estejam acopladas a uma necessidade de saber, de ler, de aprender, de lembrar. Agora, no entando, essa leitura necessária vai se tornar muito mais prazerosa depois de um presente tão... singelo e, ao mesmo tempo, significativamente GRANDE! Nem tanto pelo livro em si, mas pelo que ele e o ato de dá-lo representa pra mim.
Enfim, obrigada!